O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, está a ser criticado pelas suas declarações depreciativas sobre a ideia da Europa se separar da proteção de Washington.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, está a ser criticado depois de ter dito que a União Europeia deveria "continuar a sonhar" relativamente à ideia de se tornar independente dos Estados Unidos, o seu maior aliado, em questões relacionadas com a segurança e a defesa.
Os seus comentários surgiram na sequência da tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de confiscar a Gronelândia à Dinamarca por via de medidas punitivas, uma disputa sem precedentes que colocou a aliança transatlântica de quase 80 anos à beira do colapso.
As tensões foram atenuadas por um acordo sobre a segurança do Ártico mediado por Rutte.
"Quando o presidente Trump faz coisas boas, eu elogio-o e não me importo que ele publique mensagens de texto", disse Rutte aos membros do Parlamento Europeu na tarde de segunda-feira, referindo-se à divulgação, por Trump, das comunicações pessoais entre os dois homens.
"Se alguém aqui pensa, mais uma vez, que a União Europeia, ou a Europa como um todo, pode defender-se sem os EUA, continue a sonhar. Não pode. Não podemos. Precisamos uns dos outros."
Rutte argumentou que as nações europeias teriam de gastar 10% do seu PIB, em vez dos 5% previstos na meta atual, para compensar a perda do apoio de Washington.
"Teriam de construir a vossa própria capacidade nuclear. Isso custa milhares e milhares de milhões de euros", disse. "Nesse cenário, perderiam o principal garante da nossa liberdade, que é o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos. Por isso, boa sorte!"
A intervenção de Rutte no Parlamento atraiu rapidamente o interesse das redes sociais, onde os clips foram amplamente partilhados pelos utilizadores e analisados por especialistas.
Em resposta, Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia, afirmou que o foco político deve continuar a ser tornar a UE "cada vez mais resiliente" e "cada vez mais independente" em "várias frentes", incluindo a segurança e a defesa.
"Temos uma história positiva para contar em termos da forma como conseguimos reduzir a nossa dependência das importações de combustíveis fósseis da Rússia", afirmou Paula Pinho, na tarde de terça-feira. "Esta dependência verifica-se também noutras áreas: na defesa, nas matérias-primas essenciais."
"Estamos empenhados em fazer tudo o que é necessário para reduzir essa dependência, para reduzir essa exposição."
Paula Pinho referia-se ao discurso proferido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na semana passada, no qual apelou a uma maior "independência europeia" em resposta à crescente instabilidade geopolítica e aos confrontos. Von der Leyen também deu a conhecer uma futura estratégia de segurança, com especial destaque para a região do Ártico, alvo de disputas acirradas.
"Estamos a reunir uma série de medidas com um único objetivo", afirmou Pinho. "Para garantir que podemos [alcançar] essa independência gradual."
"Trump não é meu pai"
No entanto, a reação mais feroz contra Rutte veio de França, defensora ferrenha do conceito de "autonomia estratégica" e da preferência pelo "Made in Europe" em licitações públicas.
"Não, caro Mark Rutte. Os europeus podem e devem tomar conta da sua própria segurança. Até os Estados Unidos estão de acordo. É o pilar europeu da NATO", afirmou o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, na sua conta no X.
Benjamin Haddad, vice-ministro francês dos Assuntos Europeus, ecoou a mensagem, salientando o facto de a Europa, e não os EUA, ser o maior doador a apoiar a Ucrânia.
"Temos de ir muito mais longe [na defesa]. Não temos outra opção. Vemos um mundo que está a tornar-se mais brutal, mais violento. Vemos ameaças vindas de aliados americanos contra a soberania da Dinamarca", disse Haddad, numa entrevista à DW.
"Chegou a hora de tomarmos as rédeas da situação e defendermos a nossa segurança. Mas a verdade é que os europeus não são fracos. Temos as ferramentas. Temos os instrumentos."
Nathalie Loiseau, uma importante eurodeputada francesa que esteve presente na reunião da comissão parlamentar em que Rutte discursou, fez uma avaliação mais dura.
"Foi um momento vergonhoso", escreveu Loiseau nas suas redes sociais. "Rutte pensa que ser rude com os europeus vai agradar a Trump. Não precisamos de um fanático de Trump. A NATO precisa de reequilibrar os esforços dos EUA e da Europa."
Entretanto, Charles Michel, antigo presidente do Conselho Europeu, ridicularizou o chefe da NATO por ter chamado Trump de "papá" durante a guerra do ano passado entre Israel e o Irão. Trump usou, mais tarde, o termo para defender as suas próprias decisões de política externa.
"Caro Mark Rutte, está enganado. A Europa vai defender-se. E Donald Trump não é meu pai", disse Michel. "O futuro da Europa exige visão, coragem e liderança. Não resignação, submissão e fatalismo."