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Guerra no Irão agrava inflação, alerta presidente do BCE

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, fala aos jornalistas após uma reunião do conselho do BCE em Frankfurt, Alemanha, na quinta-feira, Ma
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, fala aos jornalistas em conferência de imprensa após reunião do conselho do BCE em Frankfurt, Alemanha, quinta-feira Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
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De Piero Cingari
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BCE mantém juros e alerta que tensões no Médio Oriente e riscos do petróleo podem fazer subir a inflação: cenário base aponta 2,6% em 2026, mas choques energéticos podem elevá-la para 3,5% ou 4,4%, consoante a duração das ruturas de oferta.

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, lançou um dos seus alertas mais diretos até agora sobre as potenciais consequências inflacionistas do conflito em curso envolvendo o Irão.

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Falando após a reunião de quinta-feira do Conselho do BCE, que manteve as taxas de juro inalteradas, Lagarde afirmou que a guerra "tornou as perspetivas significativamente mais incertas" e terá "um impacto significativo na inflação no curto prazo".

Choque energético no centro das novas previsões de inflação do BCE

Lagarde sublinhou que a guerra está a criar "riscos em alta para a inflação", sobretudo através dos mercados de petróleo e gás, com consequências imediatas para os preços ao consumidor.

As projeções mais recentes dos serviços do BCE apontam para uma inflação média de 2,6% em 2026, abrandando depois para 2,0% em 2027 e 2,1% em 2028. A revisão em alta face às previsões anteriores resulta sobretudo da subida dos preços da energia associada ao conflito no Médio Oriente.

A inflação subjacente, que exclui energia e alimentos, deverá também manter-se ligeiramente acima da meta ao longo do período de projeção, refletindo os efeitos indiretos da energia a propagar-se pela economia.

Ainda assim, Lagarde deixou claro que este cenário assenta em perturbações relativamente contidas no fornecimento de energia.

Num cenário mais adverso — que envolva perturbações mais fortes e prolongadas no abastecimento de petróleo e gás através do estreito de Ormuz — a inflação poderá subir para 3,5% em 2026.

Num cenário severo, em que os preços da energia permaneçam elevados durante mais tempo, a taxa de inflação global poderá atingir 4,4% em 2026.

O BCE está particularmente atento aos chamados efeitos de segunda ordem, em que um choque energético inicial se propaga para lá dos combustíveis, influenciando salários, serviços e a inflação subjacente.

"Se forem persistentes, preços da energia mais elevados podem conduzir a um aumento mais generalizado da inflação, através de efeitos indiretos e de segunda ordem — uma situação que exige acompanhamento atento", afirmou Lagarde.

Crescimento revisto em baixa: aumentam riscos de estagflação

As pressões inflacionistas vindas dos mercados de energia surgem numa altura particularmente delicada para a economia da área do euro.

O crescimento do PIB foi revisto em baixa para apenas 0,9% em 2026 — praticamente estagnado — à medida que a guerra penaliza os rendimentos reais, a confiança das empresas e o consumo.

O resultado é um enquadramento de política económica mais complexo.

O mesmo choque petrolífero que ameaça fazer subir a inflação deverá também pesar sobre o crescimento, ao reduzir os rendimentos reais e enfraquecer a confiança.

Lagarde reiterou que um conflito prolongado aumentaria simultaneamente a inflação e enfraqueceria a atividade económica, complicando a resposta do BCE.

Lagarde defende abordagem reunião a reunião, mas analistas já antecipam subidas de juros

Lagarde salientou que os decisores de política monetária estão a acompanhar de perto indicadores-chave, incluindo a evolução dos salários, das expectativas de inflação e dos mercados de energia.

"Não estamos a assumir antecipadamente um determinado trajeto para as taxas de juro", afirmou, acrescentando que o BCE está preparado para ajustar os seus instrumentos, se necessário, para garantir que a inflação regressa de forma sustentável ao objetivo.

"O BCE dificilmente mostrará a mesma paciência que teve durante o último choque inflacionista", advertiu Sylvain Broyer, economista-chefe para a região EMEA na S&P Global Ratings.

Segundo Roman Ziruk, analista sénior de mercados na empresa global de serviços financeiros Ebury, trata-se de uma "orientação mais restritiva" por parte do BCE.

"É mais provável que o BCE suba as taxas do que as corte este ano, sendo que os cortes parecem agora estar fora de questão", afirmou.

"As regras do jogo mudaram. A escalada das tensões geopolíticas alterou o enquadramento, reabrindo a possibilidade de novas subidas das taxas de juro voltarem à agenda", disse Joe Nellis, professor de Economia Global na Cranfield School of Management e conselheiro da MAH.

Reações dos mercados

O euro valorizou 0,5% para 1,1520 dólares face ao dólar norte-americano esta quinta-feira, enquanto as bolsas europeias passaram para terreno negativo com a forte subida dos preços do petróleo e do gás.

O Brent negociou-se em torno de 111 dólares por barril, uma subida de cerca de 55% desde o início da guerra, enquanto os preços do gás natural europeu avançaram 13% para 61 euros por megawatt-hora. Ambos dispararam durante a noite após o ataque do Irão ao complexo de GNL de Ras Laffan, no Qatar, que intensificou os receios de perturbações na oferta.

O índice alemão DAX caiu 2,39% para 22 940 pontos às 16:00 em Frankfurt, enquanto o índice pan-europeu Euro STOXX 50 recuou 1,8% para 5 635.

As yields das obrigações alemãs Bund recuaram ligeiramente para 2,95%, depois de terem tocado um máximo intradiário de 3%, o nível mais alto desde setembro de 2023.

Próximos passos

Com a situação no estreito de Ormuz por resolver e mercados petrolíferos sujeitos a reavaliações súbitas perante qualquer escalada envolvendo o Irão, o BCE enfrenta um leque invulgarmente amplo de cenários antes da reunião de 30 de abril.

A mensagem de Lagarde foi, essencialmente, de paciência vigilante: o banco dispõe dos instrumentos, da base de dados e, por agora, da margem de manobra necessária para esperar e observar antes de agir.

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