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Cuba sob pressão: quem é Raúl Castro, o homem que herdou a revolução

Um homem fala ao telefone junto a imagens de Raúl e Fidel Castro em Havana, Cuba, na quarta-feira, 20 de maio de 2026.
Um homem fala ao telefone junto a imagens de Raúl e Fidel Castro, em Havana, Cuba, na quarta-feira, 20 de maio de 2026 Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All right reserved
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De Christina Thykjaer
Publicado a Últimas notícias
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Irmão de Fidel Castro e figura-chave do poder em Cuba durante décadas, o antigo dirigente volta a estar em foco após a acusação dos Estados Unidos, numa altura de crescente pressão sobre o regime.

A acusação formal anunciada esta semana pelos Estados Unidos contra o antigo presidente cubano Raúl Castro é o episódio mais recente da campanha de pressão que a administração Trump tem mantido durante meses contra o governo comunista da ilha. Castro foi acusado pelo alegado papel no abate, em 1996, de dois aviões ligeiros operados pelo grupo Hermanos al Rescate, sediado em Miami. Nessa altura, Castro era ministro da Defesa, enquanto o irmão, Fidel Castro, líder da Revolução Cubana e figura central da política da ilha durante mais de meio século, chefiava o país como presidente.

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Atualmente, aos 94 anos, Raúl Castro continua a ser uma figura central do poder cubano, mesmo depois de ter abandonado oficialmente a primeira linha política. Irmão mais novo de Fidel Castro, os dois lideraram a revolução que derrubou, em 1959, o ditador Fulgencio Batista e instaurou o sistema que ainda governa a ilha.

Quem é Raúl Castro?

Os irmãos Castro nasceram em Birán, no oriente de Cuba, filhos de um latifundiário galego emigrado para a ilha. Fidel Castro tornou-se rapidamente o rosto político e ideológico do movimento revolucionário, enquanto Raúl Castro assumiu, desde cedo, um perfil mais militar e organizativo. Ambos participaram no assalto ao quartel Moncada, em 1953, uma tentativa falhada de insurreição contra a ditadura de Fulgencio Batista que terminou com a sua detenção e posterior exílio no México.

ARQUIVO: Em 14 de março de 1957, Fidel Castro, jovem líder guerrilheiro antibatista, ao centro, aparece ao lado do irmão, Raúl Castro, em primeiro plano, e de Camilo Cienfuegos.
ARQUIVO: Em 14 de março de 1957, Fidel Castro, jovem líder guerrilheiro antibatista, ao centro, aparece ao lado do irmão, Raúl Castro, em primeiro plano, e de Camilo Cienfuegos. ANDREW ST. GEORGE/Copyright 2018 The AP. All rights reserved.

A partir daí, reorganizaram o movimento e prepararam o regresso a Cuba. Em 1956, desembarcaram na ilha a bordo do iate Granma, acompanhados por um pequeno grupo de insurgentes, entre eles o argentino Ernesto 'Che' Guevara. Depois de sofrerem pesadas baixas iniciais, os sobreviventes recuaram para a Sierra Maestra, onde iniciaram uma guerra de guerrilha que foi ganhando apoio popular, sobretudo entre camponeses e setores descontentes com a corrupção e a repressão do regime de Batista.

Nos dois anos seguintes, a guerrilha combinou ações militares com uma estratégia política e de propaganda que foi enfraquecendo progressivamente o governo. No final de 1958, o colapso do exército batistiano e a perda de apoio interno levaram Batista a fugir do país. A 1 de janeiro de 1959, as forças revolucionárias entraram em Havana, consolidando a vitória.

ARQUIVO: Fidel Castro, à direita, Osvaldo Dorticos, ao centro, e Raúl Castro, em Havana, Cuba, janeiro de 1966.
ARQUIVO: Fidel Castro, à direita, Osvaldo Dorticos, ao centro, e Raúl Castro, em Havana, Cuba, janeiro de 1966. AP Photo

Depois da tomada do poder, Fidel Castro monopolizou, durante décadas, a liderança política de Cuba, primeiro como primeiro-ministro e depois como presidente, transformando rapidamente o sistema político e económico do país. Raúl, por sua vez, ficou responsável pelas Forças Armadas Revolucionárias, tornando-se ministro da Defesa em 1959, cargo que ocupou durante quase meio século. A partir dessa posição, construiu grande parte do aparelho militar e de informações de Cuba e foi considerado o segundo homem mais poderoso do regime.

A presidência de Raúl Castro e a aproximação com os EUA

Quando a saúde de Fidel começou a deteriorar-se, em 2006, Raúl assumiu provisoriamente a presidência e, dois anos depois, foi nomeado oficialmente chefe de Estado. Embora tenha mantido intacto o sistema de partido único, lançou uma série de reformas económicas limitadas destinadas a aliviar a crise estrutural da ilha. Sob o seu mandato, alargou-se o espaço para pequenos negócios privados, flexibilizaram-se as restrições para viajar ao estrangeiro e aumentou o acesso da população à internet e aos telefones móveis.

Um dos momentos mais importantes da sua presidência chegou em 2014, quando liderou, juntamente com o então presidente norte-americano Barack Obama, o histórico degelo diplomático entre Washington e Havana. A aproximação permitiu a reabertura de embaixadas e restabeleceu relações diplomáticas depois de mais de meio século de hostilidade. Apenas dois anos mais tarde, os dois dirigentes simbolizariam essa aproximação com um encontro histórico em Havana.

No entanto, a chegada de Donald Trump à Casa Branca reverteu grande parte dessa aproximação. Trump endureceu as sanções económicas e voltou a colocar Cuba no centro da confrontação ideológica regional.

ARQUIVO: Nesta foto de 21 de março de 2016, o presidente cubano Raúl Castro surge ao lado do presidente norte-americano Barack Obama, em Havana, Cuba.
ARQUIVO: Nesta foto de 21 de março de 2016, o presidente cubano Raúl Castro surge ao lado do presidente norte-americano Barack Obama, em Havana, Cuba. AP Photo

A transição geracional sob controlo

Em 2018, Raúl Castro cedeu formalmente a presidência a Miguel Díaz-Canel, engenheiro eletrónico e dirigente do Partido Comunista que se tornou o primeiro chefe de Estado cubano fora da família Castro desde 1959. A sua nomeação foi apresentada como um passo rumo à renovação geracional dentro do sistema, embora cuidadosamente supervisionado pela velha guarda do castrismo.

A ascensão de Díaz-Canel não significou uma rutura com o modelo político vigente. Pelo contrário, a sua liderança tem sido marcada pela continuidade ideológica e institucional, com o Partido Comunista a manter o papel central e sem abertura ao pluralismo político. Nos primeiros anos no poder, aliás, partilhou o protagonismo com Raúl Castro, que se manteve como primeiro secretário do Partido Comunista, o cargo de maior influência real no sistema cubano, até 2021.

ARQUIVO: Raúl Castro, à direita, acompanhado pelo presidente Miguel Díaz-Canel, o segundo a contar da esquerda, na Praça da Revolução, em Havana, em 1 de maio de 2025.
ARQUIVO: Raúl Castro, à direita, acompanhado pelo presidente Miguel Díaz-Canel, o segundo a contar da esquerda, na Praça da Revolução, em Havana, em 1 de maio de 2025. AP Photo

Mesmo depois de se ter retirado formalmente desse cargo, muitos analistas concordam que Raúl Castro continua a exercer uma influência decisiva a partir da sombra, sobretudo através da relação histórica com as Forças Armadas Revolucionárias, consideradas um dos pilares fundamentais do poder em Cuba e com um peso crucial também em setores estratégicos da economia.

A próxima Venezuela?

A atual ofensiva de Washington lembra cada vez mais a estratégia aplicada recentemente contra Nicolás Maduro na Venezuela: pressão judicial, sanções económicas, isolamento diplomático e uma ameaça crescente de perseguição internacional às elites governantes. A acusação contra Raúl Castro, por factos ocorridos há quase três décadas, representa uma escalada inédita nas historicamente tensas relações entre Estados Unidos e Cuba e reflete a tentativa da Administração Trump de enfraquecer o núcleo histórico do castrismo.

A estratégia norte-americana combina agora a pressão económica sobre uma Cuba mergulhada numa grave crise energética e de abastecimento com ações judiciais dirigidas contra figuras simbólicas do regime. A partir de Washington, vários responsáveis deixaram entender que o objetivo vai além de exigir responsabilidades pelo abate dos aviões ligeiros em 1996 e visa diretamente acelerar uma transição política na ilha.

Outras fontes • AP

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