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Davutoglu: "Existe uma necessidade de liderança visionária na UE"

Davutoglu: "Existe uma necessidade de liderança visionária na UE"
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O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Ahmet Davutoglu, é tido como o arquiteto da política externa da Turquia, da última década. Politólogo e historiador, Davutoglu é conhecido pela “política de zero problemas” com os vizinhos. Tornou-se num ator importante na política regional, numa altura decisiva para o Médio Oriente. À
Euronews Ahmet Davutoglu fala da crise na Síria e sobre o impasse nas negociações entre a Turquia e a União Europeia.

Euronews: A Síria mantém-se um tema quente e a crise, no país, prolonga-se. O plano de Kofi Annan concedeu mais tempo ao regime de Bashar Al-Assad. Por outro lado, existem planos para unirem a oposição síria. Todas estas medidas exigem mais tempo. Caso esta crise se prolongue, a Turquia pode ver-se em apuros? A criação de uma zona de contenção está, também, em cima da mesa…

Ahmet Davutoğlu: “Claro que, se a crise continuar, não é só a Turquia que fica em apuros, mas toda a região, pois a localização geopolítica da Síria é crítica. O país tem uma interatividade muito estreita com os países vizinhos. É um vizinho muito importante da Turquia. Qualquer tensão proveniente da Síria, pode afetar todos os países circundantes. Por isso, esperar e deixar que o assunto se resolva com o tempo não é a opção certa. A comunidade internacional deve intervir de modo a evitar que isto se transforme numa grande fonte de instabilidade.”

E: Considera que existe o perigo de um conflito armado?

AD: “Neste momento existem já grandes confrontos na Síria.”

E: Quero dizer, podem espalhar-se para fora das fronteiras da Síria?

AD: “Isso depende do curso dos desenvolvimentos no país, mas existe, sempre, esse tipo de risco. No final, todos os conflitos internos afetam os países vizinhos e as outras nações da região. Isso é óbvio! Por isso, temos uma responsabilidade histórica e humanitária para com o povo sírio e estamos determinados a assumir essa responsabilidade.

Estamos, também, determinados a realizar isso com a comunidade internacional. Se esse conflito ameaçar os interesses e a segurança nacional da Turquia então, temos o direito de tomar todas as precauções necessárias para precaver a nossa segurança nacional.”

E: Regressou agora do Irão. A Síria é um assunto importante entre os dois países, que se encontram divididos em relação à Síria. Podemos dizer que têm abordagens opostas sobre o destino do líder sírio. A questão vai colocar sob tensão as relações entre a Turquia e o Irão? Que impacto terá?

AD: “Não. As relações entre a Turquia e o Irão estão muito enraizadas. É uma relação de vizinhança. Quando divergimos sobre certas questões, dizemos-lhes, como sempre fizemos. O nosso primeiro-ministro explicou muito bem as nossas preocupações ao homólogo iraniano, aquando da visita. Claro que temos algumas divergências sobre a postura do governo sírio e do seu futuro. Estamos em contacto permanente com o Irão de modo a superarmos esses
problemas. A Síria é um país contíguo à Turquia e a Turquia está, em primeiro lugar, preocupada com os desenvolvimentos na Síria. É importante
que a comunidade internacional perceba a nossa posição.”

E: E a questão da União Europeia? Parece ter saído da agenda turca… Claro que isso se deve, também, a fatores externos. Parece que as relações entre a UE e a Turquia irão ficar congeladas, quando o Chipre presidir à União. Qual é a sua previsão sobre as relações entre a União Europeia e a Turquia?

AD: “Não é correto dizer que as nossas relações com a União Europeia tenham ficado para trás pois, há duas semanas, fui convidado, pela primeira vez na história da Turquia e da UE, para a reunião do Conselho das Relações Externas em Bruxelas. Discursei lá. As relações estão em andamento mas temos problemas, em relação às negociações para a adesão. Com a integração do Chipre do Sul na União, surgiu uma anomalia. Agora, esta irregularidade atinge uma segunda fase.

Na verdade, de acordo com o acervo da União Europeia, toda a ilha se tornou membro da UE. Agora, a parte Cipriota grega, que não representa todo o Chipre, assume a presidência da União Europeia. Assim, a irregularidade persiste. Esta é a fraqueza da UE. Se Bruxelas não mostrar capacidade para superar este problema, as negociações não progredirão facilmente, independentemente da Turquia ter feito bem o trabalho de casa. Em primeiro lugar, a União Europeia tem de se questionar e de tomar uma decisão. Tem de mostrar que quer remover todos os obstáculos que bloqueiam a adesão plena da Turquia. Se a UE quer transformar-se numa potência global, em termos geográficos e culturais, tendo uma base geopolítica e económica dinâmica e culturalmente inclusiva, então, a adesão da Turquia é obrigatória.

A economia turca tornou-se muito forte e dinâmica. Isso mostra que a Turquia é um ativo estratégico para a União Europeia, mas precisamos de líderes europeus que entendam isso. Existe uma necessidade de liderança visionária no clube. Infelizmente, sem tal visionarismo, é difícil que a Turquia e a UE consigam atingir uma nova dimensão nas suas relações.”

E: Sobre a questão dos vistos entre a Turquia e a União Europeia. O país pediu que houvesse liberdade de movimentos dentro da UE, mas, por alguma razão, essas exigências não foram atendidas. Na sua opinião, o que está a impedir a livre circulação dos turcos na União Europeia?

AD: “Essa é uma questão vital, para nós. É um assunto importante e não deve ser visto como um favor. Que fique claro: é um direito para os cidadãos turcos. Era imperativo ter a liberalização dos vistos, ao longo do tempo, a partir de 1996, depois do Acordo que instituiu a União Aduaneira. Há várias decisões, tomadas por tribunais europeus, que referem que a
implementação do visto é contrária às leis europeias.

A lógica do Acordo que institui a União Aduaneira e as decisões dos tribunais europeus demonstram que a implementação do visto é ilegal. Além disso, politicamente é difícil entender o porquê de estarmos sujeitos a restrições de vistos, enquanto alguns países da América Latina, que nem são candidatos, estão isentos de visto. Não é uma atitude legítima. Apesar das promessas para suavizar os regulamentos, alguns países europeus dizem que se opuseram. Mas quando temos conversações bilaterais com esses países, que se opuseram ao levantamento dos vistos, eles desmentem estar contra a livre circulação dos turcos na União Europeia.

A Comissão dos Assuntos Internos da UE vai reunir-se a 26 de abril. Esperamos, aí, fazer progressos em relação a essa questão. Em conclusão, os membros da União Europeia devem entender que a livre circulação é um direito dos cidadãos turcos e faremos tudo que pudermos para que esse direito seja reconhecido.”