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"Madagáscar não são apenas as minas" - Hery Rajaonarimampianina

"Madagáscar não são apenas as minas" - Hery Rajaonarimampianina
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Há 7 anos, em 2009, a ilha de Madagáscar foi abalada pela violência na sequência de um golpe de Estado que se tornou sangrento. Quando as condições permitiram a realização de eleições presidenciais, no final de 2013, já depois uma alteração constitucional para um regime semi-parlamentar, foi eleito chefe de Estado, Hery Rajaonarimampianina, que é o convidado desta edição de Global Conversation.

Produzimos 70% da energia em centrais termoelétricas. Acho isso inadmissível.

Hery Rajaonarimampianina Presidente de Madagáscar
Presidente, está há dois anos na presidência, como se sente hoje?

Empenhado, muito empenhado para o bem do povo malgaxe. Hoje, o mais importante para mim é a determinação em avançar, em tirar o povo e o país da pobreza, em explorar os recursos deste país para bem do povo.

Teve sempre a ambição de ser presidente? Não, em 2009 nunca pensei tornar-me presidente, apenas tinha uma responsabilidade por ser ministro das Finanças e do Orçamento. Era uma enorme responsabilidade, mas também uma oportunidade de servir o país. Mais tarde, tornei-me presidente, o que me deu outra oportunidade de servir ainda mais o país. Sou jovem e penso no melhor para o país. A preparação e a experiência que tive, a profissão que exerci, tudo isso, na minha opinião, criou as bases que formaram o homem.

Biografia de Hery Rajaonarimampianina

  • Presidente de Madagáscar desde 2014.
  • Em 1995 fundou o gabinete de contabilidade Associated Auditors.
  • Foi nomeado ministro das Finanças em 2009, numa altura em que o apoio internacional foi cortado após o golpe de Estado.
  • Detém o recorde do mundo para o chefe de Estado com o nome mais longo.

No ano passado, foi alvo de um processo de destituição em que membros do seu partido se revoltaram contra si. Sentiu o mesmo do que na altura do golpe?

Não podemos comparar as duas situações. É verdade que, no ano passado, aconteceram essas coisas, mas penso que houve uma resposta dos políticos e da população. O povo demonstrou que as suas prioridades são a estabilidade e o desenvolvimento.

Falando de estabilidade, há dois anos, o Fórum Económico Mundial classificou Madagáscar como um dos países do fundo da tabela em termos de estabilidade política. Como é que interpreta esse indicador?

O meu primeiro objetivo é implementar a estabilidade. Necessitamos de estabilidade política. Precisamos de estabilidade para atrair investidores. Esta estabilidade tem de existir a diversos níveis e manifesta-se ao nível da implementação do Estado de Direito, da luta contra a corrupção e contra o abuso de poder. Falando apenas dos investidores, estamos a implementar um quadro que poderá atrair mais investimento.

A última vez que esteve em França, descreveu Madagáscar como um país no caminho do progresso em termos de desenvolvimento económico. Como avalia a situação atualmente?

Os trabalhos prosseguem. O desenvolvimento é uma obra gigantesca. Estamos a levar a cabo grandes projetos, que chamo de projetos estruturais e sabe, não estou aqui para denegrir o que foi feito antes, mas considero que a nossa fraqueza foi a falta de projetos estruturantes. Por exemplo, na energia: como é que é possível Madagáscar – tendo sol, vento, água e rios importantes – esteja hoje ainda a produzir 70% da sua energia em centrais termoelétricas? Acho isso inadmissível. É por isso que quero avançar com projetos de energias renováveis, para precisamente aproveitar os recursos que temos para o desenvolvimento do país, é a isso que chamo projetos estruturantes.

Madagáscar é muito rico em recursos naturais, mas continua a ser um país muito pobre e também sofre com a queda dos preços das matérias-primas. Que planos tem para diversificar a economia?

É precisamente contra esse paradoxo que estamos a lutar. Queremos inverter os dados e utilizar os nossos recursos no melhor interesse do país. É verdade que a indústria mineira é muito importante para a economia e, no ano passado, sofremos alguns reveses por causa da quebra no preço das matérias-primas. Mas, Madagáscar não são apenas as minas, há muito potencial em diferentes setores, como no turismo ou no ambiente. Também temos um ecossistema quase único, com produtos, uma fauna e uma flora exclusivas a Madagáscar. Tudo isso, na minha opinião, pode ser um fator de atração para desenvolver um turismo diferente, um turismo ecológico, que assente também no desenvolvimento ambiental.

Ainda este ano, Madagáscar acolhe a cimeira da “COMESA”: http://www.comesa.int/ (Mercado Comum da África Oriental e Austral) e os chefes de Estado francófonos. Que mensagem lhes irá transmitir?

São eventos que, em primeiro lugar, vão consolidar o regresso de Madagáscar à cena internacional e confirmar o apoio da comunidade internacional ao país que está a tentar reerguer-se. Penso que é um sinal forte, que fizemos por merecer, e vamos fazer tudo para que as cimeiras sejam um sucesso.

Para terminar, tenho uma questão que vem dos meus filhos. O filme de animação Madagáscar teve um impacto positivo no turismo?

Nem que fosse apenas pelo nome Madagáscar ser hoje conhecido das crianças, seria já muito importante. Mas os adultos também o conhecem e agora temos de fazer mais. Sinto que, hoje, há um interesse pelo nosso país, que aos poucos o país começa a ser conhecido, não só por causa do filme, mas é verdade que o filme deu a muita gente a oportunidade de conhecer um pouco Madagáscar, a sua fauna, a sua flora. Hoje, falamos dos lémures, animais endémicos de Madagáscar, de espécies raras que temos no país, das tartarugas e de tudo o resto. Por isso, acredito que o filme nos tem ajudado no nosso caminho.