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Níger, o "hotspot" da Europa

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Níger, o "hotspot" da Europa

Níger, o "hotspot" da Europa
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No Níger, um dos países mais pobres do mundo, cerca de 300 mil refugiados esperam pela sua vez de chegar à Europa. Fogem dos conflitos nos países vizinhos. Chegam a um país transformado em centro de trânsito por incentivo europeu. Para travar uma imigração com a qual se têm mostrado incapazes de lidar diretamente, os países da União Europeia acordaram em criar hotspots, filtros de migrantes em países fora do continente, como a Turquia, ou o Níger. Macron prometeu uma ajuda de 400 milhões de euros para o desenvolvimento do país africano, entre 2018 e 2021. Uma troca que atualmente coloca o Níger em grande instabilidade económica e social.

Níger, o filtro de migrantes da Europa

O posto de controlo de Agadez , no centro do Niger, é a porta de entrada dos países da África Ocidental em direção ao Saara.

Todas as semanas, um vai e vém de veículos atravessa o deserto que separa o centro do Niger da Líbia.

Após cinco dias de viagem, os passageiros estão exaustos. São maioritariamente trabalhadores nigerinos que fogem à violência na Líbia mas há também migrantes de outros países da África Ocidental.

As histórias multiplicam-se e assemelham-se. "Quando lá chegamos, somos detidos e quando trabalhamos não nos pagam", diz um migrante do Senegal. "Não podemos contar tudo o que se passou porque é extremamente grave", continua outro, vindo do Burkina Faso.

Há quem tenha chegado a tentar atravessar o mar mediterrâneo para chegar à Europa. "Pagámos mas não fomos, fomos presos. agora só tenho uma esperança. Voltar para casa", conta ainda outro migrante do Senegal.

A viagem foi organizada por Mohamed Tchiba, antigo rebelde touareg, que vive do transporte de migrantes. Uma atividade lucrativa que se tornou ilegal há dois anos, na sequência de nova legislação. A União Europeia financiou projetos locais para compensar as perdas dos transportadores. Mohamed Tchiba diz que não recebeu nada.

"Sou passador, continuo a sê-lo atualmente. Oiço dizer que nos dão alguma coisa para parar este trabalho. Mas ninguém nos deu nada. Não conheço nada a não ser este trabalho", afirma Mohamed Tchiba.

Em Agadez, dezenas de veículos de passadores foram confiscados pela polícia. Um símbolo da luta contra a imigração ilegal. Mas a ação policial é mal vista pela população local. Desde a entrada em vigor da nova lei, a economia abrandou.

As pessoas que viajam para a Líbia representavam uma fonte de rendimentos, mas agora há cada vez menos clientes. O encerramento das minas de ouro na região penalizou ainda mais a economia local.

Oumarou Ghehou é comerciante. Ao lembrar-se dos tempos em que a mina funcionava, lamenta o estado em que a cidade vive hoje. "Antes vendíamos quatrocentos ou quinhentos bidões por semana e enviávamos bidões para a mina. Encerraram a rota para a Líbia, fecharam a mina, fecharam tudo. Os jovens não têm nada para fazer, nem para comer. Levantam-se de manhã e deitam-se, à noite, sem comer. O que vai impedi-los de roubarem?", questiona.

Também Abdouramane Ghali viu o comércio abrandar. Antigo passador de migrantes, pôs fim ao negócio depois de ter beneficiado do programa europeu de ajuda à reconversão profisional. "Antes, ganhava muito dinheiro, chegava a ganhar quase oitocentos euros por semana. Agora ganho cerca de trinta euros por semana", revela.

Há várias queixas da parte de antigos passadores a quem foi proposta uma reconversão. Entre as sete mil pessoas que fazem parte da lista, menos de quatrocentas receberam as ajudas à reconversão, que rondam os dois mil euros.

Bachir Amma era presidente de uma associação que representava estes profissionais. Aderiu à reconversão profissional, mas lamenta as dificuldades que a mudança trouxe.

"Nós respeitámos a lei. Já não trabalhamos. Mas o estado do Niger e a União Europeia abandonaram-nos. As pessoas têm famílias para alimentar e ficaram sem nada. Comemos graças às nossas economias, graças ao dinheiro que ganhámos antes. A situação atual é muito difícil para nós", diz.

Um dos clientes de Abdouramane Ghali é um antigo passador que se tornou motorista. Abba Seidou celebra o nascimento do primeiro filho. Uma festa que lhe permite, por momentos, esquecer as preocupações. "É um dia maravilhoso para ti. bom para o teu coração,vais ter cadeiras para que as pessoas, mesmo se não houver nada, possam sentar-se quando vêm a tua casa. Mesmo se os tempos são duros para a imigração, agora com as ajudas que eles recebem, as pessoas podem desenvencilhar-se", comenta.

Nas ruas de Agadez, vagueiam cada vez mais crianças, desde a entrada em vigor da lei anti-migração. Os festejos são uma oportunidade para comerem alguma coisa.

A União Europeia comprometeu-se a dar mais de mil milhões de euros ao Niger, um dos países mais pobres do mundo.

O país é um dos principais beneficários dos fundos de urgência europeus criados em 2015 para promover o desenvolvimento local das regiões africanas onde há mais imigração, evitando assim que as pessoas partam para a Europa.

Para o vice-presidente da região de Agadez a política da União Europeia serve os interesses da Europa mas não é eficaz.

"Os financiamentos são insuficientes. A Turquia por exemplo recebeu muito mais dinheiro do que o Níger. E mesmo os grupos armados na Líbia receberam mais dinheiro do que o Níger. Agadez tornou-se uma espécie de fosso onde vêm parar todos os requerentes de asilo, os refugiados e os migrantes, aqueles que ninguém quer", lamenta Aklou Sidi Sidi.

Parados no Níger

Devido à sua situação geográfica, o Níger acolhe cerca de trezentas mil pessoas que fogem aos conflitos nas zonas fronteiriças.

Refugiados e deslocados que acabam por permanecer na região de Agadez quando não encontram outra solução. Existe um centro de ajuda aos imigrantes que aceitam voltar ao país de origem. Mas os procedimentos levam meses e há um número elevado de pedidos de ajuda.

"80 por cento dos migrantes não têm documentos de identificação. Depois da inscrição, é preciso obter uma autorização de viagem, um processo que tem de ser feito em coordenação com as embaixadas e consulados de cada país. É um desafio diário para nós. Temos mil pessoas nesta área, uma área que tem uma capacidade para 400 ou 500 pessoas. Pode ver esses colchões no chão porque as pessoas dormem na rua, não temos espaço. Há muitas pessoas à espera e temos de tratar rapidamente de cada caso para deixar entrar pessoas que estão à espera", explica Licoln Gaingar, diretor do centro de trânsito.

Mas apesar do trabalho do centro de trânsito, muitas das pessoas que passam pelo Níger nem sequer colocam a hipótese de voltar ao país de origem. É o caso das várias centenas de cidadãos do Sudão, que recebem a ajuda do Alto Comissariado para os Refugiados. Muitos fugiram ao conflito no Darfour e à violência nos centros de detenção da Líbia e aguardam há meses uma resposta, depois de terem pedido o estatuto de refugiados.

Badererdeen sonha em terminar os estudos de medicina veterinária num país ocidental. "Desde que terminei a universidade, já perdi quase metade da minha vida devido às guerras, viajando do Sudão para a Líbia. Não quero perder a minha vida outra vez. Está na altura de recomeçar a viver , a trabalhar e a estudar. Ficar no Niger a fazer nada durante muito tempo, não é bom para mim", afirma.

A única perspetiva de curto prazo para quem espera é tentar escapar à promiscuidade que reina nos centros de acolhimento de refugiados. Face ao elevado número de candidatos a asilo, o alto Comissariado para os refugiados abriu um segundo centro na periferia da cidade.

A euronews falou com Ibrahim, originário do Sudão, que passou pelos campos de refugiados do Chade e da Líbia. "Foi muito difícil, mas graças a Deus estou vivo. Não podemos voltar para casa por isso procuramos um sítio que seja um pouco mais acolhedor para nós, para estarmos em segurança e tentar ter um pouquinho de sorte na vida", conta.

A esperança de uma vida melhor está mais perto daqueles que saíram de emergência das prisões líbias, no âmbito de um plano lançado, no ano passado, pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

Chegados a Niamey, a capital do Níger, deverão seguir para outros países onde vão ser realojados. Depois de fugirem do país de origem, a Somália, estas mulheres foram torturadas em prisões líbia. Agora, esperam um passaporte para França.

“Tenho ferimentos graves na barriga. A única razão para ter deixado o meu país foi para fugir aos problemas que tinha lá e encontrar um lugar seguro onde possa encontrar esperança. Pessoas como eu precisam de esperança”, diz, em choro, uma das mulheres da Somália.

Uma dezena de países, a maior parte europeus, comprometeram-se a acolher cerca de 2600 refugiados que fugiram da Líbia para o Níger. Até agora, menos de 400 foram realocados.

Alessandra trabalha num centro de acolhimento, onde vê muita gente a chegar. “A solidariedade está lá. Também tem de haver a noção de urgência em realocá-los, em acolhê-los nos países que ofereceram acolhimento. É importante evitar a permanência no Níger e permitir que sigam caminho”, defende.

A demora dos países de asilo em respeitar os compromissos tem desapontados o governo do Níger. Mas o que o ministro do Interior nigerino lamenta, acima de tudo, é a falta de clarividência da Europa para travar a imigração ilegal.

"Sou bastante a favor do controlo, mas sou especialmente favorável ao facto de os países europeus trabalharem em conjunto para promover uma outra relação com os países africanos baseada na emissão de vistos com base nas necessidades que podem ser expressas pelas empresas na Europa. É por este trabalho não ser bem feito que acabámos por aceitar a única migração possível, que é a migração ilegal", afirma.

O Tráfico

Estima-se que o número de migrantes que partiram para a Líbia, em 2015, estivesse entre os cinco mil e os sete mil. De acordo com as autoridades nigerinas, esse número foi dividido por 10.

Mas o tráfico continua, por estradas tortuosas, cada vez mais perigoso. O deserto - diz-se em Agadez - tornou-se mais mortal que o Mediterrâneo.

Encontramos um dos traficantes que, por falta de alternativa, diz que retomou o contrabando. Mesmo arriscando anos de prisão. "Esta lei é como se nos tivéssemos reunido e colocado facas nas gargantas para nos degolarmos. Algumas pessoas ficaram feridas, outras fugiram do país, outras perderam tudo", vai contando enquanto conduz.

Somos levados a uma das antigas áreas de trânsito onde os migrantes eram reunidos antes de partirem para a Líbia, quando permitido. O edifício foi entretanto destruído. Os clientes são mais raros e o preço das travessias triplicou. Além do risco de deenção pelas patrulhas da polícia e do exército, é necessário escapar aos traficantes de armas e drogas no deserto.

"Muitas vezes o exército está numa missão, não quer perder tempo, e diz-nos: 'nós tratamos disto, o que propões?' Nós damos dinheiro para sair.

Devemos também evitar bandidos. Há pessoas armadas por todo o lado, nos arbustos. Temos de seguir por atalhos para passar pelas zonas onde essas pessoas estão.

Sabemos que é perigoso, mas em casa, o mais grave é não conseguirmos alimentar a nossa família! Esse é o maior perigo!", acrescenta

Seguimos caminho. Entramos num dos chamados guetos, fora de Agadez, onde os candidatos à viagem para a Europa pela Líbia se escondem, até que os contrabandistas os apanhem.

Indicam-nos uma casa onde um grupo de jovens espera que a viagem seja organizada pelo contrabandista. Todos já tentaram atravessar o deserto, mas foram abandonados pelos motoristas, a fugir das patrulhas do exército. Foram salvos no limite. Muitos de companheiros de viagem morreram de sede e exaustão.

Mohamed Baldé veio da Guiné para procurar asilo. Conhece bem os perigos da jornada que tem pela frente.

"O deserto é um risco muito grande. Muitas pessoas morreram, mas eles não ficaram desencorajados.Por que vêm eles? É uma questão que nem se coloca! Cada vez que há reuniões entre os líderes da África Ocidental e os líderes da União Europeia, para lhes dar dinheiro para que os migrantes passem, nós dizemos que é um crime. Estão a servir os seus interesses, não os interesses do continente. Para acabar com a migração,só precisam investir em África, nas empresas, para que os jovens possam trabalhar", reclama.

Ao lado, Drogba Sumaru também espera pela sua vez. Veio da Costa do Marfim, quer chegar à Europa, o El Dorado para todos os jovens da sua idade.

"Não se trata de dar dinheiro às pessoas, ou colocar tropas no deserto, ou de remover todos os barcos do Mediterrâneo para impedir a imigração! Não há nada a fazer... Vai continuar sempre!

Há milhares de jovens lá, e cada vez vão mais. Porque não há nada cá. Não há nada que os mantenha no país. Quando pensam no sofrimento das famílias, quando pensam que não têm futuro, vão estar sempre prontos, prontos para qualquer coisa. Eles vão estar sempre prontos a arriscar a vida", afirma.