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Morna de Cabo Verde é Património Imaterial da Humanidade

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Voz de Cesária Évora ouviu-se na consagração da música crioula pela UNESCO
Voz de Cesária Évora ouviu-se na consagração da música crioula pela UNESCO   -   Direitos de autor  THOMAS COEX / AFP
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A morna de Cabo Verde é Património Imaterial da Humanidade, anunciou a UNESCO, esta quarta-feira, em Bogotá, na Colômbia.

Tal como o Fado em Portugal ou o Samba no Brasil, a morna é o símbolo de um povo e uma música de sentimento que teve no antigo guitarrista de Cesária Évora, Armando Tito, um dos muitos intérpretes que levou este ritmo crioulo pelo mundo e que agora festeja a consagração deste género musical.

"Nunca toquei por dinheiro. Toco aquilo que me vai na alma. O que me dá saúde, a minha comida, é a música de Cabo Verde. A morna e o fado estão juntos", afirmou Tito numa entrevista à Agência Lusa, acompanhado pela sua primeira guitarra.

"O objetivo da Morna é que quando partimos, deixemos muitas saudades e amor também", acrescentou o guitarrista.

Cesária Évora morreu em 2011, aos 70 anos. Ainda hoje, a voz de "Sodade" é vista como a grande embaixadora da Morna no mundo.

Na celebração do anúncio da UNESCO, a diva cabo-verdiana "ajudou" à festa ques e seguiu em plena sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorre desde segunda-feira em Bogotá.

Reunido pela primeira vez na América Latina, este Comité Intergovernamental é atualmente composto por representantes da Arménia, Áustria, Azerbaijão, Camarões, China, Chipre, Colômbia, Cuba, Djibuti, Filipinas, Guatemala, Jamaica, Japão, Cazaquistão, Kuwait, Líbano, Maurícias, Holanda, Palestina, Polónia, Senegal, Sri Lanka, Togo e Zâmbia, sendo as decisões tomadas por unanimidade destes membros.

A candidatura da Morna

Considerada popularmente “música rainha” de Cabo Verde, como recorda “Nôs morna”, uma das mais conhecidas mornas, do poeta Manuel d`Novas, o dossiê da sua candidatura a Património Imaterial Cultural da UNESCO, com mais de 1.000 páginas e cerca de 300 entrevistas, foi formalmente entregue pelo Governo cabo-verdiano em 26 de março de 2018.

De acordo com o dossiê da candidatura, a morna terá surgido no século XIX, não sendo consensual a origem do nome e ilha onde nasceu: Boa Vista ou Brava.

Marcada pelas letras do poeta Eugénio Tavares (ilha da Brava, 1867 – 1930) e mais de tarde de Francisco Xavier da Cruz ou ‘B.Léza’ (ilha de São Vicente, 1905 – 1958), a morna conheceu o seu expoente maior fora de Cabo Verde através da cantora Césaria Évora (1941 – 2011), que através daquele género musical abriu as portas do mundo a um país de pouco mais de meio milhão de habitantes.

A morna surge de uma mistura de estilos musicais com fortes raízes africanas, o landum, com as influências da modinha luso-brasileira, recorda o dossiê de candidatura a Património Imaterial Cultural da UNESCO.

Uma das referências escritas mais antigas sobre a morna consta de um livro do oficial da marinha russa Konstantin Staninkovitch, que visitou Cabo Verde em 1861.

“A morna é uma prática musical que se estrutura em três dimensões: melodia, poesia e dança, caracterizando-se pelo compasso quaternário, ritmo lento e predominância dos esquemas tonais menores clássicos perfeitos de influência europeia”, lê-se ainda no processo.

Interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem também mornas apenas instrumentais, e versando temas “lírico-passionais, produz-se uma canção melancólica, muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual”.

Geralmente acompanhada por viola, cavaquinho, violino e piano, o “instrumento de excelência da morna” é o violão, introduzido em Cabo Verde no século XIX.

A candidatura de Cabo Verde foi alicerçada na cultura popular que manteve viva a morna até aos dias de hoje, alimentada por músicos e intérpretes de todas as idades.

O processo levado à UNESCO conta com 77 declarações individuais de consentimento e apoio, de instrumentistas, compositores e interpretes de morna, até artesãos e construtores de instrumentos de corda.

O dossiê cabo-verdiano contou com o apoio técnico de Portugal e com a colaboração do antropólogo Paulo Lima, especialista português na elaboração de processos de candidatura a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, como o fado, o cante alentejano e a arte chocalheira.

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