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Primeiro-ministro húngaro acusado de dar terras à família e amigos

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Primeiro-ministro húngaro acusado de dar terras à família e amigos
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Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban volta a ser alvo de acusações de nepotismo. A polémica envolve a confiscação de terras, abuso de poder e desvio de fundos, a favor dos oligarcas húngaros. O caso foi investigado pela jornalista húngara Gabi Horn, da plataforma Atlatszo que conclui que o círculo do poder, na Hungria, favorece a família e os amigos na concessão de contratos de venda e arrendamento de terras agrícolas, o que lhes permite receber subsídios europeus.

As propriedades do pai e do amigo de infância de Orban

Graças a um drone, a jornalista húngara mostrou à euronews as terras geridas pelos amigos do primeiro-ministro húngaro, nomeadamente a antiga propriedade imperial Hatvanpuszta, que pertence ao clã da família de Viktor Orban. "Esta propriedade pertence ao pai do primeiro-ministro. Há muita gente que pergunta de onde veio o dinheiro para comprar uma propriedade tão grande. Por que razão são os amigos e a família do governo que têm acesso a estes contratos?", disse à euronews Gabi Horn.

A euronews visitou uma propriedade que pertence a Lőrinc Mészáros, considerado como o testa de ferro de Viktor Orban. "Quase toda esta área pertence a Lőrinc Mészáros, amigo de infância de Viktor Orban, amigo da família e parceiro de negócios. Muitas vezes, foram as figuras ligadas ao partido do governo, o Fidesz, que conseguiram ter acesso aos contratos de arrendamento de terras", acrescentou a jornalista da plataforma de informação Atlatszo. Contactado pela euronews, Mészáros recusou-se a falar.

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Subsídios europeus na mira dos falsos agricultores

A posse de terras é apenas o primeiro passo do esquema fraudulento. Em seguida, os novos proprietários podem candidatar-se a fundos europeus. De acordo com o antigo ministro da agricultura György Rasko, 80 por cento do rendimento dos agricultores húngaros deriva de subsídios. "O compadrio a nível económico é facto confirmado na Hungria. Há amigos do primeiro-ministro que tiram partido da discriminação positiva e têm acesso a diferentes fundos", disse à euronews Gyorgy Rasko, antigo ministro da Agricultura da Hungria.

O primeiro-ministro húngaro não se cansa de criticar a União Europeia mas o seu círculo próximo terá fortemente aproveitado os subsídios de Bruxelas. A nível interno, a política de redistribuição das terras levada a cabo no leste da Hungria pôs em causa a sobrevivência de muitos agricultores. A euronews falou com vários agricultores que ficaram sem terras. "Os amigos do partido Fidesz ficaram com as terras bem com os chamados falsos agricultores. Os verdadeiros agricultores como nós, não conseguiram nada", afirmou o pastor húngaro Zsigmond Mavranyi. "Os falsos agricultores não têm experiência agrícola, nem sequer vieram visitar as terras. 90% nem sequer tem animais mas eles não deixam os nossos animais pastarem nas terras deles", contou o agricultor húngaro Roland Karácson. "Os que tinha ligações políticas ficaram com as terras. Não há outra forma de dizer as coisas. Eu tinha seiscentas ovelhas mas eles não quiseram saber. Uma pessoa disse-me que o problema era o facto de não termos dado uma caixa com dinheiro às pessoas certas e por isso não ficámos com os terrenos", contou o pastor húngaro Gyula Buj.

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Gyorgy Rasko, antigo ministro da Agricultura da Hungria.euronews

Vários agricultores perderam as terras

A jornalista Gabi Horn investigou o caso de uma família húngara que lançou uma exploração leiteira nos anos 90. Em 2008 e 2014, a exploração recebeu ajudas europeias para manter a competitividade. Mais tarde, por uma razão desconhecida, não conseguiu renovar o contrato de arrendamento das terras de pasto. "Estes são os seis hectares da nossa quinta familiar. Estão rodeados por 170 hectares onde as nossas vacas podiam pastar. Mas o terreno foi-nos retirado e entregue a outra pessoa e agora não temos terreno de pastagem para os nossos animais", contou à euronews Erika Bajkor, proprietária de uma exploração leiteira na Hungria.

A quinta tinha quase quinhentas vacas, agora só tem trezentas. Sem pasto, é necessário comprar forragem durante o ano inteiro. Uma despesa suplementar que ameaça a sobrevivência económica do negócio familiar. Além disso, os problemas económicos causados pela perda das terras tiveram graves repercussões na vida familiar de Erika Bajkor. "A minha família foi muito prejudicada. O meu pai ficou deprimido e morreu pouco depois, por causa desta tragédia", contou Erika Bajkor.

As terras foram atribuídas aos amigos de Viktor Orban ou aos apoiantes do governo. A Hungria tornou-se num país de grandes oligarcas.
Katalin Rodics
Diretora Regional da Greenpeace para a Europa Central e de Leste

Caso chegou ao Tribunal Europeu de Justiça

O governo húngaro nega todas as acusações e afirma que os contratos são legais. Mas, no terreno, as queixas multiplicam-se. Há uma série de processos judiciais associadas às alegadas irregularidades no arrendamento e venda de terras pelo governo Húngaro. "As terras foram atribuídas aos amigos de Viktor Orban ou aos apoiantes do governo. A Hungria tornou-se num país de grandes oligarcas", afirmou Katalin Rodics, diretora regional da Greenpeace para a Europa Central e de Leste.

A diretora da quinta Kishantos apresentou queixa nos tribunais húngaros e no Tribunal Europeu de Justiça, em Estrasburgo. A quinta húngara era um dos projetos de agricultura biológica mais conhecidos do país. Mas a cooperativa local perdeu o direito às terras e a propriedade foi dividida em oito parcelas. Éva Ács acusa diretamente o primeiro-ministro húngaro de ter acabado com o projeto. "Fomos atacados por um grupo de guarda-costas aqui, na nossa própria quinta. Eles foram enviados pelo Estado. E a nossa quinta de produtos biológicos de 452 hectares foi destruída nesse dia terrível", recordou a diretora da quinta Kishantos.

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Éva Ács, diretora da quinta Kishantoseuronews

Sede da plataforma que denunciou o caso foi atacada

A euronews visitou a sede da plataforma Atlatszo que denunciou o caso. O local é partilhado com outras ONG. Há poucas semanas, o edifício foi atacado por grupos de extrema-direita.

A Hungria possui legislação que impõem limites à compra de terras mas é fácil contorná-la. "Sim, existe uma lei mas é possível contornar a lei, se uma pessoa e os seus familiares comprarem cada um, uma parte da terra. Há vários grupos de interesse em torno de diferentes oligarcas que conseguiram enriquecer graças aos contratos públicos e às boas ligações com o Fidesz ou com o próprio primeiro-ministro", sublinhou a jornalista.