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Máfia da madeira na Roménia lucra milhões com corte ilegal de árvores

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Máfia da madeira na Roménia lucra milhões com corte ilegal de árvores
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No norte da Roménia, numa das últimas florestas virgens da Europa, opera a chamada máfia da madeira. A euronews esteve na região de Suceava, uma das mais afetadas por um tráfico colossal de árvores ancestrais que servem de matéria-prima a empresas europeias.

Antigo colaborador denuncia esquema mafioso

A euronews falou com um lenhador que trabalhou durante anos com os traficantes e que resolveu denunciá-los. "Ainda está fresco. A árvore foi cortada recentemente. É um corte ilegal porque não há marca. Está a ver a resina. A árvore está a chorar, tiraram-lhe a vida, como se fosse um ser humano. Aqui é legal, há uma marca. Mas ali não há marca. Eles cobrem tudo com ramos para que não seja visível ao longe. Foi a máfia" contou à euronews Gheorghe Oblezniuc.

A árvore foi cortada recentemente. É um corte ilegal porque não há marca. Está a ver a resina. A árvore está a chorar, tiraram-lhe a vida.
Gheorghe Oblezniuc
lenhador romeno

Vinte milhões de árvores cortadas ilegalmente

De acordo com um relatório científico, todos os anos, vinte milhões de metros cúbicos de madeira são cortados ilegalmente nas florestas romenas. Mais do que a quantidade explorada legalmente. A madeira é vendida no mercado romeno mas também na Europa.

"Trabalhava para cinco grandes empresas. Para cortar um árvore destas tinha uma comissão de dez euros. Parei de fazê-lo porque percebi que não estava certo e que não ganhava nada. Eles ganham milhões e eu era pago ao metro cúbico", afirmou Gheorghe Oblezniuc.

O tráfico de madeira está a ser investigado pelas autoridades romenas. As suspeitas recaem sobre uma vasta rede de traficantes que reúne toda o setor da madeira: vendedores, transportadores e funcionários das florestas. Mas, o responsável, em Suceava, da entidade nacional de gestão florestal refuta as acusações.

"Não podemos lançar acusações assim, mas há pessoas que foram à floresta antes de nós, cortaram as ávores e acusam-nos de termos preparado as árvores para serem cortadas ilegalmente. Isso criou uma tendência nos meios de comunicação social para acusar os funcionários florestais", disse Cristian Gafincu, diretor do Departamento Florestal de Moldovita.

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Seis assassínios desde 2014

Desde 2014, houve agressões físicas contra 185 funcionários florestais e seis assassínios, nomeadamente dois nos últimos meses.Para as autoridades florestais, as agressões e assassínios são ajustes de contas. Para as vítimas, não há dúvida de que a violência é uma forma de calar quem denuncia o esquema mafioso da madeira romena.

Sob anonimato, uma vítima da alegada rede mafiosa romena explicou-nos o funcionamento do tra´fico de madeira. "O empresário vai a leilões organizados pela entidade florestal e compra um determinado volume de madeira. Depois combina as coisas com o engenheiro que vai à floresta marcar algumas árvores. Há o mercado negro, essas árvores não fazem parte do inventário. Nos registos, falsificam-se os volumes. Os agentes florestais supervisionam o que se passa e vendem madeira no mercado negro".

O aspeto mais delicado dos cortes ilegais é quando são realizados de forma aparentamente legal. É possível branquear a madeira, através da duplicação das cargas e da falsificação dos documentos ou das autorizações de corte.
Mihai Gasparel
Inspetor chefe dos guardas florestais de Suceava

O responsável dos guardas florestais de Suceava reconhece a existência do problema. "O aspeto mais delicado dos cortes ilegais é quando são realizados de forma aparentemente legal. É possível branquear a madeira, através da duplicação das cargas, da falsificação dos documentos ou das autorizações de corte nas zonas onde há poucas árvores. Há casos em que os agentes florestais agem mal. O problema é que esse tipo de ações é difícil de provar", disse Mihai Gasparel, inspetor chefe dos guardas florestais de Suceava.

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Associação recolhe provas graças a aplicação móvel

A euronews falou com o responsável da Associação Moldovita que está a tentar obter provas dos crimes. Foram instaladas câmaras nas estradas para filmar a passagem dos camiões carregados de madeira. Graças a uma aplicação móvel é possível verificar a autenticidade dos documentos de transporte o que já permitiu detetar dezenas de infrações.

"Introduzimos o número da matrícula do camião e podemos verificar os documentos e o local onde a autorização de transporte foi emitida", contou Tiberiu Bosutar, asociatia Moldovita.

A associação romena defende que é preciso colocar câmaras nos vários pontos de acesso à floresta para apanhar os criminosos.

"Aqui é uma zona onde os cepos de árvores roubadas foram escondidos. Olhe para o tamanho dos cepos. Isto não foi feito por particulares. É preciso maquinaria pesada para fazê-lo. É uma prova clara de que o roubo de árvores nesta zona está bem organizado", acrescentou o responsável.

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Mercado negro gera perdas colossais para o Estado

Estima-se que os cortes ilegais de árvores na floresta romena representem mil milhões de euros por ano. As pertas fiscais para o Estado são colossais. As atividades ilegais prejudicam o negócio dos pequenos empresários.

"O preço da madeira na Roménia é artificialmente alto. Neste momento, para manter uma fábrica é preciso ter madeira barata, ilegal. Juntei-me a oito empresários locais, comprámos cem metros cúbicos de madeira, depois de termos pago todos os custos, só ficámos com metade do dinheiro investido. É impossível manter um negócio destes sem usar madeira ilegal", contou Tiberiu Bosutar.

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Comissão Europeia ameaça Roménia com sanções

Todos os que vivem nas áreas florestais são afetados pelo mafia da madeira. Dois trabalhadores da construção criavam trutas num tanque. A água do reservatório ficou suja com lama, devido à circulação da madeira roubada por uma ribeira situada nas proximidades do local.

"Apresentámos queixa. As autoridades confiscaram a madeira a alguns empresários locais. Eles despejaram produtos químicos na água e mataram os peixes. Ameaçaram-nos e bateram-nos. Apanharam-nos na estrada e bateram-nos na cabeça com mocas", contou Ilie Bucsa, trabalhador da construção civil.

Os dois irmãos continuam a receber ameaças de morte. Apesar do medo, não querem ficar calados. "Temos medo, é normal, mas, vamos continuar a apresentar queixa e esperar que alguém do exterior, da União Europeia, talvez, venha resolver o problema. Porque aqui a máfia é poderosa. Tem ligações com toda a gente, incluindo com as autoridades do Estado", frisou Ilie Bucsa.

A Comissão Europeia avisou a Roménia de que haveria sanções caso o país não pusesse fim à exploração ilegal das florestas.