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Covid-19: a pandemia das fraudes

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Covid-19: a pandemia das fraudes
Direitos de autor  euronews   -   COURTESY: TEST ACHAT
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Com grande parte da população fechada em casa em confinamento, a internet foi para muitos a única porta para a rua. Com elevado grau de imaginação, os criminosos adaptaram-se rápida e eficazmente à situação, criando negócios ilícitos de milhões de euros, em tempo recorde.

Durante a pandemia, multiplicaram-se as ofertas de equipamento de proteção a preços significativamente baixos. Mas uma simples encomenda pode levar a uma fatura pesada. O correio eletrónico é um dos principais veículos para a fraude.

E a oferta não se cinge a material de proteção. Através de anúncios falsos com animais de estimação, ou mesmo leilões online fraudulentos de automóveis, criminosos acederam a contas bancárias. As ideias para uma burla são quase infindáveis.

"Todos vimos circular mensagens por Whatsapp ou e-mail a convidar as pessoas a fazer donativos, por vezes para entidades de que nunca ninguém ouviu falar, ou a quem foi pedido que se registasse no site de algumas conhecidas cadeias de supermercados para obter um vale de desconto de várias centenas de euros", conta Alessandro Sessa, diretor da revista da associação de consumidores italiana Altroconsumo.

Aqui, chegámos a ver máscaras cirúrgicas a serem vendidas por 6 euros cada
Julie Frère
Porta-voz da associação de consumidores Test-Achats

As associações de consumidores de toda a Europa estão a tomar medidas contra as práticas ilícitas durante o confinamento. Na Bélgica, a Test-Achat criou uma plataforma para identificar e denunciar abusos, tendo detetado mais de 400 infrações num mês.

De acordo com a porta-voz da associação, Julie Frère, entre as burlas mais recorrentes estão "os aumentos de preços ou preços exorbitantes, especialmente para equipamentos de proteção, para máscaras e gel hidroalcoólico".

A falta de regulação da oferta em alguns países europeus está a dar espaço à especulação dos preços. Para a associação belga, é necessário que o governo estabeleça limites para os montantes cobrados.

"Na Bélgica, pedimos que o preço das máscaras seja limitado, o que não é de modo algum o caso atualmente. Pedimos ao nosso governo que se inspire no que está a acontecer em França, onde o limite está fixado em 95 cêntimos, e em Itália é de 50 cêntimos p or máscara cirúrgica. Aqui, chegámos a ver máscaras cirúrgicas a serem vendidas por 6 euros cada, o que é totalmente inaceitável", afirma a representante da Test-Achats.

Fraude nas vendas online

Em todo o mundo, foram descobertos mais de 40 mil novos domínios de alto risco com as palavras-chave "covid" ou "corona". A lista de sites ilícitos ou suspeitos publicada pela associação é longa. A Test Achats alerta contra curas milagrosas e alegações implícitas ou explícitas de que os produtos podem prevenir uma infeção por covid-19. É o caso dos óleos essenciais caros, como o óleo de canábis, e dos antivíricos.

Os esforços da União Europeia para dar uma resposta à altura da situação nem sempre se revelam eficazes e muitas vezes a atuação é tardia.

"A dificuldade é pôr em prática as restrições e controlar. Posso dar um exemplo simples. Fizemos um pequeno teste, apontando cinco conteúdos realmente problemáticos. Foram necessárias três semanas para que três desses conteúdos fossem eliminados. E neste preciso momento, dois deles ainda estão online no Facebook", conta Julie Frère.

A União Europeia solicitou às principais plataformas online, como a Amazon, o e-Bay e o Facebook, que tomassem medidas concretas para eliminar as campanhas de marketing ilegal dos seus sites. Em causa está a proteção não só dos cidadãos e consumidores, mas também das organizações públicas.

O comissário europeu da Justiça, Didier Reynders defende que a ação comunitária está já a dar frutos.

"Conseguimos que as plataformas retirassem toda uma série de anúncios. Por exemplo, o Ali Express removeu 250 mil anúncios. O eBay, outra grande plataforma, bloqueou ou removeu mais de 15 milhões de anúncios. Este é um resultado realmente encorajador. E, com a Eurojust, conseguimos lutar contra as burlas que visam o setor público, como, por exemplo, um hospital que foi paralisado por um ciberataque na República Checa. Na Alemanha uma burla com máscaras vendeu mais de 10 milhões de máscaras por 15 milhões de euros", revela.

O que está a acontecer aqui com o governo [espanhol] é que, primeiro, não publicaram absolutamente nada sobre os contratos relacionados com o coronavírus, o que é uma obrigação legal. E desde que começaram a publicar informação sobre esse e outros contratos, uma parte importante da informação está a ser ocultada".
Eva Belmonte
Codiretora da Fundação Civio

O caso espanhol

Tal como os cidadãos comuns, os organismos governamentais têm sido vítimas de ciberataques e fraudes, com um risco muito mais elevado. A contrafação e as mercadorias de qualidade inferior representam podem representar uma ameaça à saúde pública. Que o diga o governo espanhol, debaixo de fogo, após ter adquirido testes defeituosos.

A 21 de março de 2020, o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciava a compra e realização de testes no país . "Os testes rápidos são muito importantes. Estamos a falar de testes fiáveis, homologados. E isto é muito importante, a homologação", afirmava então.

O anúncio do primeiro-ministro espanhol surgiu depois de semanas de grave escassez de equipamentos de saúde. Mas cedo o entusiasmo se transformou em desespero, quando 58 mil testes revelaram não ser fiáveis.

Seis dias mais tarde, o ministro da Saúde, Illa Roca, anunciava que "é verdade que este produto tinha todas as garantias, tinha o certificado necessário para funcionar na União Europeia, tinha catálogos, algumas especificações que cumpriam as normas de qualidade, mas fizemos obviamente os controlos quando o produto chegou e foi detetado que não tinha o nível de fiabilidade exigido. Por isso, foi retirado"

Numa primeira fase, o governo espanhol recusou-se a dar o nome do distribuidor que adquiriu os testes. A compra foi feita a uma empresa de biotecnologia chinesa que ainda não tinha licença para operar. Muitos interrogaram-se como foi possível um Ministério cometer esse erro.

Para Eva Belmonte, Codiretora da Fundação Civio, "o procedimento de emergência está a ser usado de forma abusiva. Um procedimento de emergência permite contratar antes de fazer um anúncio, ou contratar diretamente, mas depois tem de se publicar todas as informações desse contrato. O que está a acontecer aqui com o governo é que, primeiro, não publicaram absolutamente nada sobre os contratos relacionados com o coronavírus, o que é uma obrigação legal. E desde que começaram a publicar informação sobre esse e outros contratos, uma parte importante da informação está a ser ocultada".

Cerca de 3% dos casos registados atualmente estão relacionados com a covid-19. E quando olhamos para números específicos, estamos a falar de 1.500 delitos neste momento, o que equivale a cerca de pouco mais de 3 milhões de libras de prejuízo
Clinton Blackburn
Chefe do departamento de crime económico da Polícia da Cidade de Londres

Fraude online atinge Reino Unido

No Reino Unido, os internautas denunciaram mais de 160 mil mensagens ao Centro de Cibersegurança Nacional, tendo sido removidas acima de 1 400 ligações a esquemas fraudulentos.

Na cidade de Bracknell, uma instituição de caridade foi alvo de piratas informáticos. Fazendo-se passar pelo presidente da instituição, os burlões exigiram a transferência de cerca de 45 mil euros para outra conta.

Paul Bidwell, presidente da filial da Age Concern, conta que "foi muito sofisticado, receber um e-mail de alguém com quem se trabalha a toda a hora, que certamente não era seu". Caso a fraude não tivesse sido detetada a tempo, o dirigente da instituição britânica não tem dúvidas, "teria sido o fim da Age Concern Bracknell Forest".

A instituição não caiu na armadilha, mas este é um caso clássico de burlas registadas durante a pandemia no Reino Unido.

Clinton Blackburn, chefe do departamento de crime económico da Polícia da Cidade de Londres, revela que "cerca de 3% dos casos registados atualmente estão relacionados com a covid-19. E quando olhamos para números específicos, estamos a falar de 1.500 delitos neste momento, o que equivale a cerca de pouco mais de 3 milhões de libras de prejuízo".

Apesar do esforço internacional, o risco continua a ser elevado. Resta a cada um de nós ser a última linha de defesa contra a fraude. A Interpol aconcelha: "estejam atentos, sejam cépticos, fiquem seguros".