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"Depois do silêncio". Como a Irlanda se reergue dos escândalos de pedofilia

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"Depois do silêncio". Como a Irlanda se reergue dos escândalos de pedofilia
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No noroeste da Irlanda, as praias de Falcarragh convidam a um sossego bucólico. Mas, por trás da aparente pacatez, a pequena cidade irlandesa escondeu durante anos uma dura realidade. Ao longo de décadas, dezenas de crianças foram violadas. Os abusos foram cometidos por padres.

As nossas vidas não são tão normais como as das pessoas que não foram violadas. Estes abusos mudaram a nossa relação com a vida, a nossa relação com os outros, mentalmente.

Tem sido um fardo muito pesado de carregar ao longo de todo este tempo, mas, como vítima de abusos, fico contente por tudo ter sido revelado, por toda a gente saber. Toda a gente sabe, a igreja católica sabe e sempre o soube. Mas agora já não podem negar que o sabem, o que fizeram ao longo de anos e anos de silêncio, em vez de agirem quando sabiam que o abuso estava a acontecer.

Podiam ter salvado centenas de vidas e impedido a tortura de famílias e crianças. O seu silêncio destruiu mais vidas do que o que se pode imaginar
Martin Gallagher
Vítima de pedofilia

Em agosto de 2018, o papa Francisco pediu publicamente, pela primeira vez, desculpa pelas atrocidades cometidas por padres da igreja católica irlandesa. Nesse discurso proferido em Dublin, o sumo pontífice reconheceu "o fracasso das autoridades eclesiásticas em lidar adequadamente com estes crimes", que considerou serem "uma fonte de dor e vergonha para a comunidade católica". Para ouvi-lo eram esperados 500 mil fiéis, mas apenas 130 mil compareceram. Recuando quatro décadas, o Papa João Paulo II tinha sido recebido por um milhão de crentes.

A Irlanda é o quinto país da Europa com o maior número de católicos. A Igreja está enraizada na cultura do país, mas também nos lugares de poder. Historicamente, a religião tem estado na base das escolhas políticas dos irlandeses. No entanto, desde 2002, vários relatórios e investigações evidenciaram mais de 15 mil casos de abuso sexual cometidos entre as décadas de 1960 e 90. Os abusos cometidos por membros do clero não são recentes. No entanto, as desculpas do Papa Francisco só chegaram em 2018. Demasiado tarde para alguns.

Os "Sobreviventes"

Após as centenas de suicídios que se seguiram aos abusos, as vítimas que, de alguma forma, conseguiram lidar com a situação ficaram conhecidas como “os Sobreviventes”. Martin Gallagher é um deles. Aos doze anos, foi abusado sexualmente por Eugene Greene, um pároco em Donegal, no noroeste da Irlanda.

"Quando éramos mais novos e fomos violados, não havia ninguém com quem falar, em quem pudéssemos confiar. Os padres, de quem não nos podíamos aproximar, riam-se de nós e chamavam-nos mentirosos. Não podíamos contar aos nossos pais, porque eles teriam de ir falar com os padres e os padres fariam o mesmo com eles. Não podíamos contar aos guardas, porque os guardas e os padres e os professores eram todos amigos, eles uniam-se, por isso estávamos sozinhos", conta Martin Gallagher.

A mudança só viria a acontecer com a chegada de Martin Ridge à sua vida. Ridge, um, foi o primeiro a ouvir a história de Martin.

"O Martin apareceu e começou a investigar o Eugene Greene. Isso deu início a uma nova página na nossa vida, porque libertou muita pressão, ansiedade, depressão, todos aqueles maus sentimentos que engarrafámos durante anos. Só o facto de falar com o Martin, tirou, logo no primeiro dia, um grande peso dos meus ombros, porque afinal alguém me ia ajudar".

Em 2008, Martin Ridge publicou "Breaking the Silence" (em português, “quebrando o silêncio”), um livro que conta a investigação a Eugene Greene e às queixas de abusos cometidos entre as décadas de 1960 e 90. O autor acusa a igreja católica de ter optado por não fazer nada para impedir todos esses anos de abusos, apesar das múltiplas queixas apresentadas contra o padre.

Ainda hoje o autor da investigação se sente grato pela colaboração das vítimas e afirma ter ficado "contente por estar lá para eles, porque eles também me educaram e estão a educar a sociedade. Estas pessoas são especialistas, porque sabem do que estão a falar".

Durante muito tempo, não é que as autoridades da diocese não tenham feito nada relativamente a essas situações, fizeram coisas, mas todas elas estavam a tentar corrigir o padre e mandá-lo de volta, e não estavam centrados na criança, não deram prioridade à segurança das crianças
Andrew Fagan
Diretor do serviço de proteção de menores de Dublin

A resposta da Igreja

A história de Martin não é um caso isolado. Na Irlanda, as alegações de abuso sexual dizem respeito a quase 14.500 crianças e são relativas a crimes cometidos ao longo de décadas. O país é um dos mais afetados na Europa por este fenómeno, em comparação, a França, Alemanha e Bélgica, onde várias centenas de queixas foram apresentadas desde 2010.

A maioria das acusações foi registada em Dublin, a maior diocese da Irlanda. Entre 1975 e 2004, doze padres foram responsáveis por dois terços das queixas apresentadas na capital. Para combater o fenómeno, a diocese criou em 2002 o serviço de proteção de menores, juntamente com uma agência dirigida pelo Estado.

Andrew Fagan é o diretor e coordenador desse organismo desde 2010. Hoje, identifica as falhas da Igreja na resposta às vítimas e reconhece que a atuação inadequada ou tardia acabou por afastar os fiéis da instituição.

“Quando se soube que os padres se tinham comportado de forma abusiva em relação às crianças isso foi entendido como um problema para o padre, não como um problema para a criança, ou para outras crianças. E durante muito tempo, não é que as autoridades da diocese não tenham feito nada relativamente a essas situações, fizeram coisas, mas todas elas estavam a tentar corrigir o padre e mandá-lo de volta, e não estavam centrados na criança, não deram prioridade à segurança das crianças. Portanto, apesar de muitas coisas terem mudado, não tenho a certeza de que a perceção se tenha alterado. Julgo que muitas pessoas ainda pensam que é um pouco arriscado permitir que os seus filhos se envolvam nas atividades da igreja, por isso, diria que há muitos pais que tomaram a decisão de se distanciarem da igreja”, afirma.

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A esmagadora maioria dos irlandeses é católicaEuronews

Padres adotam medidas para proteger crianças

Frank Reburn é padre na paróquia de Glasnevin, situada no norte da capital. Como todos os padres na Irlanda, fez um teste psicológico antes de iniciar o trabalho na paróquia, além de pôr em prática as diretivas da diocese sobre a proteção das crianças.

"Se me encontrar com os pais, estando a preparar os filhos para o sacramento, para a confirmação ou para a comunhão, explicamos-lhes que temos uma política de salvaguarda da criança em ação aqui na nossa paróquia. Nenhum adulto fica sozinho com uma criança, especialmente aqui, na nossa própria paróquia. Na nossa sacristia, nenhum adulto está sozinho, quando as crianças estão nas instalações asseguramos que estão sob os cuidados de alguém sob vigilância e que tenha feito a formação. Se tivermos sacerdotes visitantes, ou alguém a entrar na nossa sacristia, são obrigados a inscrever-se. E também pedimos aos pais, aos tutores das crianças, que não deixem os seus filhos ir à casa de banho sozinhos, que fiquem lá, que fiquem na zona pública, apenas para se certificarem de que os filhos estão bem. Tem sido um capítulo horrível na história da igreja e nas nossas vidas, um capítulo realmente horrível. Por isso, estou realmente empenhado e farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir que nenhuma criança seja ferida nesta igreja".

O caso do padre pedófilo que imitava Elvis

O arrependimento da igreja deve-se também a outras graves revelações. Como a de Darren McGavin, de 48 anos, sobrevivente de abuso sexual. O seu agressor, Tony Walsh, encontra-se atualmente na prisão por ter violado mais de 200 crianças em Ballyfermot, o subúrbio onde Darren cresceu no seio de uma família violenta.

Darren tinha sete anos quando Walsh foi ordenado. O padre era um fenómeno de popularidade na paróquia por fazer parte de um programa de talentos em que os sacerdotes cantavam chamado "The All Priest Show". Tony Walsh fazia imitações de Elvis Presley. Um dia, fez uma visita aos pais de Darren.

"Ele foi a casa dos meus pais e disse-lhes que sabia do seu segredo obscuro. "Agora sei que estás a bater naquela criança e na tua mulher". Portanto, a partir daí, ambos os pais, adultos, passaram a estar vulneráveis ao padre, na sua mão, porque ele sabia o seu segredo. Foi aí que o padre sugeriu: "eu tiro o vosso filho deste ambiente, porque já o estragaram, ele responde e o senhor bate-lhe ainda mais, não sabe como lidar com ele. Se ele vier comigo, posso ensinar-lhe o amor e posso servir nas missas da manhã, e vamos levá-lo a lugares encantadores, tirar-lhe um pouco de pressão”. Para alguém, uma mãe de 5 filhos, com todos a enlouquecer, e um marido que estava lá muito raramente e quando estava, estava a dar-lhe uma tareia, isso era fantástico, “o meu filho está a salvo!”.

(...) à medida que contava [o que aconteceu], tive, com 12 anos, de estar sempre a tirar o lenço e a perguntar: 'Estão bem?', porque tinha acabado de os traumatizar. Para mim estava tudo bem, porque estava habituado àquilo
Darren McGavin
Vítima de pedofilia

Mas as promessas de segurança e educação cedo se tornaram numa rotina de tortura. "E se eu vos dissesse que um rapazinho foi amarrado a uma mesa de café, preso pelas mãos aos tornozelos, e reparou numa vela acesa, uma vela fina, mas que para ele era apenas uma vela acesa? E enquanto me era dito que iria arder no inferno por toda a eternidade, fui violado com uma vela acesa".

Foi aos doze anos, enquanto assistia a um documentário sobre pedofilia, que Darren se apercebeu de que a relação com o padre da paróquia não era normal. A partir desse dia, começou a ver uma pedopsiquiatra, com apenas um receio: o de que o juiz não acreditasse no seu testemunho durante o julgamento.

No entanto, os próprios terapeutas tiveram dificuldade em lidar com o processo.

"A senhora deu-me um boneco e disse-me: 'Podes mostrar-me o que aconteceu?'. E eu disse: 'Quer que enfie a minha pila dentro do boneco à sua frente?'. Ela disse: 'O quê?'. E eu disse-lhe: 'Disse-me para lhe mostrar, então quer que eu rasgue e monte o boneco?'. Ela disse: 'Não, basta mostra-me'. Eu respondi: 'Não compreendo, eu teria de o fazer, mas disse-me que estava errado. Por que é que quer que faça algo de errado?  Não compreendo'. Então, eles disseram: 'Isso faz sentido, nunca nos tínhamos deparado com uma situação destas". E eu respondi: "Que tal perguntarem-me o que aconteceu?'. Então, à medida que contava, tive, com 12 anos, de estar sempre a tirar o lenço e a perguntar: 'Estão bem?', porque tinha acabado de os traumatizar. Para mim estava tudo bem, porque estava habituado àquilo".

Hoje, enquanto terapeuta, Darren é capaz de ajudar outras vítimas de abuso, sendo ele próprio um sobrevivente de cinco tentativas de suicídio. Faz parte dos 10% das vítimas que apresentaram o seu caso às autoridades.

Vaticano resiste à mudança

Em 2014, o jornal italiano Repubblica revelava que o Papa Francisco assinalou entre o clero, 2% de padres pedófilos, incluindo bispos e cardeais.

Contudo, na investigação conduzida pelo Spotlight, um periódico de Boston, Richard Sipe, psiquiatra e padre reformado, estimou que o número era mais elevado, 6%. De acordo com o antigo clérigo, um pedófilo dentro da Igreja abusa de 250 vítimas ao longo da vida. Isto, - defende Sipe - no caso da Irlanda, representa 280 padres pedófilos para 70 mil vítimas; em todo o continente europeu, cerca de 11.200 padres podem ter violado mais de 2 milhões e 800 mil pessoas.

(..) o Papa diz que havia um encobrimento e é suposto acharmos que ele é ótimo por reconhecer a verdade? Isso é o mínimo!
Colm O'Gorman
Vítima de pedofilia e diretor da Amnistia Internacional da Irlanda

Os números terão levado a Igreja a encobrir os abusos. Colm O'Gorman, sobrevivente e diretor da Amnistia Internacional da Irlanda, luta todos os dias pela reparação dos danos causados.

“A forma como a igreja se comportou, a hipocrisia e a corrupção no coração da igreja foram reveladas e isso levou as pessoas na Irlanda a rejeitarem a autoridade moral da igreja. Isto levou ao fim do domínio político da igreja aqui na Irlanda. É sabido que durante décadas o Vaticano nos chamou mentirosos, que eles disseram que estávamos a contar mentiras, que éramos fantasistas, que esta era uma agenda anticatólica, que não havia encobrimento. Então agora o Papa diz que havia um encobrimento e é suposto acharmos que ele é ótimo por reconhecer a verdade? Isso é o mínimo”.

Também Marie Collins é uma sobrevivente. Muito ativa na prevenção de abusos e pornografia infantil na internet, foi um dos símbolos da comissão para a proteção de menores criada em 2014 pelo Papa Francisco, para lutar contra o abuso sexual. Demitiu-se em 2017, cansada da resistência do Vaticano.

“A comissão era constituída por peritos fora da igreja, peritos em proteção de crianças, de todas as áreas, reunidos para aconselhar o Papa, para trazer especialistas do exterior para a igreja. E eu alinhei, porque se a igreja estava a ser sincera com o objetivo de mudar, achei que devia trabalhar para ajudar. Mas descobri, após alguns anos, que havia tanta resistência no Vaticano para mudar. A importância da proteção das crianças foi realmente ignorada, foi mais uma questão política”.

A recente decisão, tomada pelo Papa Francisco, de levantar o segredo pontifício sobre a pedofilia, mostra um desejo de transparência dentro do Vaticano. Agora, as queixas e testemunhos relativos a abusos sexuais nos arquivos da Santa Sé, podem ser apresentados às autoridades civis. A igreja é obrigada a responder às expectativas da sociedade.

Irlandeses divergem da Igreja

Em 2015, os irlandeses aprovaram em referendo o casamento homossexual. Já em 2018, o país revogou a 8.ª emenda da constituição, para permitir o direito ao aborto. Quase 80% da população irlandesa é católica, mas estas são as mesmas pessoas que votaram a favor das duas reformas apesar de se oporem às diretivas da Igreja.

Os números realçam um paradoxo: a sociedade irlandesa permanece culturalmente católica, mas está a afastar-se da igreja enquanto instituição. A tendência pode ser observada em toda a Europa, o único continente onde a população católica diminuiu antes de começar a estagnar.

Após 20 anos, a Irlanda tenta sarar as feridas e melhorar a segurança das crianças, muitas vezes sem a cooperação da Igreja. A lição é importante, tendo em conta que outros países, como Austrália, França, Polónia e Estados Unidos estão apenas na fase da revelação, em que as vítimas de abuso sexual no seio da Igreja só agora começam a ser ouvidas.

O mais horrível é viver em silêncio
Marie Collins
Ex-membro da comissão para a proteção de menores do Vaticano

Todas estas vozes são testemunho da extensão do fenómeno e aquela que tem sido a resposta recorrente da Igreja: o silêncio, ou mesmo a cumplicidade, como provam as recentes revelações do caso McCarrick, um arcebispo americano promovido por João Paulo II, apesar de consciente das acusações de abuso sexual que pendiam sobre o clérigo. Só anos mais tarde, em 2018, é que McCarrick viria a ser demitido.

As vítimas recorreram às instituições públicas para serem ouvidas, na esperança de, um dia, conseguirem encerrar o assunto.

Hoje, Colm O'Gorman é um homem sem "fé religiosa", mas diz haver um processo no qual tem uma "fé inabalável". O diretor da Amnistia Internacional da Irlanda diz estar certo de "que por muito terrível que seja o mal feito, por muito terrível que seja a ofensa, que se estivermos preparados para o assumir, para o enfrentar com coragem, e com verdade, e com compaixão, e com amor, e com o compromisso de avançar, então a cura e a recuperação e o progresso não serão apenas possíveis, serão inevitáveis".

Já Marie Collins mantém a fé ainda se considera católica, mas reconhece que a relação com a "igreja institucional" mudou. "Perdi realmente toda a confiança nela", lamenta. Mas "o mais horrível", afirma, é "viver em silêncio".

Perante o avultado número de vítimas e suicídios resultantes da pedofilia, a sobrevivente deixa o alerta: "Para algumas vítimas, tem sido demasiado e têm posto termo às próprias vidas, como sabemos. Portanto, temos de pensar nos países onde isto ainda está a acontecer, e pensar nessas crianças”.