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Covid-19. A crise sanitária que é também psiquiátrica

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Covid-19. A crise sanitária que é também psiquiátrica
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A pandemia de covid-19 intensificou as rotinas hospitalares um pouco por todo o mundo. No sudeste de França, em Lyon, o Edouard Herriot, o maior hospital geral da região é também o que recebe mais pacientes com problemas de saúde mental.

Emmanuel Poulet dirige as emergências psiquiátricas. À sua frente, sentado numa maca, tem um estudante de 19 anos, que tentou o suicídio com uma overdose de drogas psicotrópicas. O jovem encontrava-se em processo de desintoxicação, mas o último confinamento acabou por deitá-lo abaixo.

"Senti-me tão desesperado. E disse a mim mesmo, já nada importa, não vale a pena, vou apenas pôr um fim a tudo isto. Pensei que isso me poderia tirar do impasse. Sinto-me como se estivesse preso em algo. E com a situação atual, estamos literalmente presos entre quatro paredes o tempo todo, o que não ajuda‘’, conta.

É quem já estava frágil antes da crise sanitária, que mais está exposto ao stress gerado pela pandemia. No entanto, diz o psiquiatra, ninguém está imune.

"Temos pacientes que não foram identificados anteriormente como tendo problemas de saúde mental". A evolução é clara para o médico. "Dado o conjunto de parâmetros de instabilidade e stress, sejam eles epidémicos, sociológicos, económicos, somos levados a crer que há um aumento significativo de perturbações depressivas e de ansiedade, crises suicidas também, começamos já a ver isso", revela o médico.

Utilizadora:
- Tenho muitos problemas na minha vida. Nunca falei muito sobre isso.

Psiquiatra:
- Nunca foi seguida por um psicólogo ou um psiquiatra?

Utilizadora:
- Não, nem por isso, eu não sou maluca!

Psiquiatra:
- Compreendo. Só lhe falo destes profissionais porque me parece haver muita ansiedade. Talvez esteja a precisar de algum apoio?...

Utilizadora (em stress)
- Não sei. Teriam de vir ver-me, porque eu não posso sair! Há alturas em que não consigo sequer respirar! Fico no meu quarto, não vejo ninguém, não consigo tocar em nada! E por causa disso, já não como!

Psiquiatra:
- Então talvez seja melhor pô-la em contacto com uma equipa móvel. Há enfermeiros, psicólogos, médicos, talvez fosse útil para si ter uma avaliação médica, falar um pouco com eles, ver se podemos estabelecer um acompanhamento ao longo do tempo
Recriação de uma chamada para a linha direta de apoio "LIVE" (França)

Os sintomas

O contexto psicológico e socioeconómico afeta de diferentes formas a população; também os sintomas podem manifestar-se de diversas maneiras.

Sem querer revelar publicamente a identidade, um homem recebe-nos em sua casa para contar como, durante o primeiro confinamento, ficou desesperado, ao ponto de querer morrer.

"Senti um sentimento de privação de liberdade, um sentimento de opressão, um sentimento de estar preso também. Não havia mais sentido para a vida. Tudo o que interessava foi banido. Isso foi extremamente stressante para mim".

Os sintomas também foram físicos. "Senti-me fisicamente oprimido, com dores no estômago, um aperto na garganta... E depois passei-me e destruí quase tudo em casa. Fui hospitalizado e fui diagnosticado com delirium tremens. Depois veio-se a verificar que tinha covid-19. Isto significa que a covid agravou realmente a minha crise. Isso é certo".

Ao longo dos delírios, conta, a sensação mais frequente foi "o medo de morrer". Foram precisos vários meses no hospital até recuperar o gosto pela vida.

(...) aos efeitos do confinamento temos de acrescentar o da rutura dos laços sociais, para aqueles que estão confinados sozinhos, bem como o medo dos efeitos secundários pós-contaminação, o medo da contaminação, o medo pela saúde e possivelmente pela sobrevivência
Nicolas Franck
Psiquiatra

Confinamento agravou problemas de saúde mental

A crise sanitária tem contribuído para o aumento de afluência ao Le Vinatier, o hospital psiquiátrico da cidade.

Benny - nome falso - já foi tratado no estabelecimento por distúrbios mentais.

Ao sentir que não conseguia enfrentar o último confinamento, pediu para ser hospitalizado.

"A primeira vez não me afetou muito porque ainda estava em psicose. Quando saía de casa, não estava ninguém na rua, e isso tranquilizava-me. Mas agora que recuperei um pouco, preciso do apoio de outras pessoas, preciso que a sociedade funcione como antes”.

A necessidade sentida por Benny é partilhada por muitos.

Além de psiquiatra e chefe de unidade no hospital de Vinatier, Nicolas Franck realizou um inquérito e escreveu um livro sobre o impacto psicológico do confinamento. Hoje, diz temer os efeitos da crise sanitária ao longo do tempo, à medida que as pressões se acumulam.

"Tivemos o primeiro confinamento que já deixou vestígios. E agora temos este confinamento que chega num período em que há uma diminuição da luminosidade, e depressões de inverno. Temos a crise económica que se começa a instalar, pessoas que estão em perigo, no que diz respeito aos seus empregos ou às suas pequenas empresas. E aos efeitos do confinamento temos de acrescentar o da rutura dos laços sociais, para aqueles que estão confinados sozinhos, bem como o medo dos efeitos secundários pós-contaminação, o medo da contaminação, o medo pela saúde e possivelmente pela sobrevivência”.

Com esta segunda vaga, vemos que há pessoas em que sintomas aumentaram e, muitas, infelizmente, não ousam vir a uma consulta. E quando a patologia psiquiátrica se instala, é preciso procurar ajuda profissional porque, com o tempo, há poucas hipóteses de que melhore por si só
Elodie Zante
Psiquiatra

Combate à doença com serviços de proximidade

As estruturas de saúde mental estão a implantar novos serviços para responder ao crescente stress da população.

No hospital de Vinatier, a equipa da linha direta "LIVE" tem estado de serviço sete dias por semana desde março.

Recentemente a unidade passou a dar, fora de portas, uma consulta dedicada à covid-19, num centro médico-psicológico localizado no coração da cidade.

A solução encontrada é, por vezes, uma alternativa mais acessível ao ambiente hospitalar, ou aos consultórios privados, cada vez mais saturados de pedidos.

As razões de angústia são numerosas: isolamento, precariedade, incerteza sobre o futuro, medo de jovens ou idosos, trauma pós-infeção, ou luto.

A psiquiatra Elodie Zante revela quais são os sintomas mais frequentes.

"Há muitas perturbações do sono, em pessoas para quem o ritmo de vida mudou e em particular aquelas que pararam a atividade profissional.

Há ataques de ansiedade, em pessoas que não costumavam ter nenhum. Há por vezes isolamento social, com perda de prazer ou de interesse pelas coisas da vida quotidiana. Vemos também perturbações obsessivo-compulsivas em pacientes que, por exemplo, limpam freneticamente a casa.

Com esta segunda vaga, vemos que há pessoas em que sintomas aumentaram e, muitas, infelizmente, não ousam vir a uma consulta. E quando a patologia psiquiátrica se instala, é preciso procurar ajuda profissional porque, com o tempo, há poucas hipóteses de que melhore por si só".

(...) devem sempre pedir ajuda. Isso é o mais importante
Benny (nome fictício)
Paciente do serviço psiquiátrico do Hospital de Vinatier

Estigmas por derrubar

Quebrar os estigmas da saúde mental e aumentar os recursos são prioridades apontadas pelos profissionais da saúde para ultrapassar a próxima vaga do coronavírus. Porque a próxima crise sanitária, dizem, vai ser psiquiátrica.

Voltamos a Benny. Hoje, reconhece que qualquer pessoa preocupada com o que sente, ou que esteja a passar pelo que ele próprio viveu deve "sempre pedir ajuda".

Quanto ao jovem de 19 anos que tentou pôr termo à vida, o futuro, diz, está para lá do que o que consegue imaginar. Mas terá de ser melhor.

"Quero acreditar que tudo isto vai acabar, porque tudo tem um fim. E depois vamos conseguir passar para outra coisa. Digo a mim próprio que é apenas uma má fase a passar. Também não consigo imaginar o futuro, mas quero imaginá-lo de forma positiva. É a isso que me estou a agarrar".