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"Estado da União": A relação UE-Turquia após o "sofagate"

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De  Isabel Marques da Silva  & Stefan Grobe
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"Estado da União": A relação UE-Turquia após o "sofagate"
Direitos de autor  Lefteris Pitarakis/The Associated Press
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O atraso no processo de vacinação contra a Covid-19 na Europa continua a marcar as manchetes. Mesmo nos principais grupos prioritários - pessoas com mais de 80 anos e profissionais de saúde-, foram vacinadas menos pessoas do que o planeado.

Tal deve-se à reduzida entrega de vacinas e campanhas ineficazes de vacinação. Os problemas são mais complexos com a vacina da AstraZeneca. De acordo com a Agência Europeia dos Medicamentos, poderá existir uma ligação entre tomar esta vacina e ter como efeito secundário coágulos sanguíneos muito raros.

Mesmo assim, a agência continua defender o uso dessa vacina, disse a diretora-executiva, Emer Cooke: “Esta vacina tem mostrado ser altamente eficaz. Evita a forma grave da doença, evita a hospitalização e está a salvar vidas. Devemos usar as vacinas de que dispomos para nos protegermos dos efeitos devastadores da doença".

O "sofagate" no relançar da relação UE-Turquia

Esta semana, a agenda diplomática da Europa ficou dominada pelo chamado "sofagate", por ocasião da visita da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, à Turquia.

Foi visível a surpresa de von der Leyen quando percebeu que não tinha direito a uma cadeira igual à do presidente Michel e à do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tendo de ficar sentada no sofá, o que levou a uma reação do seu prorta-voz.

“A presidente espera que a instituição que representa seja tratada com o protocolo exigido e, portanto, pediu à sua equipa que fizesse todos os contatos necessários para garantir que este tipo de incidente não voltará a ocorrer”, disse Eric Mamer, em conferência de impensa.

O que rapidamente ficou conhecido como "sofagate" desviou as atenções das práticas autoritárias do presidente turco e da matéria em causa nas negociações entre Bruxelas e Ancara, face à tensão política do último ano.

A União Europeia quer ter uma relação mais construtiva com a Turquia, mas deixou claro ao presidente Erdogan que novas provocações terão um preço político. Sobre este tema, Stefan Grobe entrevistou Yunus Ulusoy, analista político no Centro Alemão de Estudos Turcos da Universidade de Duisburg-Essen.

Stefan Grobe/euronews: Em primeiro l ugar queria falar sobre o chamado sofagate. Este escândalo deveu-se a simples negligência do protocolo turco ou terá sido intencional, como muitos pensam em Bruxelas?

Yunus Ulusoy/analista político: Não consigo imaginar que a Turquia fizesse tal coisa de propósito. O atual interesse da Turquia é aproximar-se da Europa e do Ocidente. Nessas circunstâncias, tal coisa seria impensável. Além disso, se a Turquia e o presidente turco tivessem uma melhor imagem externa, provavelmente falaríamos sobre este incidente de forma diferente. Mas dado que têm já má reputação, fala-se do sofagate.

Stefan Grobe/euronews: Em termos de politica concreta, esta era a ocasião para relançar o relacionamento, e a União Europeia fez novas propostas à Turquia. Mas a União tambem se mostrou preocupada com a situação dos direitos humanos na Turquia, nomeadamente os das mulheres. Como será que o presidente Erdogan vai reagir?

Yunus Ulusoy/analista político: Provavelmente, o presidente vai usar uma linguagem diplomática diferente da que costumava ter, já que não haverá eleições na Turquia tão cedo. Logo, ele não precisa de usar a política externa para fazer campanha eleitoral, à semelhança do que fez muitas vezes. O presidente turco costumava disparar balas de canhão retóricas contra os países da União para angariar votos. Isso fez com que a posição atual da Turquia na cena internacional seja de grande isolamento. O seu maior parceiro agora é a Rússia, que representa grande imprevisibilidade para a Turquia. Por outro lado, enfrentar a Rússia sozinho seria muito arriscado para a Turquia. No que respeita aos pontos quentes da política externa, nomeadamente os conflitos na Síria e na Líbia, a Turquia partilha muito mais interesses com o Ocidente do que com a Rússia ou com a China.

Stefan Grobe/euronews: A União Europeia quer, sobretudo, rever o acordo de migração que assinou com a Turquia em 2016. Já o governo de Ancara quer ter melhores condições na união aduaneira. Portanto, os dois lados precisam um do outro. Pensa que há outras áreas para uma cooperação reforçada?

Yunus Ulusoy/analista político: Em relação à Síria, ambas as partes estão insatisfeitas com a atual situação. A Europa não tem ali muita influência, mas a Turquia é uma potência importante no Médio Oriente. Portanto, a Europa e a Turquia precisam uma da outra. Estou convicto de que, no longo prazo, os interesses da Turquia se alinharão estreitamente com os da União Europeia. Além disso, a Turquia é, enquanto membro da NATO, importante no flanco sudeste da Europa e dá uma das maiores contriibuições para o exército da NATO. Só isso é suficiente para manter os dois lados unidos.