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Greve nos aeroportos cancela mais de 600 voos

De  Francisco Marques
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Passageira verifica lista de voos no aeroporto de Lisboa
Passageira verifica lista de voos no aeroporto de Lisboa   -   Direitos de autor  AP Photo/Armando França
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Pelo menos 621 voos foram cancelados este fim de semana de e para Portugal devido à greve de dois dias dos trabalhadores da Groundforce, a principal empresa que de assistência em terra à aviação nos aeroportos portugueses.

A falta do pagamento de salários de uma só vez desde fevereiro e dos subsídios de férias e de outras anuidades contratualizadas esteve na base de uma paralisação que lançou o caos em particular no Aeroporto Internacional Humberto Delgado, em Lisboa.

Num ano de crise na aviação provocada pelo impacto da Covid-19 nas viagens, os grevistas exigem o pagamento integral pela Groundforce do salário de julho, após ameaça de não haver condições para o cumprir, e a estimativa dos sindicatos apontam para um impacto da greve "muito superior aos €3 milhões" necessários para respeitar os direitos dos trabalhadores.

O presidente do Sindicato dos Técnicos de Handling de Aeroportos garante que o organismo que lidera "não foi contactado por nenhuma entidade responsável, seja da Groundforce, seja da TAP", a companhia de aviação portuguesa que detém 49,9% da empresa de assistência em terra e que é visada como devedora de €12 milhões pela Pasogal, a empresa que detém 50,1% da Groundforce.

"Andam dois acionistas à guerra um com o outro: a Pasogal e a TAP com Governo por trás -- porque também temos de entender que não existe TAP, o que existe é Ministério das Infraestrutura e Pasogal -, com os trabalhadores no meio" referiu, sublinhando que desde este sábado, esta guerra está a "fazer reféns os milhares de passageiros que ficaram sem voos e toda a disrupção que foi criada na comunidade aeroportuária nacional".

As reivindicações

Em conversa com a Euronews, Paulo Branco Silva, trabalhador da Groundforce, explicou-nos que os salários até junho "estão pagos", mas "têm sido pagos em tranches desde fevereiro".

"Este último mês, por exemplo, pagou 65% do salário no fim do mês. Depois passou mais 20% no dia 8 de julho e pagou os restantes 15% no dia 15. No mês anterior, pagou 85% a dia 1 e os restantes 15% a dia 15", revelou.

Um dos casos mais emblemáticos das reivindicações será o de um casal em que ambos trabalham na Groundforce e são credores de "mais de €6 mil", nos quais se incluem os dois subsídios de férias, a progressão na carreira, "que não é atualizada", e as anuidades contratualizadas.

O prémio de meio salário anual a cada trabalhador foi pago apenas a alguns, de acordo com o sindicato a que pertencem. Este é um caso já em tribunal.

Para alguns trabalhadores, estes extras ao salário base representam a forma de pagar despesas fixas anuais como os seguros automóveis ou o IMI, entre outras, numa altura em que as moratórias criadas durante o pico da pandemia também estão a acabar.

Este mês recebemos um e-mail de [Alfredo] Casimiro [o dono da Pasogal] a dizer que no próximo mês o mais certo é [o salário] não ser pago por falta de liquidez financeira
Paulo Branco silva
Trabalhador da Groundforce

Desde sábado de manhã, os passageiros têm-se amontoado em diversas zonas do Terminal 1 do aeroporto de Lisboa. Uns à espera de voo para partirem, outros à espera das bagagens após aterrarem.

Todos exigem informações que lhes vão chegando de forma escassa e às vezes até contraditória.

As queixas de passageiros avolumam-se, sobretudo, devido à Covid-19 e à necessidade de terem testes negativos na hora do embarque.

"É frustrante! Fiz o meu teste Covid ontem [sexta-feira]. Neste momento já passaram quase 30 horas. Só já tenho pela frente 18 horas até chegar à Suécia, a Estocolmo, porque de outra forma expira e tenho de voltar a fazer um teste. Com todas estas pessoas aqui, duvido que consiga um resultado negativo", disse Madeline Sotoudeh, uma consultora financeira do Canadá, bloqueada em Lisboa.

AP Photo/Armando França
Filas a crescer no aeroporto de LisboaAP Photo/Armando França

Ludovic Kowalczuzk é um turista francês e deslocou-se a Portugal com a companheira, ambos já vacinados e com certificado, mas foram apanhados pela greve.

"É preocupante que nestes tempos de Covid aconteça algo assim. Há greve e eu até posso entender as reivindicações dos grevistas, mas é complicado porque não sabemos nada e agora estamos aqui todos demasiado juntos", dizia Ludovic Kowalczuzk.

Trabalhadora numa fábrica em Portugal, Irina Velkova lamentava ver "tanta gente em cima uma da outra" e perguntava: "Se estamos numa zona com tantos casos de covid e tanta preocupação, porque é que fizeram isto tudo?

Os voos suprimidos e a ameaça

Além dos 301 voos suprimidos em Lisboa, no Porto, num primeiro balanço ao final da manhã, devido à greve tinham sido cancelados 26 voos, repartidos entre partidas e chegadas.

Nos aeroporto de Faro, Madeira e Porto Santo tinham sido cancelados seis em cada um, o que perfaz um total nacional de 345 voos só este domingo e de 621 no conjunto do fim de semana.

As companhias aéreas que utilizam o Terminal 2 do aeroporto de Lisboa, as de "baixo custo", e as que operam com outra empresa de assistência em terra ou em escala diferente da Groundforce mantêm a operação habitual.

AP Photo/Armando Franca
Funcionários da ANA- Aeroporto de Portugal distribuem água pelo aeroporto de LisboaAP Photo/Armando Franca

Este domingo cumpre-se o segundo dia de greve na Groundforce. Com um outro protesto em curso desde 15 de julho, com uma greve às horas extraordinárias até 31 de julho, uma nova paralisação está já anunciada entre 31 de julho e dois de agosto.

A Confederação do Turismo de Portugal apelou entretanto ao Governo a utilização de uma requisição civil para impedir a nova paralisação agendada.

"Não podemos, de maneira nenhuma, vir a ter mais mil voos cancelados em 31 de julho e 1 e 2 de agosto. O direito à greve está constitucionalmente previsto, mas isso não pode prejudicar milhares e milhares de pessoas e prejudicar como está a prejudicar a imagem do país. Sou apologista de qualquer medida que evite que se venha a repetir algo que já vai dar uma imagem muito negativa de Portugal. Se necessário for uma requisição civil, que seja feita", afirmou Francisco Calheiros, à TSF.

O presidente da Confederação do Turismo aponta que "a Groundforce diz que a TAP deve dinheiro à empresa e a TAP diz que esses montantes não são devidos" e sublinha haver um "impasse". "É urgente, para ontem, que o Governo intervenha", reforçou.

Outras fontes • Agência Lusa