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Lucros compensam os riscos na extração ilegal de ouro em Roraima

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De  Nara Madeira  com AP
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Garimpeiros ilegais detidos pela polícia na Amazónia, estado de Roraima, Brasil
Garimpeiros ilegais detidos pela polícia na Amazónia, estado de Roraima, Brasil   -   Direitos de autor  AP

Uma investigação da agência de notícias Associated Press mostra que aeronaves - que não têm autorização nem planos de voo, que muitas vezes nem têm número de registo, porque foi apagado ou alterado, que voam a baixa altitude para não serem detetadas - formam a espinha dorsal da extração ilegal de ouro em terras indígenas na Amazónia brasileira.

Representantes federais, estaduais e peritos ambientais afirmam que sem essa estrutura, que está muito bem montada, estas operações entrariam em colapso mas a verdade é que pouco está a ser feito.

Falta vontade política

Robert Muggah, diretor da equipa de investigação e Inovação do Instituto Igarapé, explicava que se continua a assistir "a esta frustrante falta de vontade política" de se envolverem naquele que é "um problema devastador que contribui para umadesflorestaçãosignificativa na maior floresta tropical do mundo". Salientava ainda que muita dessa "expansão na extração ilegal de ouro está a acontecer emterritórios indígenase em áreas protegidas".

Polícia intensifica combate a este crime

A polícia estadual intensificou os esforços para identificar e apreender as avionetas no estado de Roraima mas é difícil encontrar o fio à meada. A localização dos seus proprietários é dificultada pelo facto de estas estarem, normalmente, registadas em nome de familiares, trabalhadores ou cônjuges que se recusam a falar.

Ainda assim, fontes policiais não identificadas disseram à AP terem descoberto os verdadeiros proprietários da maioria das aeronaves apreendidas. Geralmente, são pessoas que lavam dinheiro investindo em hotéis, restaurantes, ginásios e postos de abastecimento e, Boa Vista.

As falhas que levam à extração ilegal de ouro

Em setembro foram encerradas mais de cinquenta pistas de aterragem clandestinas e três portos fluviais dentro da reserva Yanomami. Os agentes queimam tudo o que encontram. Mas para o presidente brasileiro o importante não é acabar com esta atividade é perceber a quantidade de ouro que está a ser extraída, como o próprio dizia num vídeo publicado na internet, em abril do ano passado.

A legislação proposta por Jair Bolsonaro, que tornaria legal a exploração mineira em reservas e as falhas graves na fiscalização, sobretudo durante a pandemia de Covid-19, levaram milhares de mineiros a partir para a reserva de Yanomami em busca deste metal precioso, exacerbando um problema que existe há anos e que tem vindo a agravar-se.

Arriscar sem olhar para trás

Dezenas de pilotos chegaram à Boa Vista vindos de outros estados durante a pandemia. Procuravam trabalho e estavam prontos a tudo numa altura em que a situação económica no Brasil não era, de todo, a melhor. Com o preço do ouro a subir, exponencialmente, este tráfico é aliciante para muitos mesmo com todos os riscos.

O custo médio para chegar a Yanomami por avião são 10 gramas de ouro, que depois são vendidas por mais de 500 dólares no mercado negro.

Mas os riscos são, de facto, grandes. No ano passado, um piloto despenhou-se na selva e sobreviveu sozinho durante cinco semanas. Outro desapareceu quando viajava entre duas regiões do território Yanomami, na fronteira com a Venezuela, conhecidas pela mineração ilegal. Os meios de comunicação locais têm documentado numerosas perdas e desaparecimentos de pilotos.

Nos últimos anos surgiram centenas de minas de ouro ilegais. Grupos ambientais e de defesa dos direitos indígenas estimam que cerca de 20.000 mineiros ilegais estão presentes na reserva, que tem, aproximadamente, a mesma dimensão que Portugal. Números que diferem, largamente, dos oficiais.