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Politólogo Steven Forti e dois líderes da extrema-direita europeia, Marine Le Pen e Viktor Orbán
Politólogo Steven Forti e dois líderes da extrema-direita europeia, Marine Le Pen e Viktor Orbán   -   Direitos de autor  AP Photo

"Uma democracia deve saber defender-se", avisa politógo sobre a extrema-direita

"A extrema-direta da atualidade - Salvini, Le Pen, Abascal, Ventura, Orbán - são a maior ameaça à democracia liberal em que vivemos", afirma Steven Forti, politólogo italiano que se tem dedicado a estudar os movimentos populistas em forte crescimento na União Europeia na última década, inclusive em Portugal.

O historiador é um dos oradores convidados para participar esta semana nas conferências do Festival Política, em Portugal, mas antes de se apresentar em Lisboa falou com a Euronews sobre o crescimento da extrema-direita no seio dos "27" apesar de defenderem alguns princípios contrários aos valores da UE.

Devemos ser conscientes deste perigo e conhece-lo. É fundamental estudá-lo e saber como combate-lo, trava-lo e evitar que também Portugal, Espanha, Itália ou França se possam converter na Hungria, de Viktor Orbán.
Steven Forti
Politólogo e escritor

Forti, que publicou em outubro o livro "Extrema-direita 2.0: o que é e como combatê-la", explicou-nos que os partidos nacionalistas cresceram muito nos últimos 10 anos devido ao impacto na sociedade da crise financeira de 2008 e da vaga de migrantes surgida após o início das chamadas "primaveras árabes".

Esses eventos criaram uma perceção de desigualdade social e de insegurança entre os cidadãos europeus, o que os movimentos populistas aproveitaram para estreitar laços com os mais descontentes perante a elite política.

"Apesar de serem perceções pouco a ver com a realidade, isto tem consequências eleitorais. A extrema direita, à sua maneira, oferece uma resposta a este medo e a esta falta de proteção", começou por dizer o politólogo, dando depois o exemplo concreto da chegada de "muitos migrantes" à UE: "A extrema-direita diz 'fechem-se as fronteiras, fechem-se os portos' e, para muitas pessoas, estas respostas são suficientes".

Um novo evento disruptivo surgiu na Europa nestes últimos meses. A invasão da Ucrânia mexeu com o grupo europeu das forças de extrema-direita.

Algumas, como o Fidezs, de Viktor Orbán, mantêm-se próximas do Kremlin. Outras, como a francesa União Nacional, de Marine Le Pen, ou a italiana Liga, de Mateo Salvini, distanciaram-se de Putin, de quem tinham recebido inclusive apoio durante a respetiva afirmação política.

"Há algumas coisas a mudar com a guerra da Ucrânia e devemos ainda esperar algumas semanas ou meses para perceber que impacto irá ter nas relações muito diversas da extrema-direita europeia", perspetivou Forti, lembrando haver forças populistas que sempre foram distantes de Moscovo como o PiS, na Polónia, o "Fratelli d'Itália", o Vox, em Espanha, ou até o Chega, em Portugal, enumerou o politólogo.

A forma como as forças nacionalistas europeias mudaram a perspetiva sobre a migração em relação aos refugiados da guerra na Ucrânia encontra explicação, refere Steven Forti, no facto de se tratar "de uma população europeia, branca e cristã".

"O que se liga a uma série de valores católicos e ultra conservadores que também defendem estas formações políticas", explica o politólogo, resumindo a diferença entre os migrantes de outros continentes e sobretudo os muçulmanos como "de nível B", sendo os migrantes do leste europeu vistos como "de nível A" pela extrema-direita.

A forma como os movimentos de extrema-direita têm aproveitado as redes sociais para propagar os seus ideais populistas, muitas vezes suportados em argumentos falsos e polarizados, deve ser combatida com "linhas vermelhas para além das quais não se pode passar porque ofender e atacar uma pessoa pela sua origem ou religião é discurso de ódio e deve ser uma infração", defende o historiador.

As grandes plataformas digitais não são esquecidas: "Não conhecemos nem os algoritmos com que se viralizam as notícias, as publicações e os 'tweets' nas principais plataformas sociais nem, ao mesmo tempo, existe qualquer tipo de controlo. Isto parece-me ser um outro problema importante e uma prioridade: democratizar o espaço digital ou, sobretudo, promover uma gestão pública do espaço digital."

Steven Forti entende que "uma democracia deve saber defender-se, mas não pode ceder os seus valores que fundamentam um regime democrático", nomeadamente decidindo censurar meios de comunicação que considera manipulados.

"Senão estamos apenas a asfaltar a estrada para a extrema-direita e o populismo iliberal", avisou o historiador.

O politólogo enaltece a importância da liberdade de imprensa, mas com "um maior 'fact checking', uma melhor verificação das informações, não só explicando e contextualizando, mas também com uma maior ética profissional". "Isto tem faltado muito no passado recente", lamentou.

Steven Forti faz parte do painel de oradores convidados para a conferência "Como Lidar com a Extrema-direita em Portugal?", marcada para esta sexta-feira, às 17h30, no Cinema São Jorge, em Lisboa.