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Guy Verhofstadt: "uma das principais propostas é acabar com os direitos de veto na UE"

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De  Sandor Zsiros  & euronews
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Guy Verhofstadt: "uma das principais propostas é acabar com os direitos de veto na UE"
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Nos últimos doze meses, milhares de cidadãos europeus debateram ideias, expressaram preocupações  e fizeram propostas para o futuro da União Europeia

A euronews falou com o eurodeputado Guy Verhofstadt sobre esta experiência única de democracia direta, intitulada Conferência sobre o Futuro da Europa.

euronews: "Estamos na sessão plenária final desta conferência. Como vê o processo? Foi um sucesso, um meio sucesso ou talvez um fracasso?"

Guy Verhofstadt: "Quando começámos há um ano, não havia muita gente que acreditasse na utilidade da conferência sobre o futuro da Europa. Entretanto, para além da Covid-19, há também uma crise enorme com a guerra na Ucrânia. E toda a gente viu que esta União Europeia precisa de ser reformada, para sobreviver no mundo de amanhã, que será um mundo diferente, para defender os interesses dos nossos cidadãos, e para agir, mais rapidamente, de forma mais decisiva, do que no passado. “

Gastamos mais ou menos 240 mil milhões em defesa na Europa. Quatro vezes mais do que os russos. Mas se olharmos para a situação atual, não somos suficientemente capazes, sem a ajuda dos nossos amigos americanos, de agir a nível da defesa.
Guy Verhofstadt, eurodeputado

euronews: "Quais são as propostas mais interessantes?"

Guy Verhofstadt: "Por exemplo, uma das principais propostas é acabar com os direitos de veto na União Europeia. Pôr fim à votação por unanimidade e aos processos de tomada de decisão. Por causa da unanimidade, agimos sempre muito pouco, muito tarde, enquanto União Europeia. Foi o que aconteceu com a crise financeira. E com a crise migratória. Foi o que aconteceu com a Covid-19. E continua a ser um problema, hoje, em tempo de guerra. Temos de abolir esse sistema e criar um sistema de votação por maioria simples ou maioria qualificada em todas áreas no interior da União, para que possamos agir mais rapidamente do que no passado".

euronews: "Para isso é necessário alterar o tratado. Qual é a possibilidade de isso acontecer"?

Guy Verhofstadt: "O que posso afirmar é que o Parlamento Europeu assumirá a sua responsabilidade. Iremos pedir uma alteração do tratado. “

euronews: "E a nível social? Emprego, habitação, cuidados de saúde. O que dizem os cidadãos? “

Guy Verhofstadt: "Querem que a Europa tenha competências nessa área, para que haja uma base social, um mínimo social garantido pela Europa em todo o território da União Europeia. Sobre as migrações, os cidadãos formularam uma ideia que foi aprovada pelo plenário da conferência. Trata-se de ter uma estratégia para resolver as questões migratórias a nível europeu, um sistema de migração legal, o combate à migração ilegal, soluções para os refugiados e para os refugiados de guerra.

euronews: "Qual é a sua recomendação preferida?"

Guy Verhofstadt: "A minha parte favorita é a ideia de ter forças armadas conjuntas da União Europeia. Ter uma política de defesa comum. Com a guerra na Ucrânia vemos que isso nos faz falta. Gastamos mais ou menos 240 mil milhões em defesa na Europa. Quatro vezes mais do que os russos. Mas se olharmos para a situação atual, não somos suficientemente capazes, sem a ajuda dos nossos amigos americanos de agir a nível da defesa. Para mim, o maior desperdício de dinheiro na União Europeia são 27 exércitos, que repreentam uma duplicação desnecessária sem termos eficácia suficiente".

O conceito de Estado de direito não é assim tão difícil de compreender. O problema é que em alguns países, os governantes que têm uma maioria no parlamento pensam que podem fazer o que querem porque têm uma maioria.
Guy Verhofstadt

euronews: "Na última década, a questão da democracia e do Estado de direito tem estado no topo da agenda europeia. Durante a conferência, ao abordar o tema com líderes ou com pessoas, por exemplo, da Polónia e da Hungria e do resto da Europa sentiu que havia um entendimento comum sobre a questão? “

Guy Verhofstadt: "O conceito de Estado de direito não é assim tão difícil de compreender. O problema é que em alguns países, os governantes, os que têm uma maioria no parlamento, pensam que podem fazer o que querem porque têm uma maioria. E isso não é o Estado de direito. O mais importante é que na conferência, com base em propostas dos cidadãos, decidimos alterar o tratado para que possa funcionar. Porque não podemos evitar que dentro da família europeia haja membros que pensam que o dinheiro é importante, mas os valores não.

euronews: "Há uma guerra na Ucrânia há dois meses. Será que a guerra alterou a percepção das pessoas sobre a Europa? A conferência refletiu essa realidade?"

Guy Verhofstadt: "A maioria dos painéis com os cidadãos realizou-se antes do início da guerra. Mas constatámos que as conclusões da conferência encaixam muito bem nos novos desafios associados à guerra na Ucrânia. Estamos a falar do fim da decisão por unanimidade nos assuntos externos, na defesa. Estamos a falar de união energética, da necessidade de criar uma união energética o mais rapidamente possível, algo que não existe hoje na Europa. Não existe uma forma de comprar energia em comum, o cabaz energético continua a ser decidido a nível nacional".

No início, os partidos de extrema-direita gostaram da conferência. E depois quando viram as propostas dos próprios cidadãos, começaram a dizer: não é o que queremos. Já não gostamos. Não me parece que seja justo em relação aos cidadãos.
Guy Verhofstadt, eurodeputado

euronews: "Que direção deve seguir a Europa de acordo com os cidadãos? Mais Europa ou menos Europa"?

Guy Verhofstadt: "Os cidadãos não discutem o tema dessa forma. O senhor é jornalista. Classifica tudo. Sou um político. Faço a mesma coisa. De direita ou de esquerda. Quer mais Europa ou menos Europa. eurocéptico ou Eurofilia. Os cidadãos reflectem de forma completamente diferentes. Todos os cidadãos têm mais ou menos a mesma opinião. Gostam da Europa. Pensam que a Europa é a solução para muitos dos nossos problemas. Mas não gostam da forma como ela funciona hoje. Eles não pensam que a União Europeia traduza o seu desejo em relação à Europa. É a compreensão comum de todos os cidadãos e dos que se autodenominam eurocépticos e dos que se autodenominam eurófilos. É esta a grande lição. As pessoas gostam da Europa, têm um sonho europeu. Pensam que o futuro deste continente está na União Europeia. Mas são muitas críticos em relação à forma como a europa funciona, ou melhor, à forma como não funciona. “

euronews: "As forças nacionalistas e populistas na Europa criticam esta conferência por ser um instrumento para o federalismo europeu. O que pensa desta crítica? Ouviram-se essas vozes durante a conferência"?

Guy Verhofstadt: "Certamente, porque entre os cidadãos que estiveram presentes, havia pessoas mais críticas e pessoas mais cépticas sobre a Europa. Todos esses pontos de vista estavam presentes. Mas o objetivo era ter no final de uma visão comum, propostas comuns. No início, os partidos de extrema-direita gostaram da conferência. E depois quando viram as propostas dos próprios cidadãos, começaram a dizer: não é o que queremos. Já não gostamos. Não me parece que seja justo em relação aos cidadãos. Os cidadãos falaram e precisamos de os levar a sério e de implementar essas propostas".