Síria e Turquia: Cinco meses após o terramoto que destruiu a vida a milhões de pessoas

Cidade de tendas no noroeste da Síria
Cidade de tendas no noroeste da Síria Direitos de autor AFP
De  Knarik Papoyan
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O que mudou na Síria e na Turquia nos cinco meses que se seguiram ao terramoto devastador? Um representante da UNICEF e um voluntário dos Capacetes Brancos sírios falam sobre a situação atual.

A ajuda será necessária durante muito tempo

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Em fevereiro, terramotos devastadores atingiram o sul da Turquia e o noroeste da Síria, afectando gravemente a vida de milhões de pessoas.

Falámos com Paolo Marchi, representante da UNICEF na Turquia, sobre o que foi feito desde então e sobre as necessidades das áreas afetadas.

"A situação mudou nestes cinco meses. Passámos pelo drama, pelas imagens catastróficas que todos provavelmente viram, até à recuperação. A situação atual, diria eu, é que já estamos na fase de recuperação, ou seja, a reconstrução já começou em alguns centros urbanos".
Paolo Marchi
Representante da UNICEF na Turquia

A vida está a voltar ao normal, mas a UNICEF estima que cerca de quatro milhões de crianças ainda precisam de assistência humanitária e 1,6 milhões estão a viver em tendas ou outros abrigos temporários. As necessidades humanitárias são ainda maiores para as pessoas que vivem fora das cidades.

OZAN KOSE/AFP or licensors
Палаточный городок в Антакье на юго-востоке Турции.OZAN KOSE/AFP or licensors

Mas mesmo nas cidades as pessoas têm grandes necessidades. Na Turquia, estão a ser propostas novas medidas, como a redução dos impostos.

A situação será complexa durante muito tempo: a tragédia afetou cerca de 15 milhões de pessoas na Turquia e mais de 5 milhões na Síria.

Pão, água e escolas

Há ainda muitos desafios pela frente. Um deles é fazer chegar água potável às populações. Num verão por si só já quente isto é, particularmente, importante. De acordo com a UNICEF, 1,6 milhões de pessoas que vivem em acampamentos temporários na Turquia ainda não têm acesso regular à água. A situação na Síria é dificultada pelos combates.

ABDULAZIZ KETAZ/AFP or licensors
Rescaldo de um bombardeamento das forças governamentais sírias em Sarmin, na província de Idlib, controlada pelos rebeldes, a 09 de abril de 2023ABDULAZIZ KETAZ/AFP or licensors

Outro problema é o acesso das crianças ao ensino. O país está em período de férias de verão e o Ministério da Educação está a tentar preparar o novo ano letivo para que as crianças das zonas afetadas possam ir à escola, regularmente.

Entretanto, nos centros de aprendizagem temporários, as crianças estão a recuperar, durante estas férias, o que perderam durante a tragédia. 

Na Síria, nos territórios controlados pelos rebeldes, autocarros transformados em salas de aula móveis funcionam em campos para pessoas deslocadas.

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Um autocarro transformado em sala de aula móvel no campo de Jindairis para pessoas deslocadas na província de Alepo, noroeste da Síria, controlada pelos rebeldes, 23 de maioRAMI AL SAYED/AFP or licensors

Médicos e psicólogos na linha da frente

As pessoas estão traumatizadas tanto pelo que aconteceu como pela sua nova vida quotidiana. Os médicos e os psicólogos são muito requisitados. A UNICEF Turquia está a tentar enviar o maior número possível de especialistas para as áreas afetadas.

Temos parceiros muito bons e pessoas especializadas em traumas causados pelo terramoto. Felizmente, aqui na Turquia existe essa capacidade, que provavelmente não existe noutros países.
Paolo Marchi
Representante da UNICEF na Turquia

A UNICEF está a tentar criar um ambiente protetor para as crianças falarem sobre os seus traumas. Foram criados mais de 50 centros para o efeito, mas são necessários mais. Aqueles que sobreviveram ao terramoto de 1999, quando eram crianças, dizem agora, enquanto adultos, que gostariam de ter tido o apoio psicológico que as crianças recebem, atualmente.

Mas, de qualquer modo, o trauma psicológico perdura para toda a vida.

No noroeste da Síria, as pessoas que viviam em campos antes dos terramotos ainda lá estão, e alguns dos feridos ainda esperam tratamento adequado. Também elas estão traumatizadas com o que aconteceu, mas, ao contrário da Turquia, não podem contar com a ajuda qualificada de psicólogos.

Ismail Abdullah, voluntário dos Capacetes Brancos, uma organização não-governamental que atua nos territórios controlados pelos rebeldes, explicava que este tipo de apoio não existe ali. 

Nos campos nós, os Capacetes Brancos, estamos a fazer alguma coisa. Mas não é suficiente. Precisamos de mais pessoal especializado para os ajudar.
Ismail Abdullah
Voluntário dos Capacetes Brancos

"Primeiro, temos de acabar com a guerra!"

Os voluntários dos Capacetes Brancos passaram à fase seguinte: estão a trabalhar para limpar os escombros; a ajudar as pessoas a sair de áreas onde os edifícios podem ruir a qualquer momento; a montar campos de tendas e a construir estradas para facilitar o acesso aos campos.

Mas dizem que o trabalho de reconstrução é dificultado pelos bombardeamentos incessantes e que as necessidades das pessoas só são satisfeitas em 10-20%.

OMAR HAJ KADOUR/AFP or licensors
Bombardeamento pelas forças russas na zona rural ocidental de Idlib, controlada pelos rebeldes sírios, 08 de setembro de 2022OMAR HAJ KADOUR/AFP or licensors

"Há bombardeamentos e receios de uma nova ofensiva no terreno por parte da Rússia e das forças do regime. Se ao menos pudéssemos levar as pessoas para casa, ajudá-las a abandonar os campos... É essa a necessidade mais urgente", afirmava Ismail acrescentando que, para o conseguirem é preciso_"acabar com a guerra"._

Nome do jornalista • Knarik Papoyan

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