Qual é o objetivo da guerra de drones da Ucrânia contra a Rússia?

ARQUIVO - A defesa aérea ucraniana intercepta um drone Shahed em pleno ar, no terceiro ataque aéreo russo à capital nas últimas 24 horas, em Kiev, Ucrânia, terça-feira, 30 de maio de 2023.
ARQUIVO - A defesa aérea ucraniana intercepta um drone Shahed em pleno ar, no terceiro ataque aéreo russo à capital nas últimas 24 horas, em Kiev, Ucrânia, terça-feira, 30 de maio de 2023. Direitos de autor Evgeniy Maloletka/Copyright 2020 The AP. All rights reserved
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De  Joshua Askew
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Artigo publicado originalmente em inglês

Porque é que Kiev continua a lançar drones para o coração da Rússia quando estes, raramente, atingem alvos estratégicos ou causam danos significativos?

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Em pano de fundo da sua contraofensiva, a Ucrânia está a enviar drone atrás de drone para o interior do território russo visando, em particular, Moscovo. Atualmente, acontece quase todos os dias.

No entanto, salvo algumas exceções, a maior parte dos ataques não tem um objetivo militar claro e não causa, na maioria dos casos, vítimas ou danos, sobretudo porque são, frequentemente, intercetados pelas Defesas Aéreas russas.

Então, qual é o objetivo da guerra de drones de Kiev contra a Rússia?

Um elemento-chave é a guerra psicológica, com a Ucrânia a tentar danificar alvos russos altamente simbólicos, dizia Peter Lee, especialista em drones, na Universidade de Portsmouth:

"A Ucrânia é muito menos poderosa do que a Rússia devido à sua dimensão", explicava. "Quando se enfrenta um inimigo muito maior, em particular, os drones permitem atingir a capital do inimigo. Há séculos que se sabe que isso tem um efeito psicológico".

Em maio, um alegado ataque com drones atingiu, de forma espetacular, o Kremlin, que inicialmente afirmou tratar-se de uma tentativa de assassinato do Presidente russo, Vladimir Putin. 

No entanto, alguns analistas consideram que o incidente foi um trabalho interno destinado a colocar a população russa em "estado de guerra".

"Na Ucrânia, este tipo de ataques aumenta o moral do exército e da população, que estão a sofrer terrivelmente", referia Lee. "É uma pequena indicação de poder ofensivo, mas mostra que são capazes de ripostar".

O mesmo se passa com a Rússia, mas ao contrário: "Há um efeito psicológico em levar a guerra à pátria, à Rússia", adiantava Marina Miron, investigadora de pós-doutoramento no Departamento de Estudos de Guerra do King's College. "Os ucranianos querem mostrar a fraqueza das defesas aéreas russas e que o regime é incapaz de proteger os seus cidadãos, no coração da Rússia".

A autora apontava a série de ataques de julho a um edifício na cidade de Moscovo - um "símbolo económico" - enquanto Putin se encontrava com líderes africanos em São Petersburgo.

A alimentar a insegurança, na Rússia, tem estado a especulação - agora confirmada por funcionários ucranianos - de que os drones são lançados a partir de território russo.

Embora alguns sejam difíceis de intercetar, Lee salientava os "limites técnicos" dos drones mais pequenos, que podem ter um alcance de apenas 65 km, mas ressalvava o facto de terem sido atingidos alvos no interior da Rússia:

"Isso significa que ou há russos, na Rússia, que simpatizam com a causa ucraniana ou Kiev está a enviar equipas para a Rússia. Seja como for, o Kremlin não vai publicitar muito este facto", acrescentava este perito.

"Olho por olho"

No entanto, há o risco de que a estratégia de Kiev possa "sair-lhe pela culatra". 

Desde a invasão do país, em fevereiro de 2022, a Rússia tem sido, repetidamente, acusada de "bombardear com terror" civis ucranianos, numa tentativa de quebrar a sua resiliência.

Embora possa compreender o desejo emocional de retaliar, Miron teme que os ataques com drones de Kiev possam prejudicar a sua reputação se forem mortos civis russos:

"Percebo porque é que os ucranianos querem que a Rússia sinta o que é acordar de manhã com as sirenes das Defesas Aéreas a soar, esconderem-se nas caves, esperar e torcer para que uma bateria de mísseis não os mate... Mas arriscam-se a perder terreno moral".

Kiev tem utilizado drones "para inculcar o medo", acrescentava a referida investigadora, deixando um alerta: "Em termos estritos e conceptuais, pode ser classificado como terrorismo".

Putin há muito que denuncia a Ucrânia como um "Estado malévolo", tendo classificado, em maio, os ataques com drones como um "sinal claro de atividade terrorista".

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"Estes ataques são muito benéficos para a Rússia justificar o que está a fazer na Ucrânia", explicava Miron, sugerindo que podem aumentar o apoio popular à guerra e aproximar as pessoas e o Kremlin. "Na verdade, são contraproducentes", concluia.

"Os drones não são uma arma para ganhar a guerra"

Outro objetivo do ataque com drones, por Kiev, é degradar a capacidade militar da Rússia:

"A Ucrânia não tem o mesmo poder aéreo que a Rússia. O que eles estão a tentar alcançar, com a guerra dos drones, é uma espécie de paridade", frisava Miron, salientando que os drones são muito mais económicos do que os mísseis.

Em agosto, quatro aviões militares foram destruídos num "dos maiores" ataques de drones ucranianos contra a Rússia, desde o início dos combates. 

No ano passado, um ataque aéreo de Kiev destruiu 10 aviões de guerra na Crimeia - que a Ucrânia atribuiu, inicialmente, a um cigarro largado por um soldado russo.

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Apesar do impacto mediático que provocam, Miron advertia para a necessidade de não se exagerar a eficácia militar dos ataques de Kiev:

"Não sabemos quantos falharam. Só ouvimos falar dos sucessos. De uma perspetiva puramente militar, não vão fazer grande diferença", rematava.

"No entanto, a Ucrânia ganha pontos positivos ao mostrar que vale a pena investir nela. Os ucranianos precisam de demonstrar que são dignos do investimento ocidental".

Não se sabe quantos drones ucranianos atingiram a Rússia, estando a informação guardada a "sete chaves" por ambas as partes. A BBC Verify descobriu, recentemente, que houve mais de 190 ataques suspeitos, só este ano, na Rússia e na península anexada da Crimeia.

LIBKOS
FILE - A Ukrainian soldier of the 28th brigade launches a drone at the frontline close to Bakhmut, Ukraine, Sunday, Aug. 20, 2023.LIBKOS

Há quem sugira que a guerra de drones de Kiev se destina a desviar a atenção de uma contraofensiva, supostamente, vacilante. Peter Lee refuta esta ideia afirmando que os drones desempenham um papel na luta, atribulada, que a Ucrânia enfrenta:

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"Ninguém, com bom senso, esperaria um resultado rápido. A guerra não é um filme de Hollywood. É feia, difícil, dispendiosa e brutal", frisava à Euronews.

"Mesmo que a ofensiva esteja a correr muito bem, os ataques com drones vão continuar a acontecer. As duas coisas não se excluem, mutuamente".

Rússia teve tempo para se preparar

A Rússia teve muitos meses para se preparar para um ataque da Ucrânia, cavando trincheiras e extensos campos minados. O que custa, inevitavelmente, tempo - e vidas - a Kiev.

Esticar os recursos de Moscovo é um objetivo militar secundário da campanha de drones, sugere Lee. Confrontados com os ataques de Kiev, os dirigentes russos têm de decidir se devem utilizar defesas finitas para defender Moscovo ou soldados no terreno: "Tudo o que possa reduzir ou perturbar os recursos que vão para a linha da frente, quer se trate de pessoas ou de armas, é valioso", referia.

A extenuante campanha de guerrilha dos rebeldes islâmicos contra a URSS no Afeganistão, durante os anos 80, colocou uma enorme pressão financeira sobre Moscovo, acabando por forçar à retirada das suas forças e contribuindo para o fim da União Soviética.

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Mas, mais uma vez, há riscos: "Os países europeus e os EUA não querem que este conflito se agrave. Se Kiev continuar a atacar alvos russos, de forma cada vez mais agressiva, então a Ucrânia pode dar por si a perder apoiantes no Ocidente", acrescentava Lee. "Trata-se de linhas ténues e avaliações delicadas."

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