A Bielorrússia aderiu à iniciativa de Donald Trump para a resolução de conflitos, apesar das preocupações suscitadas pela repressão contínua do presidente Lukashenko contra a dissidência e pelo apoio à Rússia na guerra contra a Ucrânia.
A Bielorrússia tornou-se o mais recente país a aderir à iniciativa "Conselho da Paz" do presidente dos EUA, Donald Trump, apesar das preocupações sobre a repressão de anos do presidente Aleksandr Lukashenko contra vozes dissidentes e o apoio contínuo a Moscovo na guerra contra a Ucrânia, colocando o país da Europa Oriental sob severas sanções de Bruxelas.
Em comunicado, o Conselho para a Paz disse que "dá as boas-vindas à Bielorrússia como membro fundador da crescente organização internacional". Não é claro se Minsk pagou a taxa de mil milhões de dólares para garantir a adesão permanente da Bielorrússia.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Bielorrússia afirmou, num comunicado na semana passada, que Minsk estava "preparada para desempenhar um papel ativo na definição de uma nova arquitetura de segurança global e regional, baseada nos princípios do respeito mútuo e da consideração incondicional dos interesses nacionais dos Estados-membros".
O governo de Lukashenko tem estado sob sanções significativas da UE impostas após as disputadas eleições presidenciais de 2020 e a violenta repressão contra manifestantes e outras vozes opositoras, com medidas adicionais depois do país ter permitido que a Rússia usasse o seu território para lançar a invasão em grande escala da Ucrânia no início de 2022.
Embora Washington tenha aliviado as sanções contra Minsk em troca da libertação de prisioneiros políticos bielorrussos, persistem as preocupações com o controlo firme de Lukashenko sobre o país desde 1994 e o seu papel na guerra da Rússia.
Lukashenko continua a ser o principal aliado de Moscovo e do presidente Vladimir Putin, tendo a Rússia enviado, no mês passado, o seu míssil hipersónico Oreshnik, com capacidade nuclear, para a vizinha Bielorrússia.
Embora o Kremlin não tenha especificado quantos mísseis foram enviados nem se estavam equipados com ogivas nucleares, Lukashenko disse que até 10 sistemas Oreshnik serão estacionados no país.
No ano passado, Lukashenko declarou: "Estou-me nas tintas para o Ocidente", depois de Bruxelas ter ponderado um novo conjunto de sanções, na sequência da sua sétima eleição consecutiva desde 1994.
A votação foi amplamente entendida como tendo sido manipulada a seu favor, dado o seu domínio sobre o país e o controlo total das suas instituições, e mais uma repetição das eleições de 2020 que provocaram tumultos.
Embora ao longo dos anos tenha havido receios de que a Bielorrússia pudesse também juntar-se à guerra na Ucrânia do lado da Rússia, Lukashenko tem-se apresentado como um pacificador e a Bielorrússia como um possível local de conversações entre Moscovo e Kiev, afirmando no ano passado que "algum tipo de resolução" se manifestaria a dada altura.
"Provavelmente continuaremos em conflito durante muito tempo. Somos eslavos, se começarmos a entrar em conflito, vai durar muito tempo. Mas haverá uma resolução. A luz ao fundo do túnel vai aparecer este ano", afirmou.
Desde então, as conversações de paz lideradas pelos EUA têm progredido a passo de caracol, sobretudo devido às exigências maximalistas de Moscovo, incluindo a tomada de controlo total das regiões que ocupou parcialmente no leste da Ucrânia.
O que aconteceu em Davos?
A Bielorrússia está entre os mais de 20 países que concordaram em aderir ao Conselho de Paz do Presidente dos EUA, Donald Trump, uma iniciativa que se expandiu para além do seu mandato original de supervisionar o cessar-fogo em Gaza, para aquilo que Trump descreve como uma mediação de conflitos mais alargada.
Trump assinou a carta que lança formalmente o conselho no Fórum Económico Mundial em Davos, na quinta-feira passada, ladeado pelos líderes dos membros fundadores, incluindo o argentino Javier Milei e o húngaro Viktor Orbán. "Vamos ter paz no mundo", anunciou Trump.
O conselho, que tem Trump como presidente permanente mesmo depois de deixar o cargo, foi inicialmente concebido como um pequeno grupo que monitorizava as tréguas em Gaza, mas agora inclui convites alargados a dezenas de nações.
Trump disse na semana passada que espera a adesão de mais de 50 países, no que parece desafiar o papel tradicional do Conselho de Segurança das Nações Unidas na resolução de conflitos internacionais.
Os países que pretendem ser membros permanentes têm de pagar uma taxa de contribuição de mil milhões de dólares. Os membros não contribuintes terão um mandato de três anos, de acordo com uma cópia da carta obtida pelos meios de comunicação social.
Trump defendeu anteriormente o convite a Lukashenko e a Vladimir Putin, da Rússia, dizendo que queria "toda a gente" que fosse poderosa e pudesse "fazer o trabalho". Putin afirmou que estava a consultar "parceiros estratégicos" sobre o envolvimento de Moscovo.
Várias nações europeias, incluindo França, Alemanha, Noruega e Suécia, recusaram convites, enquanto a China, a Rússia e a Índia não se comprometeram. Trump revogou o convite do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, logo após o discurso de Carney em Davos, onde este alertou para uma "rutura" na ordem mundial.
Os críticos do plano foram rápidos a criticá-lo logo após a cerimónia de assinatura em Davos, que reuniu líderes de países tão diversos como o Kosovo e a Indonésia, com os aliados ocidentais de Washington notoriamente ausentes.
"Penso que estavam a tentar replicar o que aconteceu quando as Nações Unidas surgiram", disse a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnes Callamard. "Mas, francamente, foi uma tentativa muito pobre e triste de repetir o que aconteceu na década de 1940".
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, descreveu o Conselho da Paz como "um grupo de líderes que se dedica à ação", afirmando que o seu trabalho "em primeiro lugar e acima de tudo" é garantir que o acordo de paz em Gaza se torne duradouro, antes de procurar outras soluções. O secretário de Estado norte-americano reconheceu ainda que os pormenores das operações não são claros e considerou que se trata de um trabalho em curso.