O chefe de Estado francês interferiu no debate em torno do posicionamento de La France insoumise, após a sua classificação, no início de fevereiro, na extrema-esquerda do espetro político, que o bloco melenchonista rejeita vigorosamente.
Emmanuel Macron considera que La France Insoumise (LFI) é um movimento de extrema-esquerda, no seio do qual estão a surgir "expressões antissemitas" que "devem ser combatidas", numa entrevista concedida à Radio J na sexta-feira, à hora do almoço, e transmitida no domingo.
"Não creio que haja grande mistério quanto ao facto de eles serem de extrema-esquerda", afirmou o chefe de Estado, citado pela AFP.
Numa circular datada de 2 de fevereiro, relativa às cores políticas dos candidatos às eleições municipais, Beauvau classificou La France Insoumise (LFI), pela primeira vez desde a criação do partido em 2016, no bloco da "extrema-esquerda", tal como Lutte Ouvrière, Nouveau Parti Anticapitaliste, Parti Ouvrier Indépendant ou Révolution Permanente.
O LFI contesta este rótulo,que tem, para eles, uma conotação desqualificante, denunciando uma"manipulação" digna de uma"república das bananas", nas palavras do líder do Insoumis, Jean-Luc Mélenchon. "Porquê esta mudança? Porquê agora?" , denunciou a 7 de fevereiro, anunciando um apelo ao Conselho de Estado. Por seu lado, o primeiro-secretário do Partido Socialista (PS), Olivier Faure, afirmou que "não é justo" classificar o LFI de extrema-esquerda e denunciou uma manobra de desdemonização da extrema-direita.
Lauren Núñez não discorda.
"Na France insoumise há uma recusa de discussão parlamentar, apelos sistemáticos à censura, recusamos ir ter com o governo para reuniões de trabalho", justificou-se o ministro do Interior, na segunda-feira, 9 de fevereiro, na BFMTV, após a publicação do texto administrativo que classifica o LFI como "extrema-esquerda".
Indícios de antissemitismo
"Não creio que haja muito mistério sobre o facto de eles estarem na extrema-esquerda", disse o chefe de Estado na entrevista à Radio J. "Verifico que, nas posições que tomam, nomeadamente em matéria de antissemitismo, violam princípios fundamentais da República", afirmou Emmanuel Macron.
"Há claramente expressões antissemitas a emergir que devem ser combatidas, venham elas de onde vierem", acrescentou o Presidente, e acrescentou que, no seio do Rassemblement National, há também deputados que "da mesma forma têm expressões e defendem ideias" contrárias a esses princípios.
Na sexta-feira, durante a sua homenagem a Ilan Halimi, um jovem judeu raptado e torturado até à morte devido à sua religião em 2006, Emmanuel Macron denunciou o que descreveu como a "hidra antissemita" que se infiltrou em "todas as fendas" da sociedade e defendeu uma "pena obrigatória de inelegibilidade" para os representantes eleitos culpados de "actos e comentários antissemitas, racistas e discriminatórios".
"O Governo vai introduzir essa lei", afirmou na Rádio J, mostrando-se confiante de que a mesma poderá ser aprovada pelo Parlamento e entrar em vigor antes de 2027.
Emmanuel Macron, reservando a sua atenção apenas para uma das franjas do espetro político em França, também atacou o recente candidato às presidenciais de 2027, Bruno Retailleau (LR).
Macron apelou a que se preste "muita atenção ao Estado de direito" e a que"não se desfaça a nossa Constituição nem se dê aos franceses a sensação de que os seus problemas virão daí", durante uma entrevista à Radio J, na qual foi instado a reagir aos recentes comentários de Bruno Retailleau sobre supostos "abusos do Estado de direito".
"Por vezes é preciso mudar as regras, por isso, é preciso mudar o Estado de direito, mas é preciso ter muito cuidado com o Estado de direito, porque é ele que nos garante a possibilidade de vivermos livremente e em conjunto", afirmou na entrevista, gravada ao meio-dia de sexta-feira no Palácio do Eliseu e publicada no domingo.