O relatório nacional da última edição do Global Media Monitoring Project (GMMP) concluiu que, "num dia rotineiro de notícias" as mulheres estão sub-representadas. "As mulheres representam apenas 24% das pessoas visíveis no noticiário" em Portugal.
Há trinta anos, na Quarta Conferência Mundial sobre Mulheres, realizada em Pequim, os governos reconheceram que os órgãos de comunicação social não são "apenas um espelho da sociedade, mas um poderoso motor de mudança" e, por isso, exigiu-se a participação igualitária das mulheres nos media, bem como o fim dos estereótipos de género.
Passadas três décadas, o relatório do Global Media Monitoring Project (GMMP) 2025 (fonte em inglês) constata que as mulheres ainda são apenas uma em cada quatro pessoas vistas, ouvidas ou lidas nos media tradicionais, o que revela "um recuo significativo" face ao relatório de 2020.
A realidade portuguesa segue a mesma tendência e a igualdade de género nos media portugueses não só se mantém "um objetivo distante", como revela "sinais de regressão".
Rita Basílio Simões, professora da Universidade de Coimbra e coordenadora nacional do GMMP, em entrevista à agência Lusa, realçou as "mudanças para pior no digital".
"Agora vemos o digital, que foi sempre sendo entendido com esperança, (...) como uma forma de poder ajudar a superar uma série de desigualdades e, na verdade, fica bem saliente nesta edição que não é assim", afirma em declarações à Lusa.
O relatório, apresentado de cinco em cinco anos, revela também que a par da menor presença nas notícias, as mulheres são no mínimo três vezes menos ouvidas enquanto fontes de informação, mostrando assim uma tendência de subrepresentação como "vozes de autoridade".
**"**A proporção de fontes femininas varia significativamente consoante o meio, oscilando entre 18% na rádio, 21% na imprensa, 24% nos sites de notícias e 30% na televisão", lê-se no relatório.
As mulheres têm maior visibilidade em "temas marcadamente periféricos", enfatiza Rita Basílio Simões, "como celebridades, artes e media, ou explicitamente marcados pelo género, como violência de género".
O relatório nacional destaca também uma diminuição da presença de mulheres no noticiário político e económico, "naturalizando a ideia de que as hard news se constroem predominantemente a partir da presença e da voz masculinas", constata a professora universitária.
A coordenadora nacional do GMMP afirmou que há muito que a investigação académica constata que não basta haver mais mulheres na produção de notícias para haver uma mudança de paradigma no que diz respeito à igualdade de género.
Ainda que com quase 42% de jornalistas mulheres, "a verdade é que não há uma mudança estrutural no tipo de conteúdos que são produzidos, portanto, continuamos a verificar os mesmos desequilíbrios na eleição de fontes, na presença de mulheres e no próprio tratamento que é dado à realidade social", constata.
Assim há uma "a necessidade de transformações estruturais nas práticas jornalísticas e nas condições de produção da informação", conclui o relatório.
"Não podemos responsabilizar só as redações, onde os jornalistas são meros peões, sem capacidade de decisão", observa em declarações à Lusa. " Os órgãos de comunicação social não estão maioritariamente despertos para reconhecer a importância de promover redações mais plurais", critica.
Para Rita Basílio Simões a resposta está numa "intervenção multissistémica", com diversos atores do setor como jornalistas, diretores editoriais, órgãos de decisão instituições que formam profissionais ou reguladores a trabalhar "num ambiente de responsabilidade partilhada".
Os resultados do relatório vão ser debatidos na quarta-feira, dia 25 de fevereiro, na Universidade Nova de Lisboa numa conferência entitulada “Género e Media: evidências e tendências, 30 anos depois”.
A Global Media Monitoring Project fez a sua última monitorização a 6 de maio de 2025, recolhendo 30.049 notícias em 94 países. Em Portugal, foram analisados 319 notícias e pela primeira vez uma agência de notícias, a Lusa, entrou na amostra de estudo.