A Ucrânia assinou acordos de parceria no domínio da defesa, com duração de 10 anos, com três países do Golfo, durante a visita de Zelenskyy à região no fim de semana. O que é que os países do Golfo ganham com isto e o que é que a Ucrânia receberá em troca?
A Ucrânia concordou em fornecer aos Estados do Golfo o seu sistema completo de defesa aérea - incluindo drones marítimos, guerra eletrónica e tecnologia de interceção - para combater os drones iranianos, afirmou o presidente Volodymyr Zelenskyy na segunda-feira, ao regressar da sua visita à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos, ao Qatar e à Jordânia.
"Não se trata apenas de interceptores, mas também de linhas de defesa, software, sistemas de guerra eletrónica, etc. Por outras palavras, estamos a adotar uma abordagem sistémica", disse Zelenskyy.
Numa conversa de WhatsApp com jornalistas, Zelenskyy também confirmou que os drones marítimos da Ucrânia fazem parte dos acordos celebrados com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar.
A frota de drones navais de Kiev tem-se expandido nos últimos anos, e os drones marítimos ucranianos têm-se revelado eficazes a infligir pesadas perdas a instalações militares e navios russos no Mar Negro, como os drones Magura-V5, que têm sido utilizados para atacar a frota russa.
Zelenskyy referiu ainda que a Ucrânia está disposta a partilhar a sua experiência no desbloqueio de rotas comerciais marítimas com os drones navais.
"Partilhámos a nossa experiência com o corredor do Mar Negro e a forma como este funciona. Eles compreendem que as nossas Forças Armadas têm sido altamente eficazes no desbloqueio do corredor do Mar Negro. Estamos a partilhar estes detalhes."
Em entrevista à Euronews na passada sexta-feira, o enviado especial da UE para a região do Golfo, Luigi Di Maio, afirmou que a União Europeia apela à adoção do modelo de exportação de cereais do Mar Negro acordado entre a Rússia e a Ucrânia como método diplomático para desbloquear o Estreito de Ormuz.
Assinada inicialmente no verão de 2022, a Iniciativa de Cereais do Mar Negro é um acordo entre a Rússia, a Ucrânia, a Turquia e a ONU que permitiu a exportação segura de cereais dos portos ucranianos para os mercados mundiais, reduzindo os preços globais dos alimentos.
O acordo criou um corredor marítimo humanitário, mas a iniciativa foi revogada um ano depois, após a Rússia ter retirado a sua participação e afirmado que consideraria qualquer navio com destino à Ucrânia como um potencial alvo militar. No entanto, a Ucrânia estabeleceu, desde então, novas rotas de exportação.
Zelenskyy afirmou que esta questão foi levantada durante a sua visita ao Golfo, mas que está a ser "tratada pelos Estados Unidos".
"Estamos, evidentemente, sempre prontos a ajudar os nossos parceiros."
O que é que a Ucrânia ganha em troca?
Para a Ucrânia, os acordos com os países do Golfo representam uma oportunidade para abrir as suas exportações de armamento à escala global.
Zelenskyy anunciou em setembro que Kiev estava pronta para dar este passo tão aguardado, que transformaria a indústria de defesa do país e permitiria aos parceiros de Kiev aceder ao tipo de armamento mais raro – aquele que foi testado no campo de batalha.
E é por isso que é importante que os acordos tenham sido assinados por 10 anos, disse Zelenskyy.
"Trata-se de exportações e de abrir as exportações. Mas é o tipo certo de abertura, em que compreendemos que não estamos a vender a nossa experiência por nada."
A principal prioridade de Kiev é a defesa aérea da Ucrânia contra os mísseis balísticos russos. Zelenskyy afirmou que o seu país está a sentir a escassez de mísseis PAC-3 para os sistemas de defesa aérea Patriot.
Com apenas cerca de 60 unidades produzidas por mês, muitas são fornecidas ao Médio Oriente.
"Todos os pacotes antibalísticos – podemos ver como os parceiros estão a direcionar o maior número possível deles para onde a situação é mais intensa atualmente, principalmente o Médio Oriente."
Confirmou ainda que a questão tinha sido levantada durante a sua visita ao Golfo, mas recusou-se a fornecer mais pormenores.
"É claro que esta questão foi levantada nos países do Médio Oriente. Não vou entrar em pormenores. Continuaremos a trabalhar para garantir que a Ucrânia seja abastecida nesta área."
Entretanto, a Ucrânia continuará a "fazer tudo para garantir que temos os nossos próprios sistemas antibalísticos", afirmou o presidente ucraniano.