Se as sondagens se confirmarem, Iván Cepeda, sucessor do presidente Petro, poderá impor-se na primeira volta aos restantes candidatos conservadores, mas arrisca-se a perder a segunda se o voto desse setor ideológico se concentrar no candidato de extrema-direita.
A quatro dias da primeira volta das presidenciais na Colômbia, os cenários continuam em aberto para os principais candidatos na corrida.
Várias sondagens publicadas durante a semana passada por empresas de estudos de opinião como o CNC, a Atlas Intel ou a Guarumo & Ecoanalítica coincidem em colocar Iván Cepeda, o senador que quer suceder a Gustavo Petro à frente do Pacto Histórico de esquerda, na primeira posição.
Cepeda consegue uma margem variável de vantagem sobre o candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella.
Enquanto a "Cambio" (33,4% contra 30,9%) e a "Semana" (38,7% contra 37,3%) os colocam separados por apenas um a três pontos percentuais, outros meios como a "Caracol" (44,6% contra 31,6%) ou "El Tiempo" (37,1% contra 27,5%) alargam esta diferença nas sondagens até aos 10 pontos.
Estes, porém, são apenas os resultados previstos para este domingo: o quadro pode mudar para a esquerda na segunda volta, se as sondagens confirmarem o cenário atual, devido aos votos órfãos da conservadora Paloma Valencia, do Centro Democrático, e do centrista Sergio Fajardo (Dignidad y Compromiso).
A candidata que surge em terceiro lugar ultrapassa folgadamente os 10% dos votos em todas as sondagens: uma percentagem suficiente, caso fosse canalizada para a candidatura mais próxima em termos ideológicos, ou seja, para os Defensores de la Patria, de De la Espriella.
Tal poderia dar lugar a um cenário semelhante ao das recentes eleições no Chile, em que a comunista Jeannette Jara conseguiu uma vitória insuficiente na primeira volta: a soma dos votos de várias candidaturas conservadoras acabou por se concentrar na figura de José Antonio Kast, o ultradireitista que hoje governa o Palácio de La Moneda, em Santiago, vencendo assim a disputa na segunda volta eleitoral.
O Chile enfrentou igualmente um cenário político semelhante ao que a Colômbia atravessa hoje: ambos os países saem de uma legislatura política liderada por plataformas de esquerda (encabeçadas, respetivamente, por Petro e Gabriel Boric) que chegaram ao poder pela primeira vez em duas das sociedades mais conservadoras da América do Sul.
Ambos viveram mandatos turbulentos: no caso da Colômbia, com o assassínio de Miguel Uribe Turbay, senador e neto de um ex-presidente autoritário cuja morte a direita atribui à retórica pública do presidente Petro.
O mandato de Petro ficou ainda marcado por novos capítulos da longa saga judicial de Álvaro Uribe, figura central da direita colombiana e chefe de Estado entre 2002 e 2010, que em 2012 apresentou uma queixa contra Iván Cepeda por alegada manipulação de testemunhas.
O Tribunal não só decidiu não investigar Cepeda, como abriu um processo contra Uribe, ao encontrar indícios de que, na realidade, teria sido o conservador a manipular várias testemunhas para esconder eventuais ligações a grupos paramilitares ligados à guerrilha colombiana.
Acabou por ser absolvido (embora o percurso judicial continue) e Cepeda decidiu candidatar-se às eleições para suceder a Petro à frente do Pacto Histórico. Mas de onde vêm e quais são os percursos do principal candidato e dos seus rivais?
Iván Cepeda: o órfão do militante assassinado que agitou as sondagens
O candidato de esquerda (Bogotá, 1962) partilha também semelhanças com outra das dirigentes "de facto" da América do Sul com quem faz fronteira, Delcy Rodríguez.
Como recordámos neste perfil na "Euronews", o pai da dirigente venezuelana e do seu irmão Jorge foi torturado e assassinado por forças parapoliciais em 1976, um acontecimento que marcou a sua carreira política desde a infância até à chegada ao poder em Miraflores e à presidência da Assembleia Nacional.
Também Cepeda viveu o assassínio do pai – o militante comunista Manuel Cepeda Varga – às mãos de agentes do Estado e de forças paramilitares em 1994, quando o filósofo de formação tinha 32 anos. Durante a infância conheceu igualmente o exílio: a família mudou-se para Praga, na então Checoslováquia, e, mais tarde, para Cuba, entre 1967 e 1970. A mãe, que morreu de cancro em 1981, também foi uma política comunista ativa.
Como relata León Valencia na sua biografia ("Iván Cepeda, una vida contra el olvido"), a defesa das vítimas é a sua principal motivação política. É assim que o descreve "El País" numa entrevista ao escritor, que recorda as palavras escolhidas por Cepeda no lançamento da candidatura: "sou defensor dos direitos humanos, sobrevivente de um genocídio político, filho de um senador da União Patriótica assassinado pelo seu compromisso com os direitos das pessoas".
Esta causa, a par do eterno litígio judicial com Álvaro Uribe, marca a sua carreira política desde que criou o Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado (MOVICE), em 2003 (após anos de ativismo), e se apresentou, seis anos depois, sob as siglas do Polo Democrático Alternativo, às eleições para o Congresso em 2009.
Cepeda propõe negociar com grupos paramilitares e atores sociais – uma das preocupações históricas dos colombianos – e estrangular as suas estruturas financeiras, em vez de aumentar em excesso a pressão militar. Tenciona ainda reforçar a progressividade fiscal; reverter a privatização do sistema de saúde; blindar por lei a justiça ambiental; criar um sistema nacional de combate à corrupção; consolidar a reforma agrária de Petro e, claro, reconhecer o genocídio político cometido contra a União Patriótica, o partido do pai.
Abelardo de la Espriella: a sucursal colombiana da internacional de extrema-direita
"Abelardo é um homem do Renascimento que nasceu no século XX e escolheu o Caribe colombiano para vir a este mundo."
Assim se autodefine este advogado penalista, confesso admirador de aliados ideológicos como Nayib Bukele ou Donald Trump, no início da sua própria página na internet, onde se apresenta também como "um apaixonado pela moda (...) sem medo do sucesso."
Com três nacionalidades (é ítalo-colombiano e norte-americano), De la Espriella nasceu em Bogotá em 1978 e passou a infância e adolescência em Montería, capital do departamento de Córdoba, a poucos quilómetros da costa sul do Caribe, antes de se licenciar em Direito.
A candidatura segue um padrão já conhecido da extrema-direita populista: autoposicionar-se como "outsider" do sistema, centrar a mensagem de campanha na insegurança e em soluções fáceis e rápidas.
Numa entrevista à CNN, o líder dos Defensores de la Patria garantiu que consegue reformar o sistema público de saúde colombiano em apenas 90 dias. "Os políticos prometem; os empresários comprometemo-nos", rematou ao jornalista Fernando Ramos.
De la Espriella promete ainda mão pesada contra o narcotráfico, elogiando as recentes operações dos Estados Unidos. No último ano, a Administração Trump realizou numerosos bombardeamentos extrajudiciais contra embarcações em águas internacionais do Caribe e do Pacífico, provocando centenas de mortos sem que tenha sido esclarecido se as vítimas eram civis ou traficantes: "Mão de ferro e acabar com eles como as alimárias que são: fumigando os cultivos ilícitos e bombardeando os acampamentos", declarou o candidato.
Prevê ainda a construção de 10 mega-prisões de segurança máxima, à imagem das de Bukele em El Salvador, onde se acumulam denúncias de violações dos direitos humanos dos detidos e, segundo a Human Rights Watch, detenções arbitrárias de críticos do presidente. Uma vez dentro, os reclusos não têm acesso a advogados e vivem em condições desumanas.
De la Espriella quer ainda que a Colômbia cresça a 7% ao ano (nenhum país latino-americano atinge hoje esta taxa e o país sul-caribenho regista cerca de 2,5%); liberalizar o "fracking" de petróleo e gás; que o Estado adote tecnologia "blockchain" na sua gestão; aumentar a superfície agrícola e pôr fim ao plano de Petro (paz total) para desmantelar redes paramilitares como as FARC.
Paloma Valencia, a escolhida para relançar o histórico Centro Democrático
A terceira candidata em disputa nasceu em Popayán, a Cidade Branca, no seio de uma dinastia de políticos conservadores e profissionais liberais: é neta do ex-presidente Guillermo León Valencia e bisneta do poeta e político Guillermo Valencia, figuras centrais do conservadorismo colombiano e que não esgotam os seus vínculos ao poder.
Do lado materno, o avô, Mario Laserna Pinzón, foi fundador da Universidade dos Andes, uma instituição privada cuja propina é, segundo a Bloomberg, das mais caras da América Latina e onde Valencia estudou Direito (como De la Espriella) e Filosofia (como Cepeda), embora antes de entrar na política tenha trabalhado como jornalista de opinião e comentadora.
Valencia foi eleita senadora pelo Centro Democrático, o movimento político fundado pelo ex-presidente Uribe, em 2014. Na corrida à presidência, identifica claramente o principal adversário político. "Abraça-se a bandidos", disse sobre Abelardo de la Espriella, que a ultrapassa com folga nas sondagens e a quem acusa de enlamear a campanha com vídeos falsos gerados por inteligência artificial.
"É uma campanha destrutiva, mentirosa, manipuladora, que ataca, que destrói, que se mete até com as crianças", denunciou Valencia à Rádio Caracol. "Há aqui duas opções e o país tem de o entender: os caminhos dos circos, que só podem levar ao engano."
A dirigente de direita propõe aumentar a despesa em Defesa até 4% do PIB, reforçando o número de militares em mais 60 mil efetivos.
Tal como o candidato à sua direita, promete consolidar um crescimento anual do PIB de até cinco pontos percentuais, uma meta mais modesta do que a de De la Espriella, mas ainda assim distante dos números atuais da Colômbia.
Tal como os restantes candidatos, Valencia anuncia um plano de choque para resolver os problemas do sistema público de saúde na Colômbia (num modelo misto ou público-privado), outra das principais preocupações dos eleitores.
Acompanha igualmente a agenda espriellista do "blockchain" e do "fracking" e defende o reforço da segurança dos camponeses para que não sejam coagidos pelas guerrilhas paramilitares.
Em política externa, advoga uma postura pragmática com a China, um dos grandes investidores internacionais na região andina.