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Peru vai a votos para eleger o quarto presidente em dez anos

Eleições no Peru, 11 de abril de 2026
Eleições no Peru, 11 de abril de 2026 Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
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De Jesús Maturana & Ricardo Figueira
Publicado a Últimas notícias
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Mais de 27 milhões de peruanos votam este domingo numa eleição sem precedentes: 35 candidatos, nenhum perto dos 50% e a quase certeza de uma segunda volta em junho. A votação ocorre após uma década em que quatro ex-presidentes foram parar atrás das grades.

O Peru está há dez anos num ciclo que já quase ninguém no país se atreve a chamar uma "democracia normal". Desde 2016, quatro presidentes passaram algum tempo na cadeia ou em prisão domiciliária. Alejandro Toledo está a cumprir pena por conluio e branqueamento de capitais. Ollanta Humala foi condenado por receber financiamento ilícito de Hugo Chávez.

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Pedro Pablo Kuczynski foi detido pelas suas ligações à empresa de construção Odebrecht. E Pedro Castillo, o último a chegar ao poder, foi condenado a onze anos de prisão depois de ter tentado dissolver o Congresso em dezembro de 2022.

O resultado de tudo isto é previsível: oito em cada dez peruanos acreditam que a maioria dos políticos é corrupta, de acordo com o AmericasBarometer. E, no entanto, este domingo vão às urnas, legalmente obrigados a fazê-lo.

Quem não for votar terá de pagar uma multa, embora nalgumas zonas rurais o custo da deslocação seja muito superior à penalização, o que explica que o absentismo se situe entre os 20% e os 30%, apesar do carácter obrigatório do voto.

35 candidatos e ninguém com mais de 15% nas sondagens

A conservadora Keiko Fujimori lidera as sondagens com cerca de 15%, seguida do antigo presidente da Câmara de Lima Rafael López Aliaga e de outros candidatos como o humorista Carlos Álvarez, numa corrida muito fragmentada em que nenhum candidato se aproxima dos 50% necessários para vencer na primeira volta.

O elevado número de boletins de voto não é uma curiosidade estatística: tem consequências reais. Provoca uma indecisão generalizada, sondagens que variam de semana para semana e um eleitorado que vai às urnas sem grande convicção. Neste contexto, os analistas falam de "as duas maiores minorias" na segunda volta prevista para 7 de junho.

A chave para compreender o mapa eleitoral peruano são duas correntes com um peso semelhante, cada uma com cerca de 15% do eleitorado. O fujimorismo, herdeiro do antigo presidente Alberto Fujimori (1938-2024) e associado ao conservadorismo social e ao mercado livre. Presidente de 1990 a 2000, Fujimori foi condenado por corrupção e por comandar esquadrões da morte responsáveis pelo sequestro e assassínio de guerrilheiros, após um curto exílio no Japão.

Keiko, filha de Alberto Fujimori, foi uma espécie de "primeira dama" durante os últimos anos de mandato do pai, após o divórcio e as acusações lançadas contra o marido pela mãe, Susana Higuchi. Foi candidata presidencial por três vezes (2011, 2016 e 2021) sem nunca ter conseguido ser eleita.

A outra corrente é o o castillismo, nascido em torno de Pedro Castillo, presidente de 2021 a 2022, que representa o socialismo rural da região sul dos Andes. A diferença é que o voto fujimorista está concentrado em Keiko Fujimori, enquanto o voto de esquerda está fragmentado entre vários candidatos progressistas, o que reduz as hipóteses de qualquer um deles passar à segunda volta.

A convergência das principais sondagens aponta para a liderança de Keiko Fujimori na corrida para a segunda volta, com um apoio que varia entre 15 e 18% dos votos válidos, consoante a sondagem consultada. O segundo lugar está a ser disputado principalmente entre Carlos Álvarez, representante do centro-direita, e Rafael López Aliaga, do campo ultra-conservador, ambos com margens de diferença não superiores a três pontos percentuais.

Viragem à direita e a crise na esquerda

A percentagem de peruanos ideologicamente de direita aumentou de 29% em 2021 para 41% em 2026, de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos. Este não é um facto menor. O aumento da insegurança, mais homicídios, mais extorsões, mais crime organizado, empurrou uma grande parte do eleitorado para os candidatos que prometem uma mão dura. Muitos deles centraram as suas campanhas em promessas de mobilização do exército, de reintrodução da pena de morte ou de endurecimento do sistema judicial.

López Aliaga, apelidado de "Bolsonaro peruano" pela sua ideologia ultra-conservadora, parecia até há pouco tempo ser o rival mais direto de Fujimori. Mas as últimas sondagens mostram que Carlos Álvarez, um apresentador de televisão conhecido por imitar políticos, o ultrapassou. Álvarez atrai um eleitorado desencantado com o sistema, alheio ao "establishment", que encontra no seu perfil de "outsider" algo diferente do habitual.

A esquerda, por outro lado, carrega o ónus do fracasso de Castillo. Roberto Sánchez, do Juntos por Perú, que se apresenta como herdeiro do Castilhismo, apoiando-se no voto rural do sul, tem poucas opções, segundo os analistas. Mais significativo ainda é o facto de, mesmo nas zonas rurais, Fujimori e Sánchez estarem empatados nas intenções de voto, com 15% cada, o que indica que a esquerda perdeu alguma da sua base tradicional.

Economia estável num país politicamente instável

Há um paradoxo que define bem o Peru: enquanto a política se desmoronou, a economia aguentou-se. O país tem crescido a uma taxa de 3% ao ano nos últimos dois anos, com uma inflação de 2%.

É o terceiro maior produtor mundial de cobre, um mineral cuja procura está a crescer com a expansão da inteligência artificial e dos centros de dados, e que contribuiu com 24 mil milhões de dólares em 2025. Tem também 23 acordos de comércio livre, incluindo com a China e os Estados Unidos.

A chave para esta estabilidade financeira tem sido, em grande parte, a independência do Banco Central, cujo presidente está no cargo há 20 anos e sobreviveu a todos os presidentes da República.

Mas os especialistas alertam para o facto de esta independência estar a começar a ser corroída: o Ministério das Finanças tem estado sob crescente pressão política e o Tribunal Constitucional abriu a porta ao Congresso para aprovar regulamentos com impacto direto nas despesas públicas.

Por último, estas eleições trazem uma mudança estrutural:o Congresso torna-se bicameral pela primeira vez desde que Alberto Fujimori eliminou o Senado na Constituição de 1993. Os 60 novos senadores terão o poder de eleger autoridades estatais de alto nível, o que acrescenta mais um ator importante a um sistema político que já tem dificuldade em funcionar com apenas um senador.

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