Será que é possível fazer comparações entre a operação militar dos Estados Unidos contra o Irão, atualmente em curso, e a investida que levou à conquista de Ormuz pelo Império Português, no século XVI? A Euronews ouviu dois historiadores sobre as consequências das duas "expedições".
Circula nas redes sociais uma imagem que faz uma comparação direta entre aquilo que terão sido as consequências diretas, os meios e fundos empenhados pelos Estados Unidos no contexto da atual guerra com o Irão, e aquilo que foi a conquista bem-sucedida, em pleno século XVI, de Ormuz por parte do Império Português.
Em causa, conforme escreveu já a Euronews, uma operação comandada pelo segundo governador português da Índia, Afonso de Albuquerque, no âmbito do projeto expansionista de Portugal então em curso, numa altura em que o Estreito de Ormuz detinha já, tal como acontece atualmente, uma importância económica e geostratégica muito expressiva, nomeadamente ao nível das trocas comerciais.
As duas "expedições", como são agora descritas na publicação citada, terão contado com uma mobilização de pessoal e equipamento militares muito díspares: a investida portuguesa consumada em 1515, alegadamente, muito menos ambiciosa face àquele que tem sido o destacamento ordenado por Washington para a região, que se retrata como muito mais dispendioso do ponto de vista financeiro, comparado com a expedição lusa de há séculos.
Mas se facto é que Afonso de Albuquerque, cerca de oito anos depois de uma primeira tentativa de posse da ilha de Ormuz, acabaria mesmo por conquistá-la, com consequências largamente vantajosas para o Império Português, as forças armadas das quais Donald Trump é comandante supremo terão atingido resultados que ficaram bastante aquém dos alcançados pelos portugueses, mesmo apesar desse empenhamento militar superior, afirma ainda a publicação. E com impactos reconhecidamente nefastos para a economia global.
A Euronews procurou obter alguns esclarecimentos, junto de dois historiadores, sobre estas alegações, que se encontram a circular no Facebook e noutras redes sociais, de modo a tentar demonstrar as evidências que existem (ou não) sobre as mesmas.
A conquista de Ormuz pelo Reino de Portugal
A presença portuguesa em Ormuz iniciou-se em 1507, mas apenas em 1515 é que Portugal "efetuou a conquista" propriamente dita, e consequente ocupação, "do Reino de Ormuz", explicou à Euronews o historiador Rui Manuel Loureiro, com obra publicada sobre a presença portuguesa em Ormuz nos séculos XVI e XVII.
E, de facto, citando dados publicados na obra Décadas da Ásia, do reconhecido historiador e cronista João de Barros, que remonta ao século XVI, o investigador confirma que a "expedição de Afonso de Albuquerque" que efetivou o controlo português sobre Ormuz "envolveu 27 navios", tal como referido na publicação analisada. Nomeadamente, "14 naus" e "sete caravelas", acompanhadas de "seis embarcações asiáticas mais pequenas".
Ao nível do número de homens empenhados nessa missão, também esses "estão corretos". Contas feitas, "eram 1.500 portugueses e cerca de 600 ou 700 indianos", mas "não necessariamente malabares", isto é, provenientes do Malabar, região "na costa ocidental da Índia". Isto porque estiveram também envolvidas na investida portuguesa "tropas de outras regiões da Índia, que participavam sempre nestas embarcações pequenas, quer como marinheiros, quer como soldados".
Mais "complicada", relatou o historiador Rui Manuel Loureiro, é fazer uma análise detalhada dos custos associados à ação portuguesa que conduziu à posse de Ormuz. Até porque "é difícil saber, hoje em dia, qual seria, por exemplo, o valor de uma nau, de uma caravela, etc." Sendo apenas possível dizer, factualmente, que "as perdas portuguesas foram praticamente insignificantes nestes combates" que levaram à conquista desse território.
E no que diz respeito às consequências da vitória portuguesa referidas na publicação que circula nas redes sociais? "Não são inteiramente corretas" e algumas são mesmo anacrónicas, diz o historiador. Recorde-se que o triunfo luso resultou na criação de "uma espécie de protetorado da coroa portuguesa" em Ormuz até 1622, ano em que uma "aliança entre os persas e os ingleses" conseguiu "desinstalar os portugueses" desse local.
"A ideia de Afonso de Albuquerque era, de facto, assegurar o controlo da ilha de Ormuz", uma "entidade autónoma da Pérsia". Porém, recorda Rui Manuel Loureiro, "não havia qualquer intenção ou qualquer ideia de atacar a Pérsia", que se tratava de um "estado continental enorme", num claro contraste face ao que tem sido a recente atuação dos Estados Unidos face ao Irão.
"A situação atual desenvolve-se um pouco ao contrário. Há um ataque ao Irão e, depois, como consequência, é que surge o problema de Ormuz, sobre o qual, provavelmente, os estrategas norte-americanos não terão pensado com antecedência. A ideia de Afonso de Albuquerque era mais controlar uma ilha-chave nas rotas marítimas", explicou o historiador contactado pela Euronews. Algo que se enquadrava numa "estratégia" meramente "oceânica" e sempre com a preocupação de "manter o bom relacionamento com as potências continentais".
Verdade é, no entanto, que o "controlo dos portugueses sobre a ilha de Ormuz permitiu mesmo assegurar a segurança de algumas rotas comerciais em que os portugueses estavam interessados", nomeadamente no Mar Arábico, como cita a publicação analisada.
Também ligeiramente "exagerada" é a afirmação que dá conta de que terá existido um "domínio português sobre o Golfo Pérsico" durante um período de aproximadamente 150 anos. "O domínio português sobre a ilha de Ormuz durou até 1622", o que equivale a cerca de "107 anos". Mas tal abrangeu apenas essa ínsula e "algumas das suas pequenas dependências dos dois lados do Golfo", pelo que "de forma alguma havia um controlo total do Golfo Pérsico, atéporque continua a haver navegação árabe e persa naquela região, de outros navios".
Já sobre a "introdução de um sistema de portagem" por parte do Império Português, como se alega nas redes sociais, importa referir, na ótica do investigador do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, que "esse sistema já existia, funcionando então em benefício do Reino de Ormuz". Mas depois do território ter sido ocupado pelos portugueses, estes "passaram a beneficiar desse sistema de portagem". Assim, "todas as mercadorias que eram trazidas pelos portugueses para Ormuz eram isentas de taxas e, por outro lado, eles beneficiavam de uma parte das receitas da alfândega de Ormuz".
E no que concerne ao que é descrito como um alegado "monopólio comercial [de Portugal] entre a Arábia e a Índia", Rui Manuel Loureiro refere que também isso "é uma coisa muito complicada de se dizer", a propósito daquilo que são "superfícies geográficas imensas". E explica da seguinte forma: "Os portugueses conseguiam controlar, eventualmente, uma parte do comércio através quer do sistema de alfândegas de Ormuz, quer através de outros sistemas, os chamados cartazes [...], que eram autorizações emitidas pelas autoridades portuguesas da Índia, que permitiam a outros navios [...] fazer essa rota." E mesmo assim essa vigilância não era total, salientou.
"Havia muitos outros navios que escapavam ao controlo português, bastava dirigirem-se a cidades que os portugueses não controlavam, na Índia, e eram muitas, para conseguirem escapar. Portanto, não havia um monopólio de maneira nenhuma. Havia uma interferência portuguesa, em grande parte, com sucesso, mas de forma alguma havia um monopólio", concluiu o especialista.
Finalmente, sobre a "fundação de um domínio europeu no Oceano Índico", com a duração de aproximadamente 500 euros, considerou que também essa é uma expressão "exagerada". Até porque "basta pensarmos em números, de pessoas, de navios, para ver que era totalmente impossível controlar todo o tráfego que atravessava o Oceano Índico, que era de milhares e milhares de navios de um lado para o outro, por uma série de rotas", detalhou Rui Manuel Loureiro.
Assim, tal como os "portugueses controlavam alguns dos entrepostos, e algum do movimento desses navios" no Oceano Índico, "depois vieram os ingleses, que fizeram exatamente a mesma coisa", e os "holandeses mais tarde", já em "finais do século XVI". Mas, mesmo assim, "nunca houve um monopólio europeu" nesta dimensão, nem sequer um "domínio continental" naquela região,asseverou o historiador. "Isso só veio mais tarde com o Império Britânico".
A operação militar de Trump no Golfo Pérsico
E o que pode ser dito sobre a operação militar levada a cabo pelos Estados Unidos, juntamente com Israel, contra o Irão? A nível de custos estimados da intervenção, a publicação que circula nas redes sociais refere um total de 18 mil milhões de dólares, dados referentes a março.
Em esclarecimento à Euronews, Bruno Cardoso Reis, especialista em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, citou inclusive "uma estimativa mais recente do Financial Times", com base em indicadores do American Enterprise Institute, que aponta para gastos diários estimados na ordem dos "500 milhões de dólares", consequência do equipamento militar norte-americano já destruído no conflito.
Contas feitas, reporta o jornal, o instituto prevê "que o custo da campanha contra o Irão tenha rondado os 22,3 a 31 mil milhões de dólares nas cinco semanas desde que Trump ordenou às forças norte-americanas o ataque, no final de fevereiro".
A nível de meios mobilizados, as alegações que circulam online falavam de 30 navios, 120 aeronaves e 50 mil meios humanos mobilizados em março. Dados tabelados pelo grupo de reflexão norte-americano Atlantic Council, referentes a 3 de abril de 2026, aqui analisados pela Euronews, apontam para uma estimativa de, pelo menos, 134 aeronaves (excluindo caças) e 18 navios, entre outros equipamentos militares, efetivamente mobilizados no âmbito da guerra com o Irão.
No que diz respeito ao número de soldados, uma notícia publicada a 29 de março no New York Times aponta para um "número de tropas norte-americanas na região do Médio Oriente acima dos 50.000", segundo um oficial militar norte-americano, na sequência da "chegada de 2.500 fuzileiros navais e de outros 2.500 marinheiros" em tempos recentes. São militares que estão "espalhados por bases e navios na região, incluindo na Arábia Saudita, no Bahrein, no Iraque, na Síria, na Jordânia, no Qatar, nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait", num número que ronda habitualmente os 40.000, mas que aumentou desde a escalada do conflito.
Para Bruno Cardoso Reis, o que importa destacar é que está em causa "a maior concentração de forças dos Estados Unidos a nível naval e aéreo nesta região desde 2013, ou seja, desde a intervenção contra o Iraque". Já ao nível do mais recente destacamento de meios humanos, tal poderá indicar que Washington estará, pelo menos, "a ponderar alguma operação terrestre, ainda que limitada" - possivelmente visando a "ilha de Kharg" ou "algumas daquelas ilhas na zona do Estreito de Ormuz".
Por outro lado, as consequências desta intervenção militar norte-americana no Médio Oriente têm feito manchetes por todo o mundo. "Crise energética global", "disrupção económica com riscos de recessão e insegurança alimentar", "tensões diplomáticas entre os Estados Unidos e os aliados europeus" e o "Irão a assinalar um potencial sistema de portagem no Estreito [de Ormuz]" são apenas alguns dos efeitos elencados na publicação analisada.
Mas, na ótica do investigador em História Contemporânea, existem outros efeitos que não devem ser desconsiderados: "A disrupção causada nos países aliados do Golfo", onde se têm registado "algumas mortes e destruição de infraestruturas críticas, como de produção de energia, de refinação, de liquefação de gás, etc." O que acaba também, consequentemente, por "minar a perceção de que aquela zona é uma espécie de oásis de riqueza e segurança, o que é muito importante para o turismo e para os serviços", bem como para setores que envolvem os "centros de dados e a inteligência artificial, que têm sido apostas destes países para diversificar um pouco a sua economia".
E apesar do acordo de cessar-fogo estabelecido entre os Estados Unidos e o Irão, mediado pelo Paquistão, aquilo que permanece é uma "situação de impasse", considera Bruno Cardoso Reis. "E este cessar-fogo traduz um pouco esse impasse. Desde logo não é uma solução definitiva e, por outro lado, as questões comerciais continuam todas um pouco em jogo".
E sendo verdade que "a economia ainda está muito globalizada", e mesmo que os Estados Unidos não tenham "de se preocupar com a segurança do abastecimento, pois têm produção própria de petróleo e de gás, isto não quer dizer que depois não sintam algum impacto nos preços". Existem "imensas interdependências que significam que as crises, sobretudo numa região tão importante para o mercado da energia e, por exemplo, para os fertilizantes, têm um impacto global, imediato e também a prazo".
De recordar ainda a questão de "o Irão replicar o sistema que os portugueses também adotaram, com base na hegemonia naval, que é de começar a cobrar uma taxa" para permitir a passagem das embarcações. Algo que é, atualmente, "ilegal à luz da lei internacional", tendo sido essa "uma das grandes mudanças da transição do século XVI para o século XVII", devido ao surgimento de "novas potências navais", como Inglaterra e Países Baixos, que "eram defensoras desta ideia de liberdade de navegação". Mas "agora o Irão está a preparar-se para reverter tudo isso".
A sustentar esta ideia de impasse no conflito, acrescentou Bruno Cardoso Reis, acresce o facto de os Estados Unidos "não estarem a conseguir atingir, claramente, os seus objetivos" e quererem bloquear o Estreito de Ormuz. E de, além disso, terem criado "um enorme problema": não apenas ao nível do "impacto económico direto" já mencionado, mas também da abertura de "um precedente potencialmente muito perigoso". É que se Washington "começar a fazer isso [intervenções militares] noutros estreitos, a começar, por exemplo, pelo Estreito de Adem, de Malaca, etc., o impacto na economia global, na segurança alimentar e na segurança energética será tremendo".
É possível comparar dois protagonistas de épocas tão diferentes?
Em entrevista à Euronews, Bruno Cardoso Reis explicou ainda que existe "uma corrente entre os historiadores" que "resiste muito a esta ideia das comparações e das chamadas Lições da História".
Havendo ainda uma outra, elaborou, "que se desenvolveu no mundo anglo-saxónico", que tem por base a ideia de que "toda a gente retira lições da História" e de que "mais vale tentar aprender com os erros dos outros".
No entanto, o especialista em História Contemporânea deixou uma ressalva: é que "a História não nos oferece lições no sentido de como é que se consegue, garantidamente, uma vitória numa guerra".
Mas há um ponto que, para o investigador, parece ser digno de apreciação. "É bastante evidente que navios que queriam entrar ou sair do Golfo [Pérsico], fosse no século XVI por causa das especiarias ou dos cavalos, ou agora por causa dos hidrocarbonetos, têm de passar necessariamente pelo Estreito de Ormuz." Assim, o que Afonso de Albuquerque entendeu, há cerca de 500 anos, foi que, "estabelecendo ali uma presença militar permanente, numa zona também facilmente defensável por uma potência naval e com uma 'esquadra' ali permanentemente baseada, realmente conseguia ter uma hegemonia" sobre tudo o que por ali passava.
Bruno Cardoso Reis apontou assim que "o problema de base" dos Estados Unidos se prende com o facto de que "ao contrário de Afonso Albuquerque, o presidente norte-americano não avaliou bem a realidade geostratégica", ao mesmo tempo que "exagerou o seu poder militar próprio".
Por outras palavras, "subestimou o inimigo" e, em particular, "a questão do Estreito de Ormuz, e da facilidade com que este pode ser usado para, no fundo, ameaçar a natureza da geografia - permitindo muito facilmente ao Irão ameaçar a segurança da navegação naquela região", bem como "confundir a superioridade militar esmagadora dos Estados Unidos com uma espécie de omnipotência".
Apesar de tudo isto, considerou ser necessário destacar que, à data das conquistas do Império Português na região, "a tecnologia favorecia muito claramente o controlo do Estreito [de Ormuz] pelas potências europeias", que tinham "alguma vantagem ao nível da tecnologia militar", mas sobretudo da "tecnologia naval". Facto esse que "facilitou muito a conquista da Ilha [de Ormuz], a construção da Fortaleza [também em Ormuz] e, depois, esta hegemonia naval".
Nos dias que correm, a realidade é um pouco diferente. "Atualmente, a tecnologia militar tem uma série de niveladores que tornam mais fácil a uma potência muito mais fraca criar este tipo de problemas", que as forças norte-americanas têm também enfrentado.
E apesar da óbvia "vantagem tecnológica dos Estados Unidos" comparativamente a Teerão, neste caso, a existência corrente de "tecnologias muito mais simples, muito mais baratas" acaba por dar ao Irão a possibilidade de "com um nível de poderio militar muito inferior, continuar a ser eficaz militarmente". Isto também, apontou o investigador, porque esse país "está disposto a assumir baixas e riscos muito maiores".