Um vídeo que parece mostrar soldados israelitas a atirarem corpos num telhado, na Cisjordânia, tornou-se viral, acumulando milhões de visualizações. No entanto, o vídeo é antigo e data de setembro de 2024.
Um vídeo que circula amplamente nas redes sociais parece mostrar soldados israelitas a atirarem corpos do telhado de um edifício na Cisjordânia.
As imagens atraíram milhões de visualizações e ganharam ainda mais destaque depois de terem sido partilhadas pelo presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung.
Numa publicação no X, Lee Jae Myung afirmou que iria tentar verificar a veracidade do vídeo e determinar as eventuais medidas a tomar. Mais tarde, esclareceu que o vídeo data de setembro de 2024 e sublinhou a necessidade de respeitar o direito humanitário internacional.
As imagens têm sido partilhadas online a partir de vários ângulos, muitas vezes acompanhadas de alegações de que mostram soldados a empurrar crianças de um edifício, com algumas publicações a alegarem tortura ou mortes ilegais.
No entanto, não só o vídeo não é recente, tendo sido filmado durante uma operação militar israelita na Cisjordânia há cerca de dois anos, como também tem estado a circular sem o seu contexto original.
O que é que aconteceu?
O vídeo é de setembro de 2024 e mostra soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) num telhado da Cisjordânia, durante um ataque.
Na altura, os jornalistas da Associated Press (AP) que se encontravam no local relataram ter testemunhado o que é mostrado nas imagens: três soldados israelitas a atirarem um corpo de um telhado.
Moradores da cidade de Qabatiya disseram à AP que os militares ficaram com a custódia dos quatro corpos. Um deles foi identificado como Shadi Zakarneh por um parente.
Nesse mesmo mês, o exército israelita anunciou que as FDI e o Shin Bet, agência de segurança interna e de contraespionagem de Israel, tinham morto o "chefe de uma organização terrorista em Qabatiya", juntamente com outros seis alegados terroristas.
O Cubo, equipa de verificação de factos da Euronews, identificou três vídeos publicados nas redes sociais que mostram o incidente de diferentes ângulos.
Os vídeos podem ser geolocalizados a norte de Qabatiya, perto de uma escola primária, e mostram soldados das FDI a atirarem pelo menos três corpos do telhado de um edifício. O incidente provocou a indignação de grupos de defesa dos direitos humanos e do governo palestiniano.
Na altura, o então porta-voz do Pentágono nos Estados Unidos, John Kirby, considerou as imagens "profundamente perturbadoras" e disse que Washington tinha procurado obter esclarecimentos sobre o sucedido.
De acordo com as Convenções de Genebra, as partes em conflito devem tratar os soldados mortos, incluindo os soldados inimigos, com dignidade, nomeadamente evitando que sejam mutilados e devolvendo-os à família do falecido.
Em resposta, as FDI afirmaram num comunicado que o incidente foi "grave" e "não coincidiu com os seus valores e com as expetativas dos soldados das FDI".
"Durante a atividade antiterrorista em Qabatiya, as FDI cercaram uma estrutura onde se encontrava um terrorista procurado", afirmaram na altura. "Durante a troca de tiros, quatro terroristas armados foram mortos".
Anunciaram também que iriam investigar o incidente.
O que é que a investigação descobriu?
Embora o presidente sul-coreano tenha mais tarde recuado na sua publicação, admitindo que as imagens eram antigas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel foi rápido a responder, descrevendo a publicação como "inaceitável".
As FDI, que não publicaram os resultados da investigação sobre o assunto, confirmaram que os corpos foram atirados do telhado após um ataque em Qabatiya.
Um porta-voz disse ao Cubo que os corpos foram atirados durante um "incidente invulgar" para efeitos de identificação, invocando um risco para as tropas.
Acrescentaram que o caso foi analisado e que "não estava de acordo com os valores das FDI, tendo sido retiradas lições, incluindo a necessidade de procedimentos alternativos e de autorização a um nível superior".