Responsável do Golfo, Jasem Mohamed AlBudaiwi, disse à Euronews que o Irão é responsável por transformar o Estreito numa arma para obter uma vitória geopolítica e deve lidar com as consequências.
O secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) criticou o Irão por perturbar o comércio na vital rota marítima e por levar a cabo "ataques bárbaros" contra os membros do bloco.
"Foi o Irão que deu início a isto e deve ser o responsável por todas as consequências que resultem das suas políticas", afirmou AlBudaiwi, que dirige o CCG desde janeiro de 2023, no programa de entrevistas da Euronews 12 Minutes With.
"Nunca ninguém fez isto. A região já viveu muitas guerras, muitos conflitos. O Estreito de Ormuz nunca tinha sido usado desta forma. Têm de ser eles a assumir a culpa".
O Irão começou a tomar medidas para encerrar o Estreito pouco depois do início dos ataques norte-americano-israelitas, no final de fevereiro, incluindo ataques a navios com lanchas, mísseis e drones e a colocação de minas para dissuadir embarcações de tentarem atravessá-lo.
O cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos, Israel e Irão, acordado em 8 de abril, deveria ter permitido retomar a navegação no Estreito de Ormuz.
Mas instalou-se a confusão quando o Irão anunciou que, ao abrigo do acordo, começaria a cobrar uma taxa às embarcações pela passagem no Estreito, em conjunto com Omã, e que a navegação só seria possível mediante coordenação com as forças armadas iranianas.
Os Estados Unidos responderam propondo também a criação de portagens para os navios que atravessam o Estreito e convidaram países europeus a aderir.
Desde então, a administração Trump começou a bloquear portos iranianos para pressionar economicamente Teerão a reabrir o Estreito e a voltar à mesa das negociações, no Paquistão.
AlBudaiwi considera que o diálogo será a única solução para a crise com o Irão e os seus aliados por procuração, mas sublinha que cabe claramente ao Irão cumprir determinadas condições.
"Sabemos que o Irão tem de cumprir tudo o que lhe é exigido para que as negociações sejam bem-sucedidas", afirmou.
"Esperamos que, não só na escalada na nossa região, mas em todo o mundo, todos recorram à discussão, ao diálogo e à negociação para resolver problemas, e não ao uso da força, nem à imposição de sanções ou o que quer que seja. É para aí que temos de caminhar: recorrer ao diálogo", acrescentou.
Desde o início da guerra, a administração Trump acreditou que se trataria de um conflito breve, que levaria à queda do regime da República Islâmica e poria fim à ameaça de Teerão conseguir armas nucleares. Os ataques, que mataram o líder supremo Ali Khamenei e milhares de outras pessoas, entre responsáveis, militares e civis, não conseguiram atingir esses objetivos.
No final de março, Trump disse estar "interessado" em pedir também aos países árabes que pagassem a guerra. Mas AlBudaiwi considerou que deve ser o Irão a suportar a fatura. "Quem deve assumir os custos é quem causou todos estes estragos, quem esteve na origem do retrocesso que a região enfrenta agora."
O secretário-geral insistiu que o CCG mantém uma "relação excelente com os Estados Unidos", que descreveu como "uma parceria estratégica". Adiantou que o CCG realizou conversações com o governo norte-americano sobre as negociações em curso para pôr fim ao conflito.
"Todos estão a fazer o possível para convencer o regime iraniano a pôr termo a estes ataques, a regressar às conversações e a aplicar o que lhe é exigido pela comunidade internacional, sobretudo no que toca ao programa nuclear", afirmou. "Também aos seus programas de mísseis e drones e ao apoio que prestam a grupos por procuração em todo o mundo árabe."
"Qualquer iniciativa tem de envolver todos os membros do CCG e outros intervenientes, para alcançar a estabilidade, a paz e a segurança duradouras que todos ambicionamos".
Israel-Líbano: negociações
Em paralelo com o conflito no Irão, Israel tem levado a cabo ataques contra o grupo paramilitar xiita Hezbollah, no sul do Líbano, pondo sob pressão o frágil cessar-fogo entre Estados Unidos, Israel e Irão. Teerão criticou os ataques contra o seu aliado, classificando-os como uma "grave violação" do acordo mediado pelo Paquistão, que, argumenta, também abrangia o Líbano.
As conversações diretas de paz entre Israel e o Líbano foram retomadas em 14 de abril, pela primeira vez em décadas, e deverão continuar hoje a um nível mais elevado. AlBudaiwi disse esperar que não se chegue "a uma fase em que o povo libanês se sinta pressionado, sinta que foi obrigado a fazer algo que não quer fazer".
"Tem de ser uma solução em que todos ganhem, um acordo para todos, sobretudo para o povo libanês", disse, acrescentando que o CCG acredita que o atual governo libanês está a trabalhar arduamente para recuperar o país e desarmar o Hezbollah.
O Hezbollah, que é também um partido político no Líbano, com dois ministros no governo e vários deputados, contestou as negociações e avisou que não se sentirá vinculado ao seu resultado.
Recuperação económica
O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), união política, económica e de segurança composta por seis membros, foi duramente atingido pelos ataques iranianos e as economias dos seus países dependem do Estreito de Ormuz para exportar uma série de recursos essenciais, como petróleo e gás, fertilizantes e hélio.
Em março, o Fundo Monetário Internacional reviu em baixa a previsão de crescimento económico do CCG em 1,8 pontos percentuais, para 2,6%, devido aos ataques iranianos na região e às perturbações no comércio, atrasando as economias do bloco em cerca de um ano.
Ainda assim, AlBudaiwi defende que os membros do CCG, que incluem o Barém, o Kuwait, Omã, o Catar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU), estão bem posicionados para lidar com as consequências.
"Haverá efeitos, haverá repercussões, mas estamos a lidar com isto de forma muito profissional, o que nos ajudará a sair deste revés o mais depressa possível", afirmou.
Criado em 1981, o CCG promove a cooperação em matéria de comércio, energia e estabilidade regional, com o objetivo de alcançar integração económica e políticas harmonizadas. A guerra com o Irão levou também a reforçar a cooperação entre os seus membros na área da segurança, ligando sistemas de defesa, partilhando informações, formação e coordenação, ao abrigo de um acordo fechado em setembro do ano passado.