A Cimeira Ecológica Regional tem início hoje em Astana.
Com o aumento das temperaturas a ameaçar a saúde da população e a degradação dos solos a colocar milhões de pessoas em risco de escassez alimentar, a Ásia Central tem motivos mais do que suficientes para dar prioridade ao ambiente.
A primeira Cimeira Ecológica Regional (RES, na sigla em inglês) reunirá os governos da região, com o objetivo de estabelecer um roteiro que transforme os compromissos em ações climáticas concretas, promovendo simultaneamente uma cooperação regional mais profunda.
A RES tem início hoje em Astana, capital do Cazaquistão, e decorre até sexta-feira.
"Atualmente, os países da Ásia Central atuam frequentemente de forma isolada, mesmo quando estes desafios exigem uma abordagem coordenada", afirma Yerlik Karazhan, diretor-executivo da Central Asia Climate Foundation.
A cimeira foi proposta pela primeira vez pelo presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, na Assembleia Geral da ONU há três anos. Ele reiterou o convite durante o seu discurso na Terceira Conferência da ONU sobre os Países em Desenvolvimento Sem Litoral, realizada em Avaza, no Turquemenistão, no ano passado.
"Acredito que a ação climática deve permanecer equilibrada e inclusiva, de acordo com as necessidades legítimas de desenvolvimento das nações. Para reforçar os nossos esforços conjuntos em matéria de clima, convido todos vós a participar na cimeira ecológica regional que se realizará em Astana, em parceria com as Nações Unidas, em abril do próximo ano."
É esperado que a cimeira reúna decisores políticos em mais de 60 sessões temáticas e eventos.
A água será o tema central da Cimeira Ecológica Regional do Cazaquistão
Encontrar formas de garantir a segurança hídrica será o tema central da agenda.
O Mar de Aral, agora seco, situado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, tem sido considerado "o símbolo por excelência da catástrofe ambiental".
Outrora o quarto maior corpo de água interior do mundo, o mar perdeu mais de 90% do seu volume desde a década de 1960, após projetos de desvio de rios terem redirecionado os rios Amu Darya e Syr Darya para fins de irrigação em grande escala. O que outrora foi uma vasta economia pesqueira tornou-se, em grande parte, um deserto.
Mas graças aos esforços de recuperação que começaram com uma barragem construída pelo Cazaquistão em 2005, a situação no norte do Mar de Aral parece mais promissora.
De acordo com um relatório de fevereiro deste ano, o volume de água no Mar do Norte de Aral aumentou para 24,1 mil milhões de metros cúbicos desde 2023 até ao presente.
Dados do Banco Mundial mostram que o nível da água no Mar do Norte de Aral é agora 50% mais elevado do que no seu ponto mais baixo, há alguns anos.
A região enfrenta também o rápido declínio do Mar Cáspio, onde os níveis de água estão a baixar cerca de dez centímetros por ano, representando riscos para a biodiversidade e as rotas marítimas internacionais.
Poderá ser criada uma nova agência da ONU para a água na Cimeira Ecológica Regional
O presidente Tokayev manterá conversações à margem da cimeira, na esperança de criar uma organização internacional para a água.
Apresentou a ideia num fórum que assinalou o Ano Internacional da Paz e da Confiança e o 30.º aniversário da neutralidade permanente do Turquemenistão, em dezembro do ano passado. Falando em Ashgabat, Tokayev observou que "não existe atualmente nenhuma agência especializada da ONU dedicada exclusivamente à água".
Antes da cimeira, Tokayev reuniu-se também com a enviada especial do secretário-geral da ONU para a Água, Retno Marsudi, na Akorda, salientando a necessidade de "construir um sistema mais eficaz de cooperação internacional no setor da água".
Acrescentou que os recursos hídricos são de importância estratégica para o Cazaquistão, estando diretamente ligados ao desenvolvimento sustentável, à segurança ambiental e à estabilidade regional, de acordo com o gabinete de imprensa presidencial.
Crise climática representa um risco grave para a Ásia Central
Desde a sua criação, a agenda da cimeira expandiu-se para além das alterações climáticas, passando a abordar um leque mais vasto de desafios ambientais que a região enfrenta.
A Ásia Central enfrenta alguns dos riscos climáticos mais graves do mundo, com as temperaturas médias anuais a aumentarem mais rapidamente do que a média global — de um aumento de cerca de +2,1°C no Quirguistão a até +1,5°C no Turquemenistão nos últimos 115 anos.
As consequências já são visíveis. Segundo a UNESCO, a área coberta por glaciares no Quirguizistão diminuiu 16% nos últimos 70 anos, enquanto no Tajiquistão desapareceram mais de mil glaciares nas últimas três décadas.
Mais de 20% do território da região — cerca de 80 milhões de hectares — está degradado, afetando cerca de 30% da população.
O financiamento verde também estará na agenda
É esperado que os líderes de toda a Ásia Central adotem uma declaração conjunta na Cimeira Ecológica Regional, que servirá como o seu principal documento final.
"A próxima cimeira será uma plataforma fundamental para a região fazer ouvir a sua voz e demonstrar a sua disponibilidade para enfrentar os desafios ambientais", afirmou Mansur Oshurbaev, vice-ministro da Ecologia e Recursos Naturais do Cazaquistão.
A par da agenda política, espera-se também que a cimeira delineie as necessidades de financiamento verde de cada país, apoie os esforços de adaptação e acelere a implantação de tecnologias de baixo carbono.
No caso do Cazaquistão, espera-se que os acordos assinados canalizem mais de 1,5 mil milhões de euros em investimento, segundo Oshurbaev.
Ao associar desafios comuns a uma ação coletiva, os organizadores afirmam que a cimeira poderá reforçar tanto a cooperação ambiental como a resiliência económica em toda a Ásia Central.