Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Suécia produz 99% da eletricidade com fontes limpas: por que é alvo a energia eólica?

Nesta fotografia, vê-se uma turbina eólica atrás de um barracão vermelho num campo na Suécia
Na imagem, vê-se uma turbina eólica atrás de um barracão vermelho, num campo na Suécia. Direitos de autor  Chloe Magill via Unsplash.
Direitos de autor Chloe Magill via Unsplash.
De Liam Gilliver
Publicado a
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Investigadores analisam milhares de publicações anti-eólicas e alertam que a segurança energética europeia pode ficar em risco

A Suécia foi o país mais atingido por um ataque coordenado à energia eólica, conclui uma nova análise.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

No ano passado, a Suécia gerou impressionantes 99 por cento da sua eletricidade a partir de fontes de baixo carbono, a quota mais elevada de qualquer país da UE.

À cabeça esteve a energia hídrica (40 por cento), seguida da nuclear (27 por cento), eólica (23 por cento) e solar (dois por cento). Segundo o centro de estudos de energia Ember (fonte em inglês), a Suécia recorreu a combustíveis fósseis apenas para 1,2 por cento da sua eletricidade em 2025, fazendo descer as emissões per capita muito abaixo da média da UE.

Apesar deste impressionante mix energético verde, uma investigação online alerta que a informação errónea e a desinformação sobre a energia eólica se tornaram generalizadas no país, constituindo um «risco sistémico para a segurança da Europa».

Movimento anti-energia eólica na Suécia

A WindEurope (fonte em inglês), que se apresenta como «a voz da indústria da energia eólica», associou-se à CASM Technology para mapear, pela primeira vez, o sistema anti-energia eólica na Europa. O estudo analisou mais de 42 000 publicações nas redes sociais Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), YouTube, TikTok e LinkedIn, entre 1 de maio de 2024 e 28 de fevereiro de 2026.

Estas publicações geraram 6,3 milhões de «interações ativas», como gostos e partilhas, além de dezenas de milhões de visualizações. Mais de metade (68 por cento) das publicações analisadas foram classificadas em narrativas anti-eólicas de informação errónea e desinformação, ficando as restantes no grupo de conteúdo de oposição sem desinformação.

Há uma diferença significativa entre informação errónea e desinformação. Informação errónea é informação falsa ou fora de contexto que alguém apresenta como facto. Desinformação, por seu lado, é informação intencionalmente falsa e concebida para enganar o público.

A maior fatia das publicações com informação errónea e desinformação foi escrita em sueco (quase 7 000), seguida de francês, norueguês, finlandês, inglês do Reino Unido e alemão. Em conjunto, estes seis países representaram 75 por cento do conjunto de dados.

Quota do total de publicações e do total de interações por categoria de atores (maio de 2024 – fevereiro de 2026)
Quota do total de publicações e do total de interações por categoria de atores (maio de 2024 – fevereiro de 2026) WindEurope

«No entanto, os países que produzem mais conteúdo anti-eólico nem sempre são aqueles que geram mais reações», refere o estudo.

«A Polónia, a Bulgária, a Eslováquia, a Itália, a Grécia e a Chéquia produziram menos conteúdo anti-eólico na rede global, mas o conteúdo que produziram tendia a atrair mais envolvimento.»

O Reino Unido foi, na verdade, o país com mais interações nas suas publicações anti-eólicas, seguido da Alemanha, Noruega e França. A Suécia surgiu em sétimo lugar, com mais de 419 000 interações ativas.

O relatório indica que este tipo de publicações criou um «vastíssimo ecossistema em toda a Europa», composto por atores dos meios de comunicação social, da política, bem como por grupos da sociedade civil e ativistas individuais.

Ataque à energia eólica

O estudo agrupou as narrativas de informação errónea e desinformação em torno da energia eólica em quatro categorias.

As «narrativas de fraude e antidemocráticas» foram as mais frequentes, retratando os promotores e apoiantes de projetos eólicos como «atores gananciosos, dispostos a aceitar danos ambientais e sociais significativos em nome do lucro» e como «uma imposição de elites políticas ou económicas distantes a populações locais que não os querem».

Também foram identificadas «narrativas de destruição ambiental», que procuram apresentar as turbinas eólicas como prejudiciais para a natureza e a vida selvagem, criando a «impressão enganadora de que a energia eólica tem um impacto líquido profundamente negativo nos ecossistemas».

A construção de parques eólicos enfrenta frequentemente objeções com base em argumentos ambientais, mas a maioria dos especialistas considera que os benefícios ambientais da redução do uso de combustíveis fósseis superam qualquer potencial perturbação da vida selvagem.

Os críticos argumentam muitas vezes que as turbinas eólicas colocam em risco as aves, mas um estudo recente analisou mais de quatro milhões de movimentos de aves com recurso a radar e câmaras com base em inteligência artificial ao longo de um ano e meio. Concluiu que mais de 99,8 por cento das aves migratórias evitam de forma fiável as turbinas eólicas.

Por fim, as «narrativas de inviabilidade tecnológica e falência económica» representaram mais de 8 000 publicações. Estas mensagens descrevem as turbinas eólicas como «desestabilizadoras», estabelecem ligações falsas a apagões e apresentam os projetos eólicos como «economicamente absurdos».

No início deste ano, a ENTSO-E, Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade, publicou o relatório final sobre o apagão de grande escala que deixou partes de Espanha e Portugal sem eletricidade em 28 de abril do ano passado. Apesar das afirmações de que o incidente foi causado pelas energias renováveis, o relatório concluiu que as turbinas eólicas não estiveram entre as causas principais.

Embora estas alegações já tenham sido desmentidas, a informação errónea e a desinformação estão a influenciar perceções na vida real.

«A maioria dos alemães, belgas, neerlandeses, franceses e suíços acredita agora que a transição para as energias renováveis fará subir o preço da eletricidade para as famílias, apesar de a Agência Internacional de Energia (AIE) confirmar o contrário», refere o relatório.

«Em França, na Polónia, na Bélgica e na Suíça, cerca de metade ou mais das pessoas acredita que os carros elétricos (VE) são tão maus para o planeta como os veículos a gasolina ou a gasóleo, apesar de um forte consenso académico de que os VE têm um impacto ambiental significativamente mais baixo do que os veículos a gasolina ou a gasóleo.»

Segundo um inquérito das redes sociais da União Europeia, mais de 80 por cento dos cidadãos da UE acreditam ter sido expostos a desinformação ou notícias falsas na semana anterior, e cerca de 50 por cento dizem ter dificuldade em distinguir, nas redes sociais, entre informação fiável e desinformação sobre as alterações climáticas.

Quais são as consequências da desinformação?

O estudo defende que a informação errónea e a desinformação representam uma grande ameaça para a democracia e para o debate público, podendo ser instrumentalizadas pelos rivais da UE para «atacar o modelo de negócio das empresas europeias».

Numa altura de guerra com o Irão, os autores alertam que atrasar a transição da Europa para energias renováveis competitivas produzidas internamente não afeta apenas as empresas europeias, mas também compromete a competitividade económica do continente e a sua mais ampla segurança energética.

Os responsáveis políticos podem explorar estes sentimentos anti-eólicos para ganhos eleitorais, o que historicamente levou ao adiamento ou mesmo ao bloqueio de projetos de energias renováveis. Nos Estados Unidos, Donald Trump tem tomado medidas para travar a energia eólica offshore, argumentando que constitui um risco para a segurança nacional.

«O município búlgaro de Vetrino tornou-se o primeiro na Europa a impor uma moratória total à energia eólica, bloqueando na prática o desenvolvimento do projeto eólico terrestre Dobrotich, de 500 MW, avaliado em cerca de 1,2 mil milhões de euros», explica o relatório.

«A oposição ao projeto foi alimentada por alegações manifestamente falsas, incluindo afirmações de que as turbinas eólicas causam cancro, pragas ou colapso agrícola. Redes organizadas no Telegram desempenharam um papel central na divulgação destas narrativas e na mobilização da oposição.»

Num nível mais extremo, os autores alertam que a informação errónea e a desinformação sobre a energia eólica podem mesmo conduzir a ataques violentos contra projetos do setor.

«Narrativas radicais de informação errónea e desinformação que apresentam os projetos eólicos e solares como ilegítimos, corruptos ou como ameaças existenciais podem contribuir para uma escalada que vai da oposição política e legal à violência física contra infraestruturas de energias renováveis e trabalhadores», lê-se no relatório.

«Uma vez enraizadas estas narrativas, a sabotagem e a intimidação passam cada vez mais a ser enquadradas como formas justificadas de resistência, em vez de atos criminosos.»

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Europa: primeiros migrantes climáticos vivem em permanente medo de fenómenos extremos

Emirados Árabes Unidos saem da OPEP: impacto nos mercados de petróleo e no clima

Prova inequívoca: Europa em crise climática ameaça alimentação, saúde e economia