Líder do partido ecologista francês, Marine Tondelier chama «incompetente» ao governo, numa altura em que o foco recai sobre o seu principal fundo climático
Fundos climáticos de França, em constante redução, voltaram ao centro das atenções após o calor recorde registado em maio no país.
No mês passado, o país sofreu sob uma poderosa cúpula de calor, com o serviço meteorológico Météo France a declarar que tinham sido registados novos máximos mensais em 352 estações meteorológicas. A temperatura mais elevada, de 37,1 ºC, foi registada perto de Hossegor, junto a Biarritz, na segunda-feira, 25 de maio.
As temperaturas excecionalmente altas foram associadas a várias mortes, incluindo a de um corredor de 53 anos que morreu durante uma prova em Paris.
Cientistas afirmam que esta onda de calor “sem precedentes” tinha uma probabilidade de uma em 1 000 de ocorrer nesta altura do ano, com base em registos desde 1979. Mas uma especialista alerta que o calor intenso “tem a marca das alterações climáticas por todo o lado”.
Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial College London, diz que a ciência é muito clara: “As alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes.
“O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos e os nossos edifícios e infraestruturas estão lamentavelmente despreparados para o que aí vem.”
Estava França preparada para a onda de calor?
França prepara-se para ondas de calor extremas há vários anos, sobretudo em cidades como Paris, frequentemente afetadas pelo efeito de ilha de calor urbana. Trata-se de uma situação em que infraestruturas como o betão e o asfalto absorvem calor, mantendo as temperaturas exteriores elevadas.
Em 2023, a iniciativa “Paris aos 50 ºC” envolveu dois arrondissements na preparação dos residentes para um futuro de calor intenso, reunindo urbanistas, especialistas em saúde, cientistas e autoridades públicas para avaliarem vulnerabilidades em setores-chave como habitação, saúde, energia e espaço público.
Uma avaliação do exercício concluiu que o calor extremo representa uma ameaça grave para a saúde pública em França, sobretudo entre as comunidades mais vulneráveis. Infraestruturas como o metro e as linhas ferroviárias foram também consideradas em risco devido à subida das temperaturas.
Os esforços para retirar materiais que retêm o calor, como o asfalto e lugares de estacionamento, transformaram Paris nos últimos anos, abrindo caminho a mais árvores e plantas que proporcionam sombra e ajudam a melhorar a qualidade do ar.
Principal instrumento do país, o Fundo Verde tem ajudado comunidades a adaptarem-se às alterações climáticas, tendo já concedido apoio financeiro a mais de 25 000 projetos desenvolvidos por mais de 13 000 atores nos territórios, incluindo mais de 11 000 municípios na França continental e nos territórios ultramarinos.
França acusada de 'negação climática'
O compromisso do Fundo Verde representa 4,5 mil milhões de euros em subsídios do Estado e abrange a renovação energética de edifícios públicos locais, a melhoria da qualidade do ar, a prevenção de cheias e a recuperação da natureza.
No entanto, o orçamento do fundo tem vindo a encolher discretamente, baixando de 2,4 mil milhões de euros em 2024 para 873 milhões em 2026.
Marine Tondelier, líder do partido ecologista francês, partilhou uma captura de ecrã de um artigo do órgão de comunicação Contexte, que indica que o Fundo Verde viu a sua autorização de despesa reduzida em 163 milhões de euros, ou quase 20 por cento do orçamento inicial.
“Depois de ter demonstrado a sua completa falta de preparação durante os oito dias de uma onda de calor histórica, eis as medidas do governo para a adaptação às alterações climáticas”, escreveu a política na rede X (antigo Twitter).
“Este nível de incompetência e obstinação na direção errada equivale a negação climática.”
Em abril, França anunciou a intenção de cortar 4 mil milhões de euros na despesa deste ano para manter as finanças públicas sob controlo, na sequência das repercussões económicas da guerra no Irão.
Segundo o jornal Le Monde (fonte em inglês), o corte de 163 milhões de euros no Fundo Verde poderá ser levantado mais tarde este ano, se necessário – ou anulado pura e simplesmente.