A candidata conservadora Keiko Fujimori leva vantagem sobre Roberto Sánchez, com mais de metade dos votos contados, numa eleição presidencial marcada pela preocupação com o crime e a economia.
A identidade do próximo presidente do Peru continuava desconhecida várias horas depois do encerramento dos locais de voto este domingo, enquanto as autoridades avançavam lentamente na contagem dos votos para escolher o nono chefe de Estado do país em apenas dez anos.
Dados divulgados pelas autoridades eleitorais davam uma ligeira vantagem à política conservadora Keiko Fujimori face ao deputado nacionalista Roberto Sánchez, com 58% dos boletins contabilizados, numa disputa marcada pela crescente preocupação dos cidadãos com a insegurança e o aumento da criminalidade.
Segundo os resultados provisórios, Fujimori somava 5,96 milhões de votos, equivalentes a 52,6 %, enquanto Sánchez reunia 5,36 milhões de apoios, 47,4%. Face à estreita margem, o resultado definitivo poderá demorar vários dias a ser conhecido.
Ao contrário da primeira volta, não se registaram incidentes importantes que atrasassem a abertura ou o fecho dos locais de votação. No entanto, em Lima a participação pareceu inferior à dos anteriores sufrágios, com poucas filas em muitos locais de voto, apesar de o voto ser obrigatório.
Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori, e Sánchez, aliado próximo do ex-chefe de Estado Pedro Castillo, atualmente preso, chegaram à segunda volta depois de se imporem a outros 33 candidatos nas eleições de abril, embora nenhum tenha ultrapassado 20% dos votos. Demorou mais de um mês até as autoridades eleitorais confirmarem oficialmente as suas vitórias nessa primeira ronda.
Insegurança é principal preocupação dos eleitores
A criminalidade, em especial a extorsão, manteve-se como a principal preocupação dos cidadãos durante a campanha. Um inquérito nacional realizado em 2025 pelo Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI) indicou que 84% dos residentes em zonas urbanas receavam tornar-se vítimas de um crime nos 12 meses seguintes.
Especialistas atribuem o crescente poder do crime organizado no Peru aos lucros obtidos por grupos criminosos ligados à extração ilegal de ouro nos Andes e na Amazónia. Ainda assim, as propostas dos candidatos para combater a criminalidade não convenceram uma parte significativa do eleitorado, que continua a associar ambos os aspirantes a figuras políticas controversas.
Resultados oficiais da primeira volta mostraram que Fujimori obteve 17% dos votos e Sánchez 12%. Mais de seis semanas depois, uma sondagem nacional da Ipsos refletia percentagens de apoio semelhantes para ambos os candidatos, enquanto cerca de três em cada dez eleitores se mantinham indecisos.
Fujimori continua associada ao legado autoritário e marcado pela corrupção do Governo do pai, Alberto Fujimori, que governou o Peru durante a década de 1990. Já Sánchez é um dos aliados mais próximos do ex-presidente Pedro Castillo, preso e visto por muitos peruanos como uma figura associada à corrupção e à instabilidade política. Durante os 16 meses do seu mandato registaram-se mais de 70 mudanças ministeriais.
Magali Quiquia, vendedora ambulante de 44 anos, afirmou que votou em branco porque nenhum dos candidatos lhe pareceu convincente. "Há cinco anos dececionou-me Castillo por causa da corrupção, e Roberto Sánchez é igual", disse. Também criticou Fujimori, por considerar que "não fez nada", apesar de o seu partido contar com uma importante representação no Congresso.
Votar é obrigatório para os peruanos dos 18 aos 70 anos. Quem não comparece às urnas pode enfrentar coimas até 32 dólares. Mais de 27 milhões de pessoas foram chamadas a votar. Cerca de 1,2 milhões vivem no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos e na Argentina.
Propostas de Fujimori e Sánchez para combater o crime
Ao longo de grande parte da quarta campanha presidencial, Keiko Fujimori centrou a sua mensagem no combate à criminalidade. Entre as propostas, destacam-se a implementação de tecnologia para rastrear casos de extorsão, a militarização das fronteiras e o reforço da presença policial e militar nas zonas consideradas de alto risco.
A candidata, de 51 anos, prometeu também que os reclusos serão obrigados a trabalhar e a "devolver à sociedade" caso chegue à Presidência. No único debate realizado antes da segunda volta, defendeu a atuação do pai e assegurou que irá derrotar a criminalidade do mesmo modo que o Governo de Alberto Fujimori pôs fim ao Sendero Luminoso, a organização armada que semeou o terror no Peru durante décadas.
Sánchez, ex-ministro e especialmente popular nas zonas rurais, prometeu combater a corrupção dentro das forças policiais e promover reformas que permitam às Forças Armadas colaborar mais estreitamente em tarefas de segurança.
O candidato, de 57 anos e conhecido por usar um chapéu de camponês de aba larga oferecido por Pedro Castillo, afirmou durante o debate que está disposto a explorar "todas as opções para gerar emprego e progresso", embora tenha reiterado o apoio ao investimento proveniente da China.
Procurou ainda sossegar os investidores ao garantir que não irá nacionalizar os ativos das multinacionais dedicadas à extração de minerais e gás no Peru. Heidi Ramírez, residente em Lima de 41 anos, explicou que se manteve indecisa até chegar ao local de voto. Por fim, depois de falar com vários amigos que a conseguiram convencer, decidiu votar em Sánchez.
O embaixador dos Estados Unidos no Peru, Bernie Navarro, visitou este domingo um centro de votação em Lima. À saída, declarou ao canal Latina que a sua presença tinha como objetivo "observar e garantir que haja transparência".
O vencedor da segunda volta assumirá a Presidência do Peru por um mandato de cinco anos a 28 de julho.