Jornalistas da TV Azteca e da DAZN foram interrompidos nas conferências do Brasil-Marrocos por falarem espanhol. A FIFA invocou falta de intérpretes, reacendendo o debate sobre o peso do idioma num torneio parcialmente organizado a partir do México.
Na sexta-feira, 12 de junho, no estádio Metlife, em Nova Jérsia, o mesmo relvado que vai receber a final do torneio, o jornalista Rodrigo Ornelas, da TV Azteca Deportes, pegou no microfone durante a conferência de imprensa anterior ao Brasil-Marrocos para se dirigir em espanhol a Achraf Hakimi. Antes de terminar a pergunta, o moderador da FIFA interrompeu-o: não eram permitidas perguntas nesse idioma.
Hakimi, nascido e criado em Madrid, tentou intervir. Disse que podia responder em espanhol. O responsável de imprensa explicou-lhe que o problema não era o jogador não perceber a língua, mas sim o facto de não haver intérprete disponível para traduzir a resposta para os restantes jornalistas e meios presentes.
"Não o podemos fazer por causa das traduções", foram as palavras que usou. Quando Hakimi assinalou que também podia responder em inglês, o moderador lembrou-lhe que também não tinham pessoal para passar a pergunta do espanhol para inglês. "Se começamos com isto…", acrescentou, dando a entender que abrir essa porta desencadearia pedidos em cadeia noutros idiomas.
A situação ficou resolvida quando Ornelas reformulou em castelhano, Hakimi perguntou ao moderador em que língua devia responder, recebeu um lacónico "english" como resposta e falou em inglês: "Amo o teu país, já estive lá". O vídeo do momento circulou nas redes com a mensagem viral "A FIFA não permite fazer perguntas em espanhol nos Estados Unidos".
Na mesma conferência de imprensa, embora sem a mesma repercussão, o jornalista espanhol Sergio Quirante, da DAZN, começou a perguntar em inglês a Vinícius Júnior. O avançado do Real Madrid interrompeu-o para lhe pedir que o fizesse em espanhol.
"Acho que não posso", respondeu Quirante. Vinícius insistiu: "Se puede, se puede", mas o jornalista acabou por formular a pergunta em inglês, que o jogador ouviu através de um auricular com tradução automática.
Protocolo explica parte e deixa outra por esclarecer
A FIFA não improvisa estas normas. Em cada conferência de imprensa antes e depois dos jogos do Mundial, o organismo permite perguntas em inglês e nas línguas das duas seleções em causa.
Cada federação nacional pode pedir antecipadamente os idiomas de que precisa; se não os solicitar, não há tradutor. No caso do Brasil-Marrocos, a sala dispunha de intérpretes de inglês, português, árabe, francês e italiano, este último a pedido do Brasil, por influência de Carlo Ancelotti. Ninguém tinha pedido o espanhol.
A lógica do sistema é, em teoria, razoável: garantir a fluidez da tradução simultânea quando há jornalistas de dezenas de países diferentes. A FIFA argumenta que não pode ter tradutores disponíveis para todas as línguas que qualquer jornalista queira utilizar.
Nos encontros disputados em Guadalajara, no México, o espanhol foi de facto disponibilizado para o Chéquia-Coreia do Sul e, nos jogos em que participem seleções como México, Espanha, Argentina, Colômbia, Uruguai, Equador ou Paraguai, o castelhano também está previsto.
O que o protocolo não resolve é o paradoxo de fundo: o espanhol é a língua oficial de um dos três países anfitriões do torneio e, segundo dados especializados, é falado por 57 milhões de pessoas nos Estados Unidos.
O país norte-americano só é ultrapassado pelo próprio México em número de falantes. O facto de essa língua ficar fora da infraestrutura padrão de tradução em jogos disputados em território norte-americano é uma decisão que muitos jornalistas e utilizadores consideraram difícil de compreender.
Ironia de Ancelotti e "portuñol" na sala
Enquanto o debate sobre o espanhol corria pelas redes, quem mais se aproximou desse idioma na conferência de imprensa do Brasil-Marrocos foi, curiosamente, Carlo Ancelotti. O selecionador italiano está há relativamente pouco tempo à frente da canarinha, mas já mostrou que domina palavras como "eu", "bola", "jogo" ou "falamos".
O português incipiente, misturado com o espanhol que aprendeu na sua passagem pelo Real Madrid, foi aquilo a que os cronistas presentes chamaram "portuñol".
O episódio deixa, em todo o caso, uma imagem que vai para lá das línguas. Hakimi, poliglota e com raízes diretas em Espanha, esteve sempre disponível para responder em castelhano. Vinícius também.
Foram as normas da organização, e não os jogadores, que impuseram o inglês como único canal possível, deixando o espanhol de lado.