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Venezuela sem meios após o terramoto: "Não têm material"

Moradores em frente de um edifício danificado durante um dos dois terramotos em Caracas, Venezuela, em 25 de junho de 2026
Moradores juntam-se em frente de um edifício danificado durante um dos dois terramotos em Caracas, Venezuela, a 25 de junho de 2026. Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
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De Rafael Salido com AFP
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Dois terramotos devastaram a Venezuela, já em profunda crise, derrubando edifícios. Centenas de pessoas continuam desaparecidas, enquanto vizinhos e familiares ajudam nas operações de resgate.

Dois terramotos que abalaram a Venezuela na noite de quarta-feira provocaram, até ao momento, mais de 160 mortos e cerca de mil feridos, enquanto centenas de pessoas continuam desaparecidas. Perante a falta de meios, num país que vive numa crise há anos, a população denuncia que os serviços de emergência, por vezes, estão "de braços cruzados".

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"Foram por conta própria, pegaram no carro e desceram até La Guaira", conta Herme Palma, venezuelano a viver em Madrid. À Euronews, relatou que o irmão, sem conseguir estabelecer contacto telefónico, iniciou a busca pela família do cunhado "assim que o tremor terminou".

Segundo o relato do irmão de Herme, o prédio onde vivia esta família de cinco pessoas "estava em ruínas". Ainda não tiveram notícias deles e receiam que possam estar entre os escombros do edifício.

O meu irmão disse-me que viu coisas que, sinceramente, não desejaria que ninguém visse
Herme Palma
Cidadão venezuelano

Para chegar à casa do cunhado, em La Guaira, a zona costeira de Caracas que fica a cerca de 40 minutos de automóvel da cidade, o irmão de Herme teve de abandonar o veículo epercorrer os últimos três quilómetros a pé porque "havia escombros por todo o lado e os carros não passavam".

"Disse-me que havia escombros por todo o lado", relata. "O meu irmão disse-me que viu coisas que, sinceramente, não desejaria que ninguém visse". O epicentro de ambos os sismos localizou-se a cerca de 200 quilómetros de Caracas e sentiu-se até à fronteira com o Brasil, a cerca de 1.700 quilómetros da capital.

Inicialmente, o governo venezuelano avançou com um primeiro balanço de apenas 32 mortos. No entanto, desde o início o Serviço Geológico dos Estados Unidos estimava o número de mortes na Venezuela entre 10.000 e 100.000 pessoas.

Os sismos, de magnitude 7,2 e 7,5, respetivamente, danificaram o principal aeroporto do país, o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, que teve de suspender as operações. O governo anunciou a suspensão das aulas nas escolas de todo o país, durante os próximos dias.

"Foi terrível. Tudo, absolutamente tudo, ruiu", comentava Yilsmaris Blanco à AFP, desde a cidade costeira de Catia La Mar. "Agradecemos a Deus por estarmos vivos, mas há pessoas a sofrer neste momento, com familiares sepultados, com familiares esmagados, e não os conseguem resgatar".

A situação agravou-se com a grave crise social e económica que o país atravessa e que foi, em grande medida, aprofundada devido à campanha de pressão que os Estados Unidos têm levado a cabo nos últimos meses sobre o governo venezuelano, que incluiu a imposição de sanções e, inclusivamente, a captura, em janeiro, do então presidente, Nicolás Maduro.

Falta de eletricidade e hospitais sobrelotados

"Foi forte, foi crítico e, bem, desde o momento em que aconteceu até hoje, não há luz; não há qualquer luz", relata à Euronews Maria José Alcalá, apanhada pelos tremores em casa, na localidade de Coro, no norte do país. "Não temos fornecimento de água porque tudo depende da eletricidade e, sem eletricidade... não podemos fazer nada. E os serviços de emergência, bem, os hospitais estão a abarrotar".

Alcalá recorda o medo que sentiu com as "duas sacudidelas" que fizeram tremer os seus pertences e que abriram fendas em muitos dos prédios da zona. "A minha reação foi de medo. Fiquei nervosa porque foi impressionante. Foi impressionante. Impressionante".

"Onde eu vivo não há um serviço de emergência imediato", afirma Alcalá, ao referir-se à falta de recursos e de organização por parte do Estado. "Deram-nos alguns números para emergências de saúde; no entanto, não sabemos quais são os protocolos".

Não podemos fazer nada. E os serviços de emergência, bem, os hospitais estão a abarrotar
Maria José Alcalá
Cidadã venezuelana

Segundo o jornal Financial Times, o governo de Delcy Rodríguez preparava-se para reconhecer uma dívida próxima dos 240.000 milhões de dólares, muito acima dos 150.000 a 200.000 milhões que os mercados calculavam até agora.

"Dizem que, pela situação do país, por como tem estado todos estes anos, no fim a Guarda Civil e as equipas de resgate não têm material, não têm instrumentos; não têm nada com que levantar os escombros", descreve Herme. "Por isso, dizem que estão de braços cruzados porque não conseguem fazer nada".

Uma impressão com a qual concorda Larry Rojas, venezuelano de 49 anos que, segundo relatava à AFP, juntou-se às operações de resgate em Catia La Mar, onde dezenas de edifícios ficaram completamente reduzidos a escombros, enquanto noutros se observam fendas e paredes caídas. "Não temos nada, neste momento não temos nada, nem sequer a força nem a coragem para entrar, imaginem", lamentou.

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