Está provado que o acetamiprid e o flupiradifurone prejudicam as abelhas e podem representar um risco para o desenvolvimento cerebral das crianças.
A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, tentou demitir-se depois de os deputados terem aprovado um projeto de lei que permite o regresso ao uso de pesticidas nocivos para as abelhas.
"Ao contrário dos compromissos que me tinham sido dados, o governo impediu qualquer debate sobre a revogação desta medida", afirmou Monique Barbut num comunicado publicado no LinkedIn.
Disse que a inversão da decisão era "um recuo ambiental de mais"; no entanto, o presidente Macron não aceitou o seu pedido de demissão e "garantiu-lhe o seu apoio", disse o seu gabinete à agência AFP.
Barbut, que foi secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação,permanecerá no cargo devido à "urgência de enfrentar as consequências das alterações climáticas", acrescentou a sua equipa.
Mas afinal, quais são os dois pesticidas que levaram Monique Barbut a tentar demitir-se e quão perigosos são?
Acetamiprid e flupyradifurone: pesticidas "catastróficos"
O Parlamento francês aprovou uma polémica lei agrícola que reintroduz dois pesticidas que, segundo os críticos, prejudicam as abelhas.
A legislação confere à agência francesa de segurança sanitária, a Anses, poderes para autorizar condicionalmente a utilização de acetamiprid e flupyradifurone.
Estes pesticidas são autorizados na União Europeia, mas cada país pode limitar a sua utilização.
Os defensores da medida afirmam que os produtores franceses de beterraba-sacarina, maçã e avelã precisam destes insecticidas para conseguirem competir com os seus homólogos europeus. Os insecticidas foram proibidos em França em 2018 e 2019.
Embora a investigação tenha concluído que o acetamiprid pode envenenar abelhas-do-mel, afetando a sua capacidade de procura de alimento e a memória, um estudo de 2024 sugeriu que o flupyradifurone pode ser letal para algumas delas.
"Em 2016, França decidiu proibir o acetamiprid em nome do princípio da precaução, com base nas provas científicas disponíveis na altura", afirmou Barbut.
"Dez anos depois, longe de dissipar as preocupações, os estudos científicos continuam a suscitar dúvidas sobre os seus efeitos na saúde humana e no ambiente."
A Pesticide Action Network Europe tem há muito vindo a defender a proibição do acetamiprid, não só devido aos seus impactos nas abelhas como também nos seres humanos: "novas evidências científicas mostram que neonicotinóides como o acetamiprid podem favorecer o cancro da mama, devido às suas propriedades de desregulação endócrina, e podem conduzir à infertilidade.Também podem afetar o nosso cérebro.
Os neonicotinóides atravessam a barreira placentária e a barreira hematoencefálica, colocando em risco as crianças ainda por nascer.
"O acetamiprid foi detetado em cordões umbilicais, leite materno e até no líquido cefalorraquidiano de crianças. Foi demonstrado que se concentra em níveis elevados no cérebro de fetos de ratos quando as mães são expostas."
O flupyradifurone foi aprovado em 2015 e foi "apresentado pelo fabricante Bayer como uma alternativa a outros neonicotinóides, mais tóxicos para as abelhas. Mas acaba por ser velho vinho em garrafa nova, já que, na prática, pode ser considerado apenas mais um neonicotinóide", segundo a Pesticide Action Network Europe.
Como passaram acetamiprid e flupyradifurone no Parlamento francês?
A votação teve lugar depois de o Conselho Constitucional, o mais alto tribunal francês, ter anulado no ano passado uma disposição de outro projeto de lei que tentava reintroduzir o acetamiprid, alegando que representava riscos para a saúde humana, após mais de dois milhões de pessoas terem assinado uma petição contra a medida.
A maioria dos deputados de esquerda na câmara baixa votou contra a reintrodução dos dois pesticidas, mas o apoio da extrema-direita e de muitos centristas permitiu a aprovação do texto.
A esquerda afirmou que recorrerá ao Conselho Constitucional se o Senado aprovar a medida.
Espera-se que a esquerda envie o dossier para o Conselho Constitucional, e o deputado ecologista Daniel Salmon criticou "uma fuga para a frente irresponsável e destruidora, com medidas complacentes que negam as provas científicas".
Já o senador centrista Franck Ménonville descreve o texto como uma resposta "à hipocrisia de produzir menos em França para importar cada vez mais produtos que não respeitam as nossas normas".
"O governo e os seus aliados estão a atropelar a ciência, a saúde, o ambiente e a vontade do povo", afirmou a Greenpeace depois de a Assembleia Nacional ter aprovado o projeto de lei.
Henri Clement, da União Nacional da Apicultura Francesa, disse ao meio regional Ici Gard Lozère que a medida é "absolutamente catastrófica".
A ministra da Agricultura, Annie Genevard, tem defendido o projeto de lei como necessário para responder ao descontentamento dos agricultores após os protestos deste inverno.
Sublinhou que as autoridades de saúde só irão aprovar o uso dos pesticidas em determinadas zonas e por períodos limitados, "na condição de não haver impacto na saúde humana nem no ambiente, existir uma situação de emergência" e "não haver alternativa".