O GasLog Shanghai foi atingido ao sair do Estreito de Ormuz, semanas depois de o Al Rekayyat ter sido atingido na mesma zona.
Este foi o segundo ataque em menos de um mês a atingir um navio-tanque de gás natural liquefeito (GNL), carregado no Qatar, no Estreito de Ormuz, numa altura em que as entregas da QatarEnergy sob força maior se prolongaram e os prémios de seguro aumentaram.
Os Serviços de Operações Marítimas do Reino Unido (UKMTO) anunciaram que um navio não identificado foi atingido por um projétil ao largo da costa de Omã. As empresas de consultoria de segurança Vanguard Tech e Marisks identificaram o navio como sendo o GasLog Shanghai.
A GasLog confirmou que o incidente ocorreu na última sexta-feira, quando o navio saía do estreito, e indicou que toda a tripulação se encontrava em segurança e a bordo, e que o navio-tanque permanecia estável.
O GasLog Shanghai carregou a sua carga no Qatar na segunda-feira passada e deixou de transmitir a sua posição quando se encontrava perto da entrada ocidental do estreito, na sexta-feira.
Continua a não ser claro quem era o proprietário do GNL a bordo. A QatarEnergy não respondeu de imediato às questões sobre a carga nem sobre se o incidente afetou as expedições.
A GasLog é uma empresa de transporte de GNL, sediada no Mónaco, que gere navios para a QatarEnergy e outros grandes produtores de gás.
Qatar enfrenta forte retrocesso
O Estreito de Ormuz é a única rota marítima do Qatar para os mercados internacionais de GNL. O país é o segundo maior exportador mundial de GNL, atrás apenas da Austrália, enviando cerca de 77 milhões de toneladas por ano. Quase todo este volume passa pelo Estreito de Ormuz.
A 7 de julho, o Al Rekayyat, um navio-tanque de GNL de bandeira qatari, foi atingido perto do estreito, o que levou a uma pausa de três semanas nas exportações de GNL do Qatar por esta via marítima.
Jean-Christian Heintz, diretor-geral da empresa suíça de consultoria Wideangle LNG, especializada em GNL, afirmou que este segundo incidente representa um retrocesso significativo.
"Este é um golpe na perseverança do Qatar em mitigar os efeitos da crise", declarou Heintz à Euronews.
Segundo o mesmo responsável, a QatarEnergy enfrenta o mesmo risco, quer utilize a sua própria frota, quer recorra a transportadores terceiros. "Mesmo que a QatarEnergy possa escolher entre navios da sua frota e navios de terceiros, a avaliação do risco pode não ser diferente", explicou.
De acordo com o mesmo responsável, recorrer a transportadores terceiros não reduziria necessariamente o risco que pesa sobre os envios de GNL do Qatar.
"Este é um golpe na perseverança do Qatar em mitigar os efeitos da crise", declarou Heintz à Euronews.
"Mesmo que a QatarEnergy possa escolher entre navios da sua frota e navios de terceiros, a avaliação do risco pode não ser diferente."
O incidente com o GasLog Shanghai ocorreu poucos dias após um drone ter atingido o navio Energos Winter no porto egípcio de Damietta, provocando um incêndio que se alastrou a outro navio gerido pela GasLog, o GasLog Salem. Nenhum grupo reivindicou a responsabilidade pelo ataque em Damietta.
QatarEnergy mantém força maior
A QatarEnergy tem vindo a invocar cláusulas de força maior em alguns contratos desde março, altura em que ataques iranianos contra o complexo industrial de Ras Laffan e o subsequente encerramento do Estreito de Ormuz perturbaram a produção e o transporte.
O complexo de Ras Laffan, que a QatarEnergy descreve como a maior instalação de produção de GNL (gás natural liquefeito) do mundo, concentra a maior parte da capacidade de exportação do Qatar. Duas das suas linhas de produção foram danificadas nos ataques de março.
A empresa italiana de energia Edison foi informada pela QatarEnergy de que mais três carregamentos de GNL não seriam entregues, o que prolonga a aplicação da força maior aos fornecimentos à empresa até ao fim de setembro.
No total, 24 carregamentos previstos para entrega à Edison entre abril e o final de setembro, que representam cerca de três mil milhões de metros cúbicos de gás natural, passaram a estar abrangidos por esta cláusula.
A Edison afirmou já ter substituído 17 dos carregamentos afetados e continuar em condições de cumprir os compromissos assumidos com os clientes. A empresa tem um acordo de fornecimento de 25 anos com a QatarEnergy, assinado em 2009, que abrange 6,4 mil milhões de metros cúbicos por ano.
Heintz considerou haver poucos motivos para a QatarEnergy levantar a força maior enquanto a situação de segurança não estiver resolvida.
Segundo o mesmo, cada novo incidente está a levar armadores, operadores de carga e seguradoras a reavaliar o custo de transitar pelo Estreito de Ormuz. "Os prémios de seguro, tanto dos navios como das cargas que transportam, só podem aumentar a partir deste ponto", explicou.
Embora os mercados globais de gás já se tivessem ajustado de forma significativa à perturbação, Heintz concluiu que os incidentes mais recentes, combinados com uma forte procura europeia para encher as reservas antes do inverno, são "claramente favoráveis à subida dos preços".