Trump encontrou-se com Kim três vezes durante o primeiro mandato e chegou a dizer que estavam “apaixonados”, em cimeiras de alto nível destinadas a conseguir um acordo de desnuclearização, mas não houve progressos concretos.
Uma cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte é vista como possível “a qualquer momento”, depois de surgirem sinais de diálogo entre as duas partes, afirmou esta terça-feira um deputado, citando os serviços secretos sul-coreanos.
O presidente norte-americano, Donald Trump, disse no mês passado que planeia voltar a encontrar-se com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, mas a resposta pública de Pyongyang tem sido sobretudo discreta e os analistas mostraram-se cépticos quanto à possibilidade de conversações iminentes.
“Relativamente à cimeira Coreia do Norte–Estados Unidos, foi apresentada uma análise segundo a qual deve ser considerada possível a qualquer momento”, disse aos jornalistas o deputado sul-coreano Youn Kun-young, citando um briefing do Serviço Nacional de Informações.
“Foi referido que, embora não tenham sido apresentados factos sobre contactos concretos entre as duas partes, há sinais de diálogo”, acrescentou.
Na expectativa de recuperar a relação que afirma ter com Kim, Trump disse também em agosto que era importante “dar-se bem” com o líder norte-coreano, acrescentando que Pyongyang dispõe agora de 57 armas nucleares “muito poderosas”.
Desde então, o Norte afirmou que Kim guarda “boas recordações e sentimentos” em relação a Trump e que a relação entre os dois líderes permanece “excelente”, mas não respondeu de forma clara aos apelos do presidente dos Estados Unidos.
As declarações de Trump a sugerir um novo encontro coincidiram com a decisão de Washington de reduzir os exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul, em agosto.
A decisão alarmou os aliados asiáticos de Washington e alimentou especulações de que procurava uma vitória na política externa numa altura em que a guerra no Irão está num impasse.
Mísseis balísticos
Horas depois das declarações de Trump em agosto, sublinhando que era importante entender-se com Kim, a Coreia do Norte lançou mais de dez mísseis balísticos de curto alcance a partir da área de Pyongyang.
Pouco depois, Kim Yo-jong, influente irmã do líder norte-coreano, afirmou que a decisão de Trump de reduzir os exercícios com a Coreia do Sul era o “castigo” de Seul.
Outros exercícios navais, previstos para começar a 7 de setembro entre os Estados Unidos e os aliados Coreia do Sul e Japão, também suscitaram uma resposta veemente de Pyongyang.
Yang Moo-jin, antigo presidente da Universidade de Estudos Norte-Coreanos, observou que, com o apoio de Moscovo, Pyongyang parece ter pouca motivação para procurar conversações com os Estados Unidos.
“Do ponto de vista da Coreia do Norte, sendo um dos principais beneficiários da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e do agravamento da confrontação que opõe, por um lado, a Coreia do Sul, os Estados Unidos e o Japão e, por outro, a Coreia do Norte, a China e a Rússia, parece haver pouco incentivo para o diálogo”, acrescentou.
Durante o primeiro mandato, Trump encontrou-se três vezes com Kim, chegando a declarar uma vez que estavam “apaixonados”, em cimeiras de grande visibilidade destinadas a alcançar um acordo de desnuclearização, mas sem progressos concretos.
Em outubro de 2025, Trump chegou mesmo a contrariar décadas de política dos Estados Unidos ao afirmar que a Coreia do Norte era “uma espécie de potência nuclear”.
Mas a declaração de Trump na altura, de que estava “100 por cento” disponível para voltar a reunir-se com Kim, não teve resposta.
A China, principal rival geopolítico de Washington, tem sido também um importante parceiro comercial da Coreia do Norte e uma fonte essencial de apoio diplomático e económico para o país, alvo de múltiplas sanções internacionais.
De linha moderada, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung tem procurado o envolvimento com o Norte desde que tomou posse, em junho de 2025, em contraste com o seu antecessor, Yoon Suk-yeol, de linha dura.
Mas Pyongyang rejeitou as suas iniciativas, classificando Seul como o seu inimigo “mais hostil” e declarando-se um Estado nuclear “irreversível”.