Argélia rompe relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos e proíbe aeronaves civis e militares dos EAU no seu espaço aéreo, alegando “atos provocatórios e hostis”. Voos comerciais para Argel ficam isentos até ao final de 2026.
A Argélia encerrou o seu espaço aéreo a aeronaves civis e militares registadas nos Emirados Árabes Unidos, depois de ter cortado, na quinta-feira, relações diplomáticas com o país do Golfo, após anos de tensão.
Num comunicado em que anunciava a rutura de relações diplomáticas, Argel acusou o país do Golfo de “atos provocatórios e hostis”, embora o catalisador exato da súbita rutura permanecesse por esclarecer.
O ministério da Defesa argelino anunciou que a proibição de sobrevoo dirigida a aeronaves dos Emirados entra em vigor na sexta-feira, com exceção dos voos comerciais de e para o aeroporto de Argel, que poderão continuar a operar até ao final de 2026.
Na quinta-feira, Argel deu ao embaixador dos Emirados 48 horas “para cumprir a decisão” e deixar o país.
O ministério dos Negócios Estrangeiros argelino afirmou que a medida foi tomada “depois de esgotadas todas as vias para preservar as relações bilaterais” com os Emirados, sublinhando que já tinha dirigido múltiplos avisos a Abu Dhabi.
“A Argélia não poupou esforços para chamar a atenção das autoridades dos Emirados e as alertar para as graves consequências que poderiam resultar da sua conduta lamentável e injustificada”, afirmou o ministério, acrescentando que os Emirados “persistiram nas suas ações, até ao ponto de estas deixarem de poder ser consideradas aceitáveis ou toleráveis”.
As autoridades dos Emirados manifestaram pesar pela decisão, afirmando, através do ministério dos Negócios Estrangeiros, esperar que a medida seja temporária, de forma a manter os “laços fraternais” com a Argélia.
“Onde quer que ponham os pés, corre sangue”
O presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune, tem referido frequentemente os Emirados como um “micro-Estado” que procura desestabilizar países da região, apontando explicitamente os conflitos na Líbia, no Mali e no Sudão.
Numa entrevista televisiva em julho, Tebboune fez uma crítica contundente a Abu Dhabi, afirmando que “onde quer que ponham os pés, corre sangue”.
“Queremos que se mantenham afastados, para que o sangue não corra no nosso país”, acrescentou Tebboune, assinalando na altura que uma rutura diplomática “já teria acontecido há muito” se Argel não tivesse procurado evitar “aprofundar as divisões” no mundo árabe.
As tensões entre os dois países foram alimentadas por vários desenvolvimentos nos últimos anos, em particular porque a Argélia via a interferência dos Emirados nos assuntos do Norte de África e do Sahel como contrária aos seus princípios de política externa e uma ameaça indireta à segurança argelina.
Outras divergências entre Argel e Abu Dhabi resultam também de políticas diplomáticas distintas, incluindo a normalização das relações dos Emirados com Israel em 2020.