Após o incidente com um navio de guerra russo no mar Báltico, o vice-almirante Thomas Daum explica como a Bundeswehr vigia atividades russas e porque continuará a usar navios de reconhecimento.
Um helicóptero dinamarquês fotografa um navio de guerra russo no mar Báltico – de repente são disparados dois sinalizadores na direção do aparelho. Um deles passa a escassos metros da aeronave. Dinamarca fala de um incidente “totalmente inaceitável”, a Rússia, por seu lado, acusa os dinamarqueses de manobras perigosas.
É exatamente o tipo de situação para a qual a Bundeswehr precisa dos seus novos navios de serviço da frota. O início da construção do primeiro destes novos navios foi agora assinalado com uma cerimónia no estaleiro naval Peene, em Wolgast. Os navios de serviço da frota permitem detetar o que se move no mar e em terra e que atividades militares estão a decorrer.
O vice-almirante Thomas Daum, inspetor do Espaço Cibernético e da Informação da Bundeswehr (CIR), explica em entrevista à Euronews o que podem fazer os novos navios e por que razão, mesmo na era dos satélites, continuam a ser necessários navios de reconhecimento.
Euronews: Qual é a importância destes navios para a Bundeswehr? Para que são necessários?
Vice-almirante Daum: São navios de reconhecimento e o próprio ministro já usou a expressão: “Somos os olhos e os ouvidos das forças armadas”, e é assim que se deve enquadrar este navio.
Ser olhos e ouvidos significa que temos de escutar, observar, identificar. Como se movimenta o adversário? Onde é que instalou novas posições, por exemplo baterias antiaéreas? Que novos equipamentos tem, que ainda não conhecemos? Tudo isso pode ser detetado por uma unidade de reconhecimento deste tipo, e o cenário marítimo é tão importante como qualquer outro. Importa saber o que acontece no mar, mas também aproveitar o alcance destes navios em direção à costa, ao interior, para recolher informações. Com estes navios é possível obter um volume muito significativo de dados.
Para isso existem satélites. Porque é que ainda são precisos estes navios? Qual é a diferença?
Com um satélite há sempre, inevitavelmente, uma passagem sobre a área e obtém-se, por assim dizer, uma “pegada” no solo que o satélite consegue captar.
Isso é naturalmente importante, sobretudo para a análise de imagens. No futuro será também relevante na área do reconhecimento baseado na captação de sinais.
Mas um navio que permanece estabilizado na zona, com uma grande capacidade de receção em largura e em profundidade, só conseguiríamos reproduzi-lo com um número muito elevado de satélites. Naturalmente queremos investir também na componente de reconhecimento via satélite, mas isso depende do tempo necessário até lá chegarmos. Por isso, neste momento, o volume e a profundidade da informação que estes navios proporcionam continuam a ser extremamente úteis.
As capacidades de que já dispomos são suficientes? Este navio ainda vai ser construído, está previsto um quarto. Qual é a situação atual? Quer dizer, neste momento não temos olhos nem ouvidos?
Temos, sim. Dispomos de três navios de serviço da frota da classe 423, o modelo anterior, por assim dizer. Já estão há muitos anos em operação, estão numa fase em que se pode dizer que começam a estar prontos para a reforma. Têm de ser retirados do serviço ativo.
O essencial é que, do ponto de vista do casco, estes navios envelheceram. Têm mastros muito altos para suportar as antenas, o centro de gravidade deslocou-se para cima, o comportamento em mar agitado já não é o ideal. Estamos a falar do corpo do navio.
Dentro desse casco existe o chamado ‘Messdeck’. É a central de reconhecimento, que fomos atualizando e modernizando ao longo da vida útil do navio. O que ali está instalado é de grande qualidade e, pode quase dizer-se, será adaptado para o novo modelo.
Porque corresponde ao estado atual da técnica. Assim, continuamos a ter três conjuntos de olhos e ouvidos deste tipo, os navios estão num elevado nível tecnológico e vamos agora ter a substituição pela classe 424, um navio de maior dimensão, com capacidade de operação global, em todas as zonas climáticas. Esse será o novo passo.
Estes navios não deveriam ser usados, antes de mais, também no mar Báltico? Os russos fazem navegar ali os seus navios, mantêm uma ‘frota sombra’, chamam frequentemente a atenção e mostram presença. Que papel poderão desempenhar ali estes navios no futuro?
Vão fazer o mesmo que já fazem atualmente os nossos navios de serviço da frota no mar Báltico: recolhem informação. Habitualmente temos um ou dois navios em operação, que constroem o quadro da situação nas áreas marítimas da região e, naturalmente, são destacados para a zona central do mar Báltico.
A partir daí têm uma cobertura ótima sobre o que se passa no mar e em direção à costa, e é isso que já fazemos. Essa será, naturalmente, também uma área de operações para os novos navios de serviço da frota.
Sabemos o que estão a fazer os russos naquela zona?
Acompanhamos de forma muito atenta o que ali acontece. Fazemos reconhecimento, recebemos um volume muito grande de informações.
Naturalmente, aquilo que recebemos é analisado e tratado, e o resultado acaba, claro, por levar um pequeno carimbo: por cima está escrito “secreto”. Nesse contexto, só posso dizer que temos muitos conhecimentos, que são muito úteis. Sobre isso não posso dar detalhes.