Os preços do petróleo continuam a subir, embora mais lentamente, num quinto dia de guerra entre EUA, Israel e o Irão, mantendo-se o receio quanto à segurança do estreito de Ormuz, artéria crucial do abastecimento energético mundial.
Os preços internacionais do petróleo continuam a subir, embora a um ritmo mais moderado do que os fortes aumentos de 5 a 8% dos últimos dias, numa altura em que os mercados se preparam para um possível choque energético decorrente da crise no Médio Oriente.
Ao meio-dia de quarta-feira, o crude WTI ganhava 2,7% e era negociado em torno dos 75 dólares por barril, enquanto o Brent subia mais de 3%, oscilando entre 83 e 89 dólares por barril.
Os preços do gás natural interromperam a recente subida acentuada esta quarta-feira, com os futuros TTF neerlandeses, referência na Europa, a recuarem para mínimos em torno de 50 euros por megawatt-hora, uma queda de 2%, depois de terem chegado a tocar nos 56 €/MWh.
Esta correção sucede a um episódio de volatilidade excecional, em que as cotações quase duplicaram em 48 horas.
A escalada foi alimentada por receios em torno do abastecimento de gás natural liquefeito (GNL), depois de a produção no Qatar ter sido interrompida na sequência de alegados ataques a infraestruturas energéticas, aumentando os temores de uma oferta global mais limitada e de nova pressão sobre os mercados europeus.
Apesar de as cotações terem recuado ligeiramente, mantêm-se muito acima dos níveis anteriores ao início do conflito, evidenciando a sensibilidade do mercado a perturbações geopolíticas.
Após o lançamento da Operação Fúria Épica, uma campanha coordenada entre Estados Unidos e Israel contra a liderança iraniana e a infraestrutura nuclear, o Estreito de Ormuz, ponto de passagem estratégico por onde transita cerca de um quinto do petróleo e do GNL transportados por mar a nível mundial, tornou-se praticamente uma zona interditada à navegação.
O Irão controla o estreito canal que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e as passagens pela via marítima caíram acentuadamente desde o início dos ataques coordenados, no sábado, 28 de fevereiro.
Vários petroleiros terão sido atingidos por projéteis nas imediações do estreito, o que afasta ainda mais os armadores da hipótese de atravessar a zona.
As passagens de petroleiros de crude pelo Estreito de Ormuz caíram para quatro navios no domingo, 1 de março, face a uma média de 24 por dia desde janeiro, segundo a empresa de análise de mercados de energia Vortexa. Três dos quatro navios hasteavam pavilhão iraniano.
Dados da Lloyd’s List Intelligence indicam que cerca de 200 petroleiros de crude e de produtos refinados que operam em rotas internacionais estão, na prática, retidos no Golfo, numa altura em que o estreito se tornou extremamente perigoso para navegar.
Na terça-feira, Donald Trump afirmou ter ordenado à US International Development Finance Corporation que disponibilizasse seguros contra riscos políticos e garantias financeiras para o comércio marítimo.
“Se necessário, a Marinha dos Estados Unidos começará a escoltar petroleiros através do Estreito de Ormuz o mais depressa possível”, declarou Trump numa mensagem divulgada pela Casa Branca na rede X.
Apesar disso, a subida constante dos preços indica que a promessa do presidente pouco fez para acalmar os mercados.
“As garantias de Trump de que os Estados Unidos irão assumir os seguros de transporte marítimo contra riscos de conflito no Médio Oriente, e até fornecer escoltas navais, apenas mitigam, mas não eliminam, os persistentes riscos de alta para os preços do petróleo”, afirmou o Mizuho Bank numa nota.
O banco acrescentou que o aumento dos custos de seguro poderá acrescentar entre 5 e 15 dólares por barril, o que significa que o “prémio de guerra” continua bem presente.
Implicações globais da crise no Médio Oriente
O receio de uma escalada do conflito, que Trump admitiu poder prolongar-se por um mês ou mais, tem perturbado os mercados globais e alimentado preocupações de que aumentos prolongados dos preços da energia acabem por penalizar o crescimento económico e os lucros empresariais.
“Creio que a situação com o Irão está a fugir ao controlo e que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cometeu um enorme erro de cálculo”, afirmou Francis Lun, presidente executivo da Venturesmart Asia.
“A situação é muito sombria.”
Entretanto, esta quarta-feira, o Goldman Sachs reviu em alta a sua previsão para o preço do petróleo no segundo trimestre.
O banco espera agora que o Brent, referência internacional, atinja em média mais 10 dólares do que o estimado anteriormente, para 76 dólares por barril, no segundo trimestre de 2026. A previsão para o WTI sobe 9 dólares, para 71 dólares.
Esta projeção assenta no cenário de mais cinco dias de exportações muito reduzidas através do Estreito de Ormuz, seguindo-se uma recuperação gradual ao longo do mês seguinte. No entanto, o banco alertou que, se a perturbação no estreito se prolongar por cinco semanas, o preço do barril de petróleo poderá aproximar-se dos 100 dólares.
A manutenção de preços elevados do petróleo está a pôr em causa a estratégia de taxas de juro dos principais bancos centrais, incluindo a Reserva Federal, já que a energia mais cara alimenta a inflação e reduz a margem para cortes de juros nos próximos meses.