As subidas da Euribor começam a ter impacto na prestação do crédito à habitação, num momento em que se regista um número recorde destes empréstimos. Enquanto o BCE não aumentar as taxas diretoras, as famílias devem procurar renegociar os seus empréstimos e implementar uma taxa fixa.
A prestação da casa está a subir e os primeiros aumentos podem afetar algumas famílias já a partir do mês de abril. É o resultado das respostas dos mercados ao conflito no Médio Oriente, nomeadamente as subidas dos últimos dias nas taxas Euribor, que já começam a refletir uma tendência de aumento após os primeiros ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão.
"Antes do dia do conflito, estávamos numa fase em que a Euribor até estava a descer ligeiramente, mas, claramente, houve uma inversão após o início da guerra”, explica Nuno Rico, economista da DECO PROteste. Com a Euribor a seis e 12 meses ambas acima dos 2,5%, são esperados aumentos na casa dos 15 euros nas prestações cujos créditos são revistos em abril.
“No cenário de um financiamento de 150 mil euros a 30 anos, com um spread de 1%, estamos a falar de um agravamento que, no caso da Euribor, de 6 meses, a mais utilizada nos contratos em Portugal, irá rondar cerca dos 15 euros, e no caso da Euribor, de 12 meses, o segundo indexante mais utilizado, estaremos a falar de um agravamento perto dos 10 euros na prestação mensal”, indica o economista à Euronews. "Em termos de valores diários, estamos a falar de um aumento, por exemplo, que já ultrapassa os 20% no caso da Euribor, 12 meses, só nos valores diários", explica. Apesar do aumento, é preciso salientar que tal só acontece para os contratos revistos em abril.
Numa altura em que tudo aumentou, desde o carro do supermercado até ao combustível na bomba, mais uma despesa extra no orçamento familiar pode ter impactos significativos. Para Nuno Rico, o tempo de atuar "é já".
“Por isso, o momento de atuar é já. Verificar se há a possibilidade de passarem para uma taxa mista, com uma fixação até 2 anos, porque existem valores neste momento a rondar o mesmo que está atualmente com o média da Euribor, mais os melhores spreads, e se fizerem isto, têm, pelo menos, salvaguardado o orçamento familiar destas turbulências nos próximos tempos”, explica.
Crédito habitação atinge recorde em Portugal
Apesar de o BCE ter mantido ataxa de juro de referência nos 2%, o cenário pode mudar, principalmente se o conflito se mantiver.
"Se a guerra continuar durante o mês de abril, eu poderia arriscar que é quase inevitável que o BCE possa ser já forçado a subir a taxa direta na reunião no final de abril", indica Nuno Rico.
Isto significa mais uma dor de cabeça para as famílias, principalmente aquelas que recorreram ao crédito habitação mais recentemente, impactadas também pelo aumento dos preços da habitação e da consequente taxa de esforço para conseguir comprar um imóvel.
"Os novos contratos têm aqui uma questão que é importante salientar. Em média, o nível de endividamento é muito superior àquilo que era a média dos contratos em vigor, porque o preço dos imóveis está muito elevado e as famílias estão a ser forçadas a contratar elevados níveis de crédito para conseguir adquirir os imóveis" explica o economista. "Só para ter aqui uma noção, os contratos mais recentes estão cerca de 120% acima da média dos contratos ativos. Ou seja, é mais do dobro o valor médio que é pedido em relação àquilo que está em dívida."
De acordo com números do Banco de Portugal, os empréstimos para habitação atingiram os 112,4 mil milhões de euros no final de fevereiro, refletindo uma tendência de crescimento de 10,4 por cento em relação ao mesmo mês do ano passado. Esta é a mesma taxa de crescimento atingida durante o mês de janeiro, prolongando a trajetória de aceleração observada desde janeiro de 2024. Segundo o Banco de Portugal, esta é a a maior taxa de crescimento anual desde fevereiro de 2006.
Os pedidos de crédito habitação tem sido impulsionados pela descida nas taxas de juro nos últimos dois anos, mas também a linha de garantia pública lançada pelo Governo no início do ano passado, impulsionando o crédito junto dos jovens. Mas dado o valor das casas, o esforço é também maior, e as potenciais consequências de uma eventual subida das taxas de juro, também.
"Isto preocupa-nos, porque havendo um maior nível de endividamento, maior será o impacto sentido. Quando nós falamos de um crédito acima dos 200 mil euros, a taxa de juros subir cerca de 1%, estamos a falar de cerca de 450 euros de aumento na prestação mensal."
Guerra na Ucrânia: devemos temer subida dos juros semelhante à de 2022?
Apesar do cenário cauteloso promovido pelo BCE ao não elevar já as taxas diretoras, mantém-se os receios de novas subidas vertiginosas nas prestações do crédito habitação, num cenário semelhante ao vivo por altura da guerra na Ucrânia.
O governador do banco de Portugal disse na quarta-feira que não "faz sentido especular"sobre as taxas de juro, garantindo que a atual situação é melhor do que aquela vivida em 2022.
“Estamos claramente numa situação melhor do que estávamos em 2022. Em 2022, a inflação na União Europeia já rondava cerca de 5%. (…) E, neste momento, estamos com a inflação a rondar 2%. Portanto, partimos de uma situação muito diferente”, sublinhou Álvaro Santos Pereira, citado pelo Eco.
A questão chave, prende-se com a duração do conflito em curso.
"As prestações médias em Portugal em 2022 agravaram 80% em apenas um ano. Ainda não estamos nesse cenário atualmente, mas é possível, se continuar esta guerra por mais semanas ou até meses, que possamos voltar a ter uma situação parecida", explica Nuno Rico.
"Com o alastrar no tempo e principalmente com os impactos que irá ter a nível da inflação desta subida da energia, certamente poderemos depois chegar a uma situação semelhante àquilo que aconteceu com a guerra da Ucrânia. Devo recordar que durante o ano de 2022, nós passámos de taxas juros negativas, que também era um cenário que não era normal, para uma taxa de juros de aproximadamente 4% em pouco mais de um ano", explicou.