As ações de computação quântica dispararam após a administração Trump prometer 2 mil milhões de dólares em apoio federal. A IBM, maior beneficiária, viu os títulos subirem mais de 12% e ganhar 27 mil milhões de dólares em valor de mercado
Ações da IBM dispararam esta quinta-feira depois de a administração Trump anunciar um programa federal de investimento superior a 2 mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) dirigido a empresas de computação quântica, decisão que desencadeou uma forte subida em todo o setor.
O pacote de financiamento, inserido na iniciativa CHIPS Act e centrado na computação quântica e na produção em território norte‑americano, vai atribuir mil milhões de dólares (861 milhões de euros) à IBM para construir uma fundição destinada à produção de chips para computação quântica. A medida integra uma estratégia mais ampla para reforçar a liderança dos Estados Unidos na indústria quântica.
A outra metade do incentivo federal será distribuída por oito empresas quânticas, incluindo a GlobalFoundries, que recebeu 375 milhões de dólares (322 milhões de euros). A maioria das restantes empresas foi associada a apoios propostos de cerca de 100 milhões de dólares (86 milhões de euros) cada, entre as quais D-Wave Quantum, Rigetti Computing, Infleqtion, Quantinuum, PsiQuantum, Atom Computing e Diraq, que deverá receber até 38 milhões de dólares (32,7 milhões de euros).
Em contrapartida, o governo federal norte‑americano ficará com participações acionistas de diferentes dimensões em todas as empresas referidas, numa lógica semelhante a investimentos públicos já realizados pela administração Trump, como os efetuados na Intel no verão passado.
As ações das empresas cotadas incluídas na lista valorizaram de forma expressiva com o anúncio. A IBM ganhou mais de 12%, acrescentando mais de 27 mil milhões de dólares (23,2 mil milhões de euros) à capitalização bolsista, um montante equivalente, em termos aproximados, ao valor de mercado da Adidas.
Outros grandes beneficiários entre as empresas cotadas foram a Rigetti Computing, a D-Wave e a Infleqtion, cujos títulos subiram mais de 30%, à medida que os investidores correram às ações ligadas à computação quântica após a divulgação do apoio público.
Passo decisivo na corrida global à computação quântica?
Ao abrigo do acordo com o Departamento do Comércio dos Estados Unidos, a IBM vai criar uma empresa independente, chamada Anderon, que será “a primeira fundição norte‑americana dedicada em exclusivo à computação quântica”, segundo o comunicado da tecnológica.
Sediada em Albany, no estado de Nova Iorque, a nova empresa deverá produzir em larga escala wafers quânticos avançados.
“Esta iniciativa representa um dos compromissos mais significativos até à data por parte do Governo dos EUA em investigação e desenvolvimento quânticos, para colocar o país em posição de fabricar a maioria dos wafers quânticos a nível mundial”, afirmou a IBM no mesmo comunicado.
A IBM anunciou ainda planos para investir mais mil milhões de dólares (861 milhões de euros) de capitais próprios neste projeto.
Apostar no potencial económico e estratégico da computação quântica
A computação quântica é amplamente vista como uma das próximas grandes fronteiras tecnológicas, devido ao potencial para executar determinados cálculos de forma muito mais rápida do que os computadores tradicionais. De acordo com o Boston Consulting Group (BCG), a indústria quântica poderá gerar até 850 mil milhões de dólares (732 mil milhões de euros) em valor económico global até 2040.
Bill Frauenhofer, diretor executivo para Investimento e Inovação em Semicondutores no Departamento do Comércio dos EUA, afirmou no comunicado da IBM: “A computação quântica tem implicações significativas para a defesa nacional, materiais avançados e descoberta biofarmacêutica, modelização financeira e sistemas energéticos.”
Os defensores desta tecnologia consideram que a computação quântica poderá acelerar a descoberta de novos medicamentos, otimizar cadeias de abastecimento e melhorar o treino de sistemas avançados de inteligência artificial.
Em paralelo, uma das maiores preocupações estratégicas é a encriptação, uma vez que os computadores quânticos poderão tornar‑se suficientemente poderosos para quebrar alguns dos sistemas criptográficos atualmente usados para proteger redes bancárias, comunicações e infraestruturas governamentais.
A Europa desenvolveu várias empresas de destaque na área da tecnologia quântica, mas os níveis de financiamento permanecem muito abaixo da escala que começa agora a surgir nos Estados Unidos e na China.
A finlandesa IQM Quantum Computers angariou mais de 200 milhões de euros através de investimento privado e apoio público, enquanto a francesa Pasqal assegurou cerca de 140 milhões de euros em financiamento.
A britânica Oxford Quantum Circuits também captou capitais superiores a 100 milhões de libras (115,6 milhões de euros), segundo dados da própria empresa.
A União Europeia tem investido fortemente em investigação quântica através de programas como a iniciativa Quantum Flagship, mas vários analistas têm sublinhado que o ecossistema empresarial europeu continua fragmentado, em comparação com as estratégias mais centralizadas adotadas pelos Estados Unidos e pela China.
O mais recente pacote de investimento norte‑americano poderá aumentar a pressão sobre os governos europeus para reforçarem o apoio às empresas quânticas nacionais, à medida que a concorrência global se intensifica.