Fabricante austríaco de chips dispara 459% este ano, tornando a bolsa de Viena, dominada por bancos, numa das mais fortes da zona euro em 2026
Durante anos, o mercado acionista austríaco foi visto sobretudo como uma aposta na banca, com a energética OMV a oferecer uma das poucas grandes exposições industriais.
Em 2026, a bolsa de Viena transformou-se num dos mercados acionistas com melhor desempenho na Europa.
O principal motor desse desempenho não é um banco nem uma petrolífera, mas sim um fornecedor de semicondutores sediado na cidade estíria de Leoben, com cerca de 24 000 habitantes.
Desde o início de janeiro, o índice de referência austríaco ATX avançou 21,3%, segundo a Trading Economics.
Nenhum grande mercado acionista da zona euro teve melhor evolução. O FTSE MIB italiano subiu 16,1%, o AEX neerlandês ganhou 15,5% e o IBEX 35 espanhol avançou 11,5%.
O DAX alemão está apenas 1,6% acima, enquanto o CAC 40 francês ganhou 2,3%.
O Euro Stoxx 50, que acompanha muitas das maiores empresas cotadas da zona euro, avançou 8,2%, menos de metade do retorno proporcionado pelo índice de referência austríaco.
Áustria: empresa pouco conhecida alimenta a subida bolsista
O ATX inclui apenas 20 empresas de primeira linha e tem sido tradicionalmente dominado por bancos, grupos industriais e outros negócios cíclicos.
À primeira vista, pouco indicava que pudesse superar mercados com setores tecnológicos muito mais amplos.
A explicação torna-se evidente quando se analisa o maior vencedor do índice.
A AT&S, oficialmente designada Austria Technologie & Systemtechnik AG, tornou-se este ano um dos títulos em maior destaque na Europa.
As ações dispararam 459% desde a primeira sessão do ano, passando de 32,20 euros no fim de dezembro para 174 euros nesta quinta-feira.
A capitalização bolsista da empresa aumentou de cerca de 1,25 mil milhões de euros para cerca de 7 mil milhões em pouco mais de seis meses.
É um desempenho superior ao de várias conhecidas empresas de semicondutores associadas ao boom da inteligência artificial, como a Micron Technology, a Intel, a AMD e a Marvell.
Apesar desta subida impressionante, a AT&S continua em grande medida desconhecida fora da indústria dos semicondutores, porque fabrica um componente que os consumidores nunca chegam a ver.
O que produz afinal a AT&S
A AT&S especializa-se em substratos de circuitos integrados, um dos componentes mais críticos nos conjuntos avançados de semicondutores.
Os processadores modernos de inteligência artificial não podem ser simplesmente montados diretamente numa placa de circuito.
Em vez disso, são colocados sobre um substrato de circuito integrado, uma plataforma avançada que assegura suporte mecânico e aloja milhares de ligações elétricas microscópicas que fornecem energia e transferem dados entre o processador e o resto do sistema.
Embora praticamente invisíveis para os utilizadores finais, estes substratos são essenciais para o desempenho e a fiabilidade dos chips modernos.
Produzi-los é também um desafio excecional.
Cada substrato é composto por várias camadas ultrafinas com circuitos microscópicos que têm de ser fabricados com uma precisão extraordinária.
Apenas um número reduzido de empresas em todo o mundo dispõe do know-how tecnológico necessário para produzir as versões mais avançadas.
A AT&S é o único grande fabricante europeu neste mercado altamente especializado. Os principais concorrentes são empresas japonesas e taiwanesas, como a Ibiden e a Shinko Electric.
Segundo dados apresentados pela AT&S aos investidores no início do ano, o mercado global de substratos de circuitos integrados deverá crescer 18% em 2025, para cerca de 11,1 mil milhões de dólares (9,7 mil milhões de euros).
Resultados financeiros robustos reforçam otimismo dos investidores
O enquadramento favorável do setor já se traduziu em resultados financeiros mais sólidos.
No exercício financeiro de 2025/26, a AT&S registou receitas de 1,8 mil milhões de euros, o que representa um crescimento de 21% a taxas de câmbio constantes. Excluindo os proveitos da venda da fábrica de Ansan, na Coreia do Sul, o EBITDA aumentou cerca de 50%, para 418 milhões de euros, enquanto o fluxo de caixa livre passou a positivo, para 236 milhões de euros, depois de ter sido fortemente negativo no ano anterior.
“2025/26 foi um ano financeiro forte e decisivo para a AT&S”, afirmou o presidente executivo Michael Mertin quando a empresa apresentou os resultados anuais, a 21 de maio.
O entusiasmo dos investidores aumentou ainda mais em 13 de junho, quando a AT&S anunciou acordos com a AMD e outro grande cliente tecnológico, que a Reuters identificou como sendo a Intel, para ampliar a capacidade de produção nas unidades de Kulim, na Malásia, e de Chongqing, na China.
O investimento previsto, entre 1,5 mil milhões e 2 mil milhões de euros, chamou a atenção por ser aproximadamente equivalente ao valor de mercado da empresa no início do ano.
Áustria: empresa redefine mercado acionista
A forte valorização alterou também a composição do mercado acionista austríaco.
As instituições financeiras continuam a dominar os principais veículos de investimento do país. No ETF iShares MSCI Austria, o Erste Group mantém-se como maior posição, com 24,2%, seguido do BAWAG, com 12,5%. Em conjunto com a Raiffeisen Bank International e duas seguradoras, os títulos financeiros representam ainda cerca de metade do fundo.
A AT&S, porém, passou a ser a quarta maior posição, com 5,9% da carteira. Há apenas um ano, tinha apenas uma presença residual no fundo.
A Áustria não se transformou de repente num mercado tecnológico. A banca e as empresas cíclicas continuam a dominar o índice de referência.
Ainda assim, a subida extraordinária da AT&S mostra como uma única empresa, a atuar num dos segmentos mais críticos da cadeia de abastecimento da inteligência artificial, pode alterar o desempenho de todo um mercado acionista nacional.