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Estudo: trabalhadores dizem que IA os faz parecer mais competentes do que são

Mais de 50% dos trabalhadores dizem que a IA os faz parecer mais experientes do que são
Mais de metade dos trabalhadores afirma que a IA os faz parecer mais experientes do que são Direitos de autor  AP Illustration/Peter Hamlin
Direitos de autor AP Illustration/Peter Hamlin
De Quirino Mealha
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Inquérito a quase 10 mil trabalhadores na Europa e Américas conclui que a maioria vê a IA como reforço da reputação e 64% admite tê‑la usado para tarefas que não conseguiria fazer, deixando chefias em dúvida sobre promoções

Trabalhadores de escritório ganharam uma nova vantagem discreta que os chefes nem sempre conseguem detetar.

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Uma investigação publicada na terça-feira pela Use.AI, uma plataforma que reúne vários modelos de linguagem de grande dimensão numa única subscrição, inquiriu 9 684 adultos empregados nos EUA, Reino Unido, Canadá, União Europeia e América Latina.

O estudo concluiu que 52% afirmaram que a IA os fazia parecer mais experientes do que são na realidade, sugerindo que os resultados entregues vão à frente das competências subjacentes.

Cerca de 64% disseram ter recorrido à IA para concluir trabalho que, de outra forma, não conseguiriam fazer de forma independente, enquanto 43% referiram que a tecnologia os ajudou a assumir responsabilidades para as quais ainda não se sentiam qualificados.

Mais 35% admitiram que teriam dificuldade em desempenhar partes do trabalho atual sem essa ajuda e um quarto receia que o empregador acredite que são mais capazes do que realmente são.

Muitos gestores, de facto, não se apercebem disto: 39% dos trabalhadores disseram ter entregue trabalho com recurso à IA sem o mencionar e 30% admitiram ter aceite elogios por tarefas produzidas em grande medida pela tecnologia.

Nenhuma destas situações viola necessariamente qualquer regra, já que a maioria dos locais de trabalho não exige este tipo de declaração, mas significa que o desempenho é avaliado sem se saber até que ponto foi subcontratado à IA.

As consequências chegam à progressão na carreira: 19% disseram que o trabalho com apoio de IA contribuiu para uma promoção.

Deve ser obrigatório dizer ao chefe?

O remédio mais óbvio, obrigar os funcionários a declarar quando usam IA, não conta com o apoio total da empresa responsável pelo estudo.

“Não penso que as empresas devam exigir que os funcionários revelem todas as interações com a IA”, disse à Euronews Ihor Herasymov, cofundador e presidente executivo da Use.AI.

“Isso tornar-se-ia rapidamente impraticável à medida que estas ferramentas forem sendo incorporadas no software do dia a dia e no trabalho de rotina”, explicou Herasymov, propondo um critério mais restrito.

“O limiar mais útil é perceber se a IA moldou de forma significativa o conteúdo do trabalho. Se gerou uma parte importante de uma análise, recomendação, apresentação, código ou outro resultado com impacto, os funcionários devem declarar essa assistência.”

O objetivo, sublinhou, não deve ser controlar os trabalhadores.

“A finalidade não deve ser a vigilância. Deve dar aos gestores contexto suficiente para avaliarem tanto o trabalho como o contributo humano”, afirmou Herasymov, acrescentando que uma política eficaz “deve centrar-se na assistência significativa da IA, na verificação e na responsabilização, deixando claro que a pessoa que entrega o trabalho continua responsável por o compreender e defender”.

Como devem os gestores medir o desempenho

Nada disto prova que esses trabalhadores estejam desqualificados, até porque usar a IA de forma competente é, em si, uma competência profissional cada vez mais relevante.

O problema é que o produto final deixou de revelar o que revelava sobre quem o produziu, o que é crucial quando uma empresa tenta perceber quem está pronto para assumir mais responsabilidades.

“O resultado final continua a ser importante, mas está a tornar-se uma medida menos completa da capacidade”, disse Herasymov à Euronews.

Como os gestores devem realmente avaliar o desempenho na era da IA
Como os gestores devem realmente avaliar o desempenho na era da IA AP Illustration / Peter Hamlin

“Os empregadores precisam também de perceber se alguém consegue explicar o raciocínio por detrás do seu trabalho, detetar falhas numa resposta gerada pela IA, tomar decisões com informação incompleta e reagir quando a tecnologia produz algo errado ou inesperado”, explicou Herasymov.

Neste contexto, o presidente executivo da Use.AI destacou uma competência em particular.

“A formulação do problema é especialmente importante. Alguém consegue definir a pergunta certa, pôr em causa uma suposição e explicar porque é que um curso de ação é melhor do que outro? Isso é muito mais difícil de inferir apenas a partir de um produto final polido”, referiu Herasymov.

Poucos empregadores, porém, encontraram ainda uma solução para avaliar o desempenho na era da IA.

“Ainda não vemos um modelo estabilizado para fazer essa avaliação. As organizações continuam a tentar perceber como a IA deve alterar as decisões sobre desempenho e promoções”, disse Herasymov, acrescentando que “a distinção entre aquilo que alguém consegue produzir com IA e aquilo que realmente compreende vai tornar-se muito mais importante nessas decisões”.

Ferramenta ou muleta?

Questionado se o facto de 35% dos trabalhadores terem dificuldades sem IA preocupa uma empresa que vende acesso a esta tecnologia, Herasymov não afastou essa preocupação.

“Sim, penso que esse resultado merece ser levado a sério”, afirmou.

“A preocupação começa quando alguém consegue produzir uma resposta com IA mas não consegue reconhecer de forma fiável quando essa resposta está errada, explicar porque é adequada ou tomar uma boa decisão quando o sistema não tem uma resposta fiável. Nesse momento, a relação deixa de parecer um reforço de capacidades e passa a parecer dependência”, disse Herasymov à Euronews.

Enquadrou a questão mais como um equilíbrio de custos e benefícios do que como um veredicto definitivo.

“A IA pode tornar as pessoas mais rápidas e alargar o que são capazes de fazer. Mas se esses ganhos vierem acompanhados de um enfraquecimento da capacidade de julgamento independente, esse é um compromisso que empregadores e empresas de tecnologia devem estar dispostos a reconhecer e a enfrentar.”

A IA é apenas uma ferramenta ou pode tornar-se uma muleta?
A IA é apenas uma ferramenta ou pode tornar-se uma muleta? AP Illustration / Peter Hamlin

No entanto, a tecnologia continua a avançar enquanto os empregadores tentam resolver estas questões.

Segundo o portal Ventureburn, citando dados da METR, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que avalia o impacto dos sistemas de IA na sociedade, o tempo necessário para a autonomia da IA duplicar passou de uma tendência de oito meses para apenas 4,7 meses.

Os mesmos dados apontam para um aumento anual de 1 400% nas capacidades autónomas da IA entre o início de 2025 e o início de 2026, ao mesmo tempo que o acesso se expandiu de forma visível ao mesmo ritmo.

As descargas de ferramentas de IA subiram de 15 000 para 11,8 milhões, um crescimento de 780 vezes, enquanto o número de ferramentas MCP disponíveis ao público aumentou 35 vezes, para cerca de 177 000.

MCP, ou Model Context Protocol, é uma norma que permite aos assistentes de IA ligarem-se diretamente a outras aplicações e fontes de dados, para executarem tarefas em vez de apenas descreverem como fazê-las. É o que, em geral, se designa por “IA com agentes”.

Esta trajetória agrava o problema identificado pelo inquérito: à medida que mais trabalho é realizado sem uma pessoa a orientar cada passo, o produto final revela cada vez menos sobre a pessoa que lhe coloca a assinatura.

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