Na pele de um tenor que canta Wagner pela primeira vez em palco

Na pele de um tenor que canta Wagner pela primeira vez em palco
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De  Andrea Buring  & euronews

O tenor Rolando Villazón, cantou Wagner pela primeira vez. Como é que um cantor de ópera se prepara para um novo papel?

Para vestir a pele de uma personagem e aprender um papel novo é preciso trabalhar muito, mas, também é muito divertido.

"Adoro personagens que enfrentam desafios, que têm máscaras diferentes, rostos diferentes e posturas diferentes", contou à euronews o tenor franco-mexicano Rolando Villazón.

Foram precisos meses de preparação antes da subida ao palco para cantar a ópera "O Ouro do Reno” de Richard Wagner (1813-1883). "Quando entramos na pele e na alma de uma nova personagem, há fases diferentes. No início, é o desconhecido. Ainda não incarnamos a voz da personagem. É o período em que descobrimos tudo".

"Quando vi Loge pela primeira vez, apaixonei-me pelo papel. Desejei que um dia pudesse ter a oportunidade de interpretar esse papel. Não era um papel óbvio para mim, em termos da língua, tendo em conta as minhas características como tenor. Eu queria muito interpretá-lo. Por isso, estou muito entusiasmado por estar no meio desta aventura de fogo", confessou o cantor.

A primeira etapa: os cantores e o piano

Numa primeira fase, o encenador e os cantores reuniram-se para ensaiar ao piano, na Ópera Estatal de Berlim Um momento decisivo, em que o piano substitui a orquestra inteira.

"Não faz mal se não tocarmos todas as notas. Basta tocar a maioria. Não ajuda os cantores se tocarmos todas as pequenas notas. E tudo o que quero é ajudá-los", contou o pianista Elias Corrinth.

"Quando começarem os ensaios em palco, já nos devemos sentir suficientemente confortáveis em relação à personalidade e aspeto físico da personagem, à coreografia, para nos concentrarmos na música e para dar vida à personagem. É assim que eu vejo as coisas", sublinhou o tenor.

O Ouro do Reno é a primeira ópera da tetratologia 'O anel do Nibelungo' de Richard Wagner. No total são quinze horas de música, quatro óperas em quatro noites consecutivas. Um verdadeiro desafio operático.

"Richard Wagner disse que “O ouro do Reno” é a origem de tudo. Começa com o mito de que o ouro está escondido no rio Reno. É a chave para compreender todas as outras óperas. Conduz-nos ao 'Crepúsculo dos deuses' e depois, a um novo começo com o povo, os cidadãos", afirmou Ulrike Kretzschmar, vice-diretor do Museu Histórico Alemão.

Os livretos de Wagner são difíceis mesmo para os alemães

A aventura de Villazón começou três anos antes da estreia. Durante duas semanas, trabalhou com um professor de alemão. Mesmo para os alemães, as obras de Wagner são um desafio.

"Há muitas palavras repetitivas, mas, as frases são sempre diferentes, como "Weia! Waga! Woge, Welle", com aliterações e rimas. No início, é fácil lembra-se das frases, mas, depois, a frase seguinte soa ligeiramente diferente, e esquecemos tudo. Na execução das obras de Wagner, os erros mais frequentes são os erros de texto", explicou o tenor Stephan Rügamer.

Antes de subir ao palco, Rolando Villazón volta a ensair sozinho.

"Vou para o meu quarto. Durante as próximas três horas, volto a encenar tudo no meu quarto. Tenho uma cadeira e enceno tudo de novo. Há uma espécie de memória corporal. É para isso que servem os ensaios. O cenário ideal é chegar ao ensaio geral, e sabermos o que fazer a cada etapa da ópera", contou o cantor.

Figurinos inspirados nos anos 70

Na produção da Ópera Estatal de Berlim, a tetralogia é apresentada todos os anos, nas últimas cinco décadas. O cenário do Ouro do Reno inspira-se na estética dos anos 70.

"Dá-nos uma impressão geral. Vê-se na roupa, nas cores, nas perucas, na maquilhagem. O segundo aspeto é que começamos a imaginar uma imagem precisa, porque entre as personagens em palco há cientistas e há também bandidos", explicou Elena Zaytseva, designer de figurinos.

"O traje é um elemento muito importante para nos transformarmos na personagem que temos de encarnar em placo. Por exemplo, certos sapatos fazem-nos andar de determinada forma", acrescentou o tenor.

Para compreender melhor o espírito da obra de Wagner, Villazón visitou uma exposição sobre o polémico compositor no Museu Histórico da Alemanha.

"O universo de Wagner é, por um lado, antiquado em relação aos mitos germânicos. Por outro lado, é extremamente moderno. Como lidar com o poder? No 'Anel' Wotan não quer largar o poder, apesar do risco de perder tudo, está determinado a manter o acordo até ao fim", contou Ulrike Kretzschmar, vice-diretora do Museu Histórico Alemão.

"Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de estar aqui e por poder ver esta exposição que retrata todas estas tradições, com documentos históricos. Podemos perguntar: será mesmo necessário construir uma personagem? Eu diria que não. E no entanto, toda esta informação ajuda o processo criativo”, considerou Rolando Villazón.

"Na estreia, é preciso ter em conta o nervosismo, a impressão que se sente no estômago, a excitação. Mas chegou o momento, e isso é bom. Devemos usar esses sentimentos como um instrumento que faz de nós intérprete melhor, em palco. Neste caso, mais uma vez, a metáfora não poderia ser mais adequada: Temos de nos tornar no fogo e usar o fogo para ser o fogo”, concluiu o tenor.