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Diamantes ou fiascos: serão estes os álbuns mais sobrevalorizados de sempre?

Serão estes os álbuns mais sobrevalorizados de sempre?
Serão estes os álbuns mais sobrevalorizados de sempre? Direitos de autor  Atlantic / Warner Bros. / Creation / Columbia
Direitos de autor Atlantic / Warner Bros. / Creation / Columbia
De David Mouriquand & Craig Saueurs & Theo Farrant
Publicado a
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Hora de abalar alguns mitos: a Euronews Culture arrisca e reavalia álbuns demasiadas vezes, e talvez injustamente, elevados a estatuto de “obra-prima”

Há álbuns que ninguém se atreve a contestar ou a reavaliar.

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Sabem quais são: discos venerados por praticamente toda a gente e que qualquer fã de música que se preze é suposto acarinharem. Mas serão estes álbuns mesmo intocáveis, ou estaremos a repetir, sem pensar, a sabedoria feita?

A equipa do Euronews Culture abre o jogo e ouve com atenção 12 supostas “obras-primas” e pergunta: “Não estará na altura de admitirmos que estes discos não são os triunfos sacrossantos que nos venderam?”

Cada um com as suas pancadas, claro – não queremos é fazer rebentar nenhum dique. E por falar nisso, começamos com…

Led Zeppelin – IV (1971)

IV
IV Atlantic

É o álbum que nos deu “Stairway to Heaven”, talvez a melhor canção de rock de sempre. É amplamente considerado o ponto alto da carreira dos Led Zeppelin. Audição obrigatória, um clássico do rock'n'roll. E, no entanto… Vejamos: o quarto álbum dos Led Zeppelin abre como uma mangueira de incêndio num dia de verão escaldante. “Black Dog” e “Rock and Roll” tiram-nos o tapete. É incrível. Mais à frente chegam a transcendente “Stairway to Heaven” e a suave “Going to California”. Mas será a experiência tão completa como nos querem fazer crer? Não tenho assim tanta certeza. Os pontos altos fazem quase todo o trabalho pesado, e é legítimo perguntar se não distorcem a forma como vemos o disco no seu todo – se a grande mitologia em torno da banda não terá alimentado algum revisionismo. O problema é que, quando um álbum é declarado a obra-prima, tudo o resto passa a ser medido por esse padrão. Mas os Zeppelin fizeram discos bem mais aventureiros. “Led Zeppelin III” é irrequieto e eclético, e “Physical Graffiti” arrisca muito mais ao longo de um duplo LP caleidoscópico. Apesar de todo o brilho, “IV” não devia ter o monopólio do legado dos Led Zeppelin. CS

Eagles – Hotel California (1976)

Hotel California
Hotel California Asylum

Lembram-se daquela cena em The Big Lebowski em que o Dude se desentende com um taxista quando lhe pede para mudar de estação de rádio? “Tive uma noite tramada, e odeio os fucking Eagles, pá!”, diz o nosso stoner favorito. Pois eu bato palmas ao Dude, e bem alto, todas as vezes. Os Eagles são uma valente treta, e o álbum mais famoso deles prova-o. Não que muita gente concorde, já que “Hotel California” é o sexto disco mais vendido de sempre, com vendas mundiais estimadas em cerca de 44 milhões de cópias. Para piorar, a coletânea de êxitos continua a ser o álbum mais vendido de sempre nos EUA. Dá que pensar, não dá? O suposto “clássico rock” da banda, de 1976, está atafulhado de canções perfeitamente medianas sobre ser bonito no deserto, bonito a conduzir por LA, bonito na rua e bonito enquanto se fazem perguntas como “Should I stay or go? I really want to know / Would I lose or win if I try and love again?”. Quanto à última parte da pergunta, do “perder ou ganhar”, não faço ideia; isso é convosco e boa sorte. Já quanto ao “devo ficar ou ir”, vão. Por favor, desapareçam. DM

Fleetwood Mac – Rumours (1977)

Rumours
Rumours Warner Bros.

Ia numa viagem de carro de cinco horas com dois dos meus melhores amigos e decidimos aproveitá-la a fazer algo vagamente produtivo: ouvir, do início ao fim, álbuns considerados dos melhores de sempre. Começámos com “Thriller”, do MJ – brilhante, praticamente irrepreensível, tirando talvez aquele dueto com o McCartney de revirar os olhos de tão açucarado. Depois, “The Miseducation of Lauryn Hill”: bonito, cheio de alma, genuinamente sublime. Por isso, quando chegámos a “Rumours”, dos Fleetwood Mac, esperávamos ver a nossa vida mudar. Infelizmente, não mudou. Isto não quer dizer que “Rumours” seja mau. Muitas vezes é excelente. “Dreams” é, provavelmente, uma das melhores canções alguma vez gravadas; “Go Your Own Way” continua a ser um absoluto hino; e a linha de baixo icónica e a explosão eufórica de “The Chain” são de topo. Mas, tomado como um todo, o álbum deixou-nos aos três estranhamente indiferentes. Se tirarmos todo o drama amoroso e a mitologia que o rodeia, o que sobra é muitas vezes surpreendentemente seguro, polido e, por vezes, meio bege. “Second Hand News” é uma abertura estranhamente esquecível; “Don’t Stop” é irritantemente alegrinho; e “Oh Daddy” é, francamente, um bocado uma seca. Nos dias seguintes ouvi “Tusk” e “Tango in the Night”, dois álbuns posteriores da banda, e ambos me pareceram mais arrojados e interessantes. _'_Rumours'tem meia dúzia de canções perfeitas, mas está longe de ser um álbum perfeito. TF

Pink Floyd - The Wall (1979)

The Wall 
The Wall  Harvest/EMI

Deus me valha, adoro um álbum conceptual e os Pink Floyd raramente desiludiram nesse capítulo. Mas a ópera rock de 1979 – embora seja um feito monumental em termos narrativos – nunca me disse muito enquanto experiência de audição. Dito sem rodeios: aborreceu-me até à exaustão enquanto me deitava abaixo ao mesmo tempo. É certo que o álbum duplo é pensado para ser castigador, espelhando os temas de abandono e isolamento idealizados pelo arquiteto-chefe e sumo-sacerdote do negrume, Roger Waters. Ainda assim, “The Wall” sempre me soou inchado, cheio de metáforas marteladas e com mais enchimento do que qualquer outro álbum que tivessem lançado até então. “Another Brick in the Wall, Part 2”, “Hey You” e “Comfortably Numb” são pérolas, não há dúvida – mas isso são três momentos de destaque numa lista confortavelmente rechonchuda de 26 temas arrastados. E, olhando para trás na discografia da banda, todos os álbuns conceptuais que antecederam “The Wall” continuam a superá-lo. Dêem-me “The Dark Side of the Moon” (o original, não aquela versão rasca que o Waters lançou há três anos), “Wish You Were Here” e “Animals” em qualquer dia da semana em vez deste. DM

AC/DC - Back In Black (1980)

Back in Black
Back in Black Albert/Atlantic

A questão com os AC/DC é esta... Cada riff maçador do seu cancioneiro repetitivo segue a mesma fórmula de rock operário, piroso e ensurdecedor – ao ponto de cada “hit” soar completamente indistinguível do anterior. Podiam pôr-me a tocar temas de “Back In Black”, “Highway To Hell” ou de qualquer um dos outros 16 álbuns deles (sim, contei), e eu ficava a olhar para vocês com ar vazio, como um basset hound murcho a ansiar pela doce libertação da variedade. Ou de um zumbido permanente. Qualquer coisa serve. A defesa dá o caso por encerrado. Testemunha seguinte. DM

Prince – Purple Rain (1984)

Purple Rain
Purple Rain Warner Bros.

Um Óscar. Dois Grammys. Um álbum que chegou ao primeiro lugar e passou 24 semanas no topo da Billboard 200. Mais de 25 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. “Purple Rain” foi canonizado como um dos álbuns definidores dos anos 80. E percebo porquê. Prince era um músico absurdamente talentoso – guitarrista, pianista, produtor, compositor, vocalista – e é difícil negar a quantidade de criatividade e mestria em exibição aqui. Mas talvez esse seja o problema: “Purple Rain” por vezes soa a Prince desesperado por provar que consegue fazer tudo ao mesmo tempo. Solos de guitarra, mudanças de tom, falsetes a toda a velocidade – cada canção parece determinada a atirar-nos à cara toda a caixa de ferramentas do Prince. O resultado pode ser eletrizante, como o final de “The Beautiful Ones”, mas também pode soar completamente passado do ponto, teatral em excesso e cansativo. E, em termos de letra, o álbum pode ser surpreendentemente… magro. Com todo o entusiasmo em torno de Prince como génio da composição, algumas coisas, como em “Take Me With U”, são bastante descartáveis. E quanto ao tema-título, sim, é um clássico, não discuto. Mas precisa mesmo de durar 8 minutos e 41 segundos? Tenho sítios onde estar, Prince. Tenho coisas para fazer! TF

The Smiths – The Queen Is Dead (1986)

The Queen Is Dead
The Queen Is Dead Rough Trade

Começo por dizer que, ao contrário da Zooey Deschanel em (500) Days of Summer, eu pessoalmente não “adoro os The Smiths”. Aliás, acho que o Morrissey, de crachá “For Britain” ao peito, é um queixinhas desafinado e pomposo, por isso não esperem grande neutralidade aqui. “The Queen Is Dead” é um daqueles álbuns que parecem ter obrigação contratual de aparecer em todas as listas de “Melhores Álbuns de Sempre” e é regularmente apontado como a obra-prima dos The Smiths. E percebo parte do entusiasmo. O trabalho de guitarra de Johnny Marr é imaculado, a banda soa certeira do princípio ao fim, a faixa de abertura é eletrizante e “There Is a Light That Never Goes Out” é, atrevo-me a dizê-lo, cativantemente orelhuda. Mas também há aqui algumas autênticas desgraças. “Frankly, Mr. Shankly” é uma cantiguinha fofa e irritante, daquelas de novidade, que não percebo como alguém põe a tocar de livre vontade uma segunda vez, enquanto “Vicar in a Tutu” é um desvio ainda mais desconcertante. Até “Some Girls Are Bigger Than Others” soa a forma estranhamente frouxa de fechar aquilo que supostamente é um clássico. Se calhar estou a perder alguma coisa. Ou se calhar a voz e o ego do Morrissey já me deixaram de rastos. Em qualquer dos casos – obra-prima? Não estou convencido. TF

Oasis – Definitely Maybe (1994)

Definitely Maybe
Definitely Maybe Creation

Embora não vá ao ponto de afirmar, sem pudor, que os Oasis como um todo são sobrevalorizados, morro nesta colina: o álbum de estreia deles é colocado num pedestal que não faz sentido. Sim, “Definitely Maybe” foi a banda sonora de uma nova era que pôs fim ao grunge e lançou a Britpop, mas o entusiasmo à volta do disco desde o lançamento tem sido extenuante. Os singles são orelhudos, e ninguém nega o jeito de Noel Gallagher para um refrão de cantar em coro; mas o resto é enchimento, com letras que ou são desinspiradas ou parecem obra de alguém a funcionar com a fralda cheia. Quanto aos esforços do Liam, há uma razão para a forma como ele debita versos como “Toniiiiiiiight I'm a rock 'n' roll staaaar” e “Sun-sheeeee-iiiiiii-ne” ter sido transformada em meme até à exaustão. Está muito longe de ser bíblico, r'kid. No fim de contas, os Oasis são uma banda fantástica de singles; mas, quando falamos de álbuns coesos, o único LP que funciona verdadeiramente como um todo consistente foi – ironicamente – a compilação de lados B “The Masterplan”, que continua a ser o melhor lançamento deles. Por muito consciente que esteja das minhas próprias embirrações com o jeito meio paródico de certos fãs “Madferit” dos Oasis, podem divinizá-los à vontade que há duas coisas que continuam a ser verdade: 1) Por muito bons que sejam, não foram os salvadores do rock'n'roll britânico; e 2) Os contemporâneos Blur, Pulp e Super Furry Animals foram significativamente mais inovadores. Venham daí. DM

Kanye West – Graduation (2007)

Graduation
Graduation Roc-A-Fella/Def Jam

Hoje em dia é fácil bater no Ye. O homem disse coisas hediondas – tão hediondas que foi proibido de atuar na maior parte da Europa. Agora, claro, prepara-se para subir ao palco na Rússia, o que só reforça a dolorosa espiral em direção ao estatuto de pária. Separando a arte do artista, porém, dá para reconhecer que a sequência de álbuns de West é praticamente inigualável no hip-hop contemporâneo. Os primeiros seis álbuns foram inovadores à sua maneira. Mas “Graduation” não é a obra-prima de pop-rap que muitos apregoam. Lançado em 2007, foi pensado para arenas, com grandes ganchos, sintetizadores reluzentes e produção ao nível dos U2. Sim, ajudou a empurrar o hip-hop mainstream para um território mais melódico e experimental, mas “Graduation” parece superficial e vazio quando comparado com as declarações mais ambiciosas que Ye fez em “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” ou “Yeezus”. É mais um triunfo de instinto comercial do que uma revelação artística. Para um artista que sempre esteve melhor quando é imprevisível – até, talvez infelizmente, agora – “Graduation” é surpreendentemente convencional. CS

Arcade Fire – The Suburbs (2010)

The Suburbs
The Suburbs Merge/City Slang/Mercury

Uma década antes de o vocalista Win Butler ser denunciado como um tipo manipulador e sinistro, os Arcade Fire tinham alcançado patamares inéditos para uma banda indie. Em 2011, “The Suburbs” conseguiu a surpreendente vitória do Grammy de Álbum do Ano. Os Arcade Fire tinham chegado ao topo. O álbum é um hino de 64 minutos à juventude perdida e ao tédio suburbano mais insosso, cheio de refrões suaves, guitarras a meio-tempo e hinos de estrada aberta. Não é um mau disco de se ouvir, se conseguirem desligar-se das acusações de má conduta sexual que recaem sobre Butler. Na verdade, é em grande parte agradável. Mas o Grammy de Álbum do Ano já na altura foi forçado, e hoje ainda mais. Letras como “Rococo, rococo, rococo / Oh, they’re breaking my heart” e “I feel like I’ve been living in / A city with no children in it” são cómicamente exageradas (ou pobres, dependendo da perspetiva). E, comparado com o desespero difuso dos dias de hoje, aquele ar melodramático de angústia suburbana e história de amadurecimento soa, em retrospetiva, algo ridículo. CS

Daft Punk - Random Access Memories (2013)

Random Access Memories
Random Access Memories Columbia

Apontado como um regresso triunfal depois do dececionante “Human After All” (2005), o quarto e último LP dos Daft Punk prestava tributo à música dos anos 70 e 80 – em particular à disco e ao funk. A lista de colaboradores era impressionante, com os pioneiros franceses da eletrónica a recrutarem Giorgio Moroder, Pharrell Williams, Nile Rodgers e Julian Casablancas para aquela que viria a ser a sua despedida. Embora tenha sido recebido com aclamação universal, diria que, mesmo que a explosão de nostalgia sonora tivesse sido bem-vinda na altura e que o single omnipresente “Get Lucky” fosse irresistivelmente bom, “Random Access Memories” continua a receber elogios em excesso. Quando se ouve o LP vencedor de Grammys de uma ponta à outra, o ritmo já não é tão bom como lembrávamos, muitas faixas soam indulgentes e é… enfim, trapalhão. Suspeito que a equipa de marketing responsável pelo lançamento do álbum seja parcialmente culpada pelo prestígio persistente, já que os fãs se recordarão de uma campanha de teasers que fez maravilhas. Mas, quando a teoria passa à prática, “RAM” pode não ser le plus faible na discografia do duo robótico, mas está bem longe de ser o seu chef-d'oeuvre. Nem me façam começar a falar daquela tenebrosa reedição sem bateria de 2023, que foi uma completa perda de tempo. DM

Taylor Swift – Folklore (2020)

Folklore
Folklore Republic

Quando Taylor Swift lançou “folklore”, eu editava uma revista de cidade cheia de coragem em Banguecoque e não estava propriamente a viver o melhor momento da minha vida. Ao fim de umas cinco músicas daquele álbum rodopiante de 16 faixas, lembro-me de pensar: “É para isto que existe a profissão de editor.” Swift não precisa dos meus elogios para provar a sua habilidade enquanto compositora. Tem 14 Grammys e cerca de mil milhões de dólares a atestá-lo. O corpo de trabalho dela é, em larga medida, excelente. Mas “folklore” foi o primeiro sinal de que o ego talvez estivesse a ultrapassar a artista. A viragem para uma música de piano, de ambiente aconchegado de camisola grossa, foi uma mudança bem-vinda e pouco surpreendente, tendo em conta que Swift trabalhou com The National’s Aaron Dessner. Mas seria Dessner o editor de que ela precisava? Conseguiria alguém editá-la? Quando o álbum é bom (“this is me trying”), é muito bom. Quando não é (“betty”, “illicit affairs”), só apetece que alguém tivesse aparecido para propor uns cortes cirúrgicos. Visto agora, “folklore” marcou um ponto de viragem para Swift. Desde então, o lirismo outrora afiado passou a deixar-nos a coçar a cabeça (veja-se “Fortnight” e “epiphany”), e os álbuns tornaram-se cada vez mais auto-indulgentes e inchados. CS

E pronto. Demolições heróicas ou blasfémia pura? Estejam à vontade para escrever. Só não se deem ao trabalho se for para defender os Eagles. A vida é demasiado curta.

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