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Não há como parar as contas de gás da Europa

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De  euronews
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Na quarta-feira, os preços futuros do gás no Title Transfer Facility (TTF) atingiram 292 euros por megawatt-hora, um valor astronómico em comparação com os 27 euros fixados há um ano.

Na semana passada, o gigante da energia Gazprom controlado pelo Estado russo, anunciou que iria encerrar em breve o Nord Stream 1, o gasoduto que transporta o gás da Rússia para a Alemanha para realizar uma operação de manutenção de três dias, em conjunto com a Siemens.

A Gazprom afirma que é preciso verificar o estado do gasoduto para ver se há fissuras ou outras avarias.

Os políticos europeus já acusaram várias vezes a empresa russa de invocar questões técnicas para pressionar os países da União Europeia.

A incerteza sobre as intenções da Gazprom

"Após a conclusão das operações de manutenção, se não forem identificadas avarias, o transporte de gás será retomado. Serão canalizados 33 milhões de metros cúbicos por dia", afirmou a Gazprom.

Um nível que representa 20% da capacidade do gasoduto que pode transportar até 167 milhões de metros cúbicos diários. A diminuição dos fluxos obrigou a Alemanha, principal destinatário do gás do Nord Stream, a desencadear a segunda fase do seu plano de emergência energético.

Mas mesmo antes da decisão da Gazprom, os preços do gás em toda a Europa já estavam a subir.

Um Verão mais quente do que o habitual e o aumento da utilização de ar condicionado alimentaram a tendência ascendente, juntamente com uma seca severa que reduziu a energia hidroelétrica e limitou a atividade das centrais nucleares.

"Os próximos cinco a dez invernos serão difíceis"

"Os próximos cinco a dez invernos serão difíceis", avisou o primeiro-ministro belga Alexander De Croo.

O armazenamento de gás desempenha um papel fundamental na segurança do abastecimento da UE, mas não é suficiente para as necessidades das empresas e das famílias. O bloco europeu tem capacidade para armazenar cerca de 100 mil milhões de metros cúbicos de gás, o que representa um quarto do consumo anual.

Os Estados membros já estabeleceram um plano para reduzir voluntariamente a procura de gás em 15% antes da próxima Primavera. O objetivo é amortecer o impacto de um corte total dos fluxos russos. Um cenário drástico que nos últimos meses passou de possível a provável.

Até que ponto o preço do gás pode subir?

"Em teoria, não há limite. O mercado, como sempre, tem em os piores cenários, a pior interpretação", disse à euronews Jonathan Stern, investigador do Instituto de Estudos Energéticos de Oxford.

"Se o fluxo do Nord Stream 1 não retomar após os três dias de manutenção, não há forma de descrever o quanto os preços poderão ser dolorosos. Pelo menos até vermos quão frio será o Inverno. É provavelmente aí que os preços vão atingir o pico", acrescentou o investigador.

A especulação é uma parte inerente do mercado energético europeu

Hoje em dia, o mercado da energia, na Europa, segue a dinâmica da oferta e da procura, numa lógica liberal. Durante a pandemia, quando a atividade económica ficou praticamente parada, os preços futuros do gás na TTF caíram abaixo dos 10 euros por megawatt-hora, o que acarretou perdas para os produtores.

Mas nem sempre foi assim. Antes dos anos 2000, a maioria dos contratos de gás baseava-se numa perspetiva de longo prazo e estava ligada ao preço do petróleo. A indexação oferecia certeza e estabilidade, mas revelou-se demasiado rígida para lidar com os desafios do novo milénio.

O mercado passou gradualmente para contratos mais curtos baseados em tendências económicas em tempo real, o que resultou em preços mais baixos e mais competitivos tanto para a indústria como para os consumidores. Esta flexibilidade foi considerada essencial para aumentar a transparência e facilitar a transição ecológica.

A mudança, contudo, deixou a Europa mais exposta à volatilidade dos preços: à medida que a procura de gás aumentava, os preços subiam.

Até 2022, os altos e baixos eram controláveis. O pico registado em finais de 2021, no meio do processo de recuperação económica, foi compensado pelos governos com cortes fiscais, vales de desconto para famílias vulneráveis e subsídios para empresas em dificuldade.

Mas a decisão da Rússia, o principal fornecedor de energia da UE, de invadir a Ucrânia levou-nos a experimentar os limites do sistema de regulação dos preços da energia. A especulação em torno das próximas decisões da Gazprom ditam os altos e baixos do mercado.

O espectro de uma recessão

A crise energética levou a inflação a atingir níveis recorde, os bancos centrais apressam-se a aumentar as taxas de juro, o euro atingiu a paridade com o dólar e o receio de uma recessão paira sobre todo o continente.

"Em caso de recessão, as nossas vidas serão mais difíceis em muitos aspetos, mas mais fáceis em termos de energia. A procura de gás baixará e os preços serão arrastados para níveis muito diferentes dos de hoje. "Mas, não deveremos ter preços 'normais' tão cedo. Os preços não deverão baixar durante pelo menos três a quatro anos", garante Jonathan Stern.

Independentemente de acordos recentes com os Estados Unidos, Egipto, Israel, Argélia, Azerbaijão e Canadá destinados a diversificar os fornecedores de energia, as possibilidades de a EU obter a mesma quantidade de energia que anteriormente são limitadas.

Os últimos dados mostram que a Europa importou quantidades recorde de gás natural liquefeito (GNL) da América. Mas para poder comprar mais GNL é necessário construir terminais, o que pode levar vários anos e requer investimentos financeiros.