Secas graves "podem ser a norma" na UE até 2050

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De  Alice Tidey  & Isabel Marques da Silva
 Muitas reservas de água ficaram nos mínimos, prejudicando consumo humano, agricultura e produção de energia renovável
Muitas reservas de água ficaram nos mínimos, prejudicando consumo humano, agricultura e produção de energia renovável   -   Direitos de autor  AP Photo/Martin Meissner

A seca que a Europa atravessa poderá tornar-se a norma em meados do século XXI, a menos que sejam, rapidamente, implementadas ações de mitigação eficazes e transfronteiriças, disseram peritos, segunda-feira, numa audição no Parlamento Europeu, em Bruxelas.

As secas repetidas e graves terão impactos significativos sobre um número crescente de atividades económicas, incluindo a agricultura, os transportes, a energia e os cuidados de saúde, segundo o debate na Comissão do Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar.

Andrea Toreti, do Observatório Europeu da Seca, disse que os acontecimentos extremos que a Europa sofreu durante o último verão "poderão tornar-se a norma" até 2050, "se não forem postas em prática ações de mitigação eficazes".

"Estes eventos vão atingir a Europa quase todos os anos", acrescentou.

Esta é das piores secas em 500 anos, com 64% do território do continente em condições de seca, embora em graus variáveis. "Já foram relatados impactos graves em várias áreas", disse Toreti.

"Abordagem europeia"

A agricultura está entre os setores mais afetados com as colheitas de milho, soja, girassol e arroz em queda acentuadas este ano.

A seca começou em finais de 2021, devido a um forte declínio na precipitação de chuva e neve nos meses anteriores e foi agravada por uma série de ondas de calor recordes desde maio de 2022, em algumas partes da Europa. O fenómeno colocou, também, uma pressão significativa nos setores dos transportes e da energia.

Toreti salientou que "a seca é um fenómeno global, é uma ameaça e subestimamos esse risco". As medidas de adaptação e mitigação devem, portanto, ser implementadas a diferentes níveis, incluindo uma "abordagem europeia com cooperação reforçada". 

Estess apelos para uma aceleração nas medidas de adaptação e mitigação foram ecoados por Hans Bruyninckx, diretor-executivo da Agência Europeia do Ambiente: "Estamos a assistir a uma série de dimensões transfronteiriças (tais como) impacto nas infra-estruturas e nos sistemas alimentares".

"Penso que é evidente que é necessária uma abordagem europeia", acrescentou, sublinhando que "muitos dos instrumentos políticos já existem mas faltam, frequentemente, uma forte implementação e uma forte conectividade entre estas políticas".

Agricultura mediterrânica sob ameaça

Sobre a agricultura, Hans Bruyninckx disse que "é bastante claro que há diferentes impactos, dependendo da região, mas também do tipo de cultura", prevendo que, à medida que a seca e as ondas de calor se tornam mais regulares e intensas, "parte da região mediterrânica tornar-se-á problemática quando se trata de agricultura".

Entre as medidas de adaptação e mitigação que enumerou  estavam a utilização de diferentes raças de culturas, a melhoria dos sistemas de irrigação, a implantação de uma agricultura de precisão e a restauração dos solos e outros ecossistemas.

Ainda assim, alertou, as alterações climáticas representarão "um desafio ao sistema alimentar" na Europa.

Janez Lenarčič, Comissário Europeu de Gestão de Crises, disse  que "a Europa já não tem recursos suficientes para combater os  incêndios florestais", noutro aviso aos eurodeputados.

Mais de 750 mil hectares de floresta da União Europeia foram queimados durante esta época de incêndios florestais.

"A Europa acaba de testemunhar uma das piores épocas de incêndios florestais de que há memória", afirmou.

"Obviamente que as alterações climáticas estão a trazer mais calor e períodos prolongados de seca e, como resultado, o risco de incêndio está a alastrar por toda a Europa e os incêndios estão a tornar-se mais frequentes e mais intensos", referiu Janez Lenarčič.

A Comissão Europeia preparou um plano de quatro pontos para se preparar contra este risco acrescido, incluindo um aumento rápido das capacidades de combate a incêndios, tais como aviões e helicópteros, a colocação de mais bombeiros em áreas particularmente vulneráveis a incêndios no início da estação e uma melhor estratégia de prevenção.