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Investimento chinês em infraestruturas europeias preocupa UE

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De  Alice Tidey  & Isabel Marques da Silva
Bandeira ferroviária da China no local da reconstrução de uma linha entre Budapeste e Belgrado
Bandeira ferroviária da China no local da reconstrução de uma linha entre Budapeste e Belgrado   -   Direitos de autor  AP Photo/Darko Vojinovic   -  

A guerra na Ucrânia e os suspeitos de atos de sabotagem em infraestruturas de energia cruciais europeias levaram os líderes da União Europeia a repensarem a estratégia de proteção e renovação de sistemas importantes para a autosuficiência e soberania do bloco. Neste caso, não é tanto a Rússia que os preocupa, mas a China.

"O maior medo, penso eu, é que as infraestruturas críticas possam ser destruídas pela China numa situação de conflito, ou pelo menos que a China possa ameaçar destruir as infraestruturas críticas", disse Tim Rühlig, investigador no Conselho Alemão de Relações Externas (DGAP), à euronews.

As empresas chinesas possuem ou têm participações numa vasta gama de infraestruturas críticas europeias, incluindo portos, aeroportos, companhias de eletricidade, parques eólicos e solares, assim como telecomunicações.

Os anos de expansão decorreram entre 2012 e 2015, quando a Europa, no auge de uma grave crise financeira, tomou medidas drásticas de austeridade que incluíram a venda de grandes infraestruturas.

Agora as empresas chinesas detêm participações em portos de países da UE, incluindo Grécia, Itália, Portugal, Espanha, Bélgica, Países Baixos e Alemanha, bem como em aeroportos, nomeadamente o de Toulouse, em França.

"A China está mais autoritária"

"Nos últimos seis, sete anos assistimos a duas coisas. A China tornou-se politicamente mais autoritária e economicamente mais divergente", disse Agatha Kratz, diretora do centro de investigação independente Rhodium Group, à euronews.

"O lado europeu também se apercebeu que há cada vez maior diferença nas posições económicas e políticas", acrescentou ela.

O controlo sobre infraestruturas comporta riscos em tempo de paz, incluindo espionagem, mas também a possibilidade de a China utilizar estes pólos comerciais na Europa para favorecer as suas empresas em detrimento das regionais.

Como a invasão da Ucrânia pela Rússia, teme-se que a China possa sentir-se encorajada a utilizar as suas forças militares em Taiwan (território separatista).

Pequim considera a ilha parte do seu território e, nos últimos meses, aumentou a retórica sobre uma eventual intervenção militar. Se talç acontecesse, a UE não teria outra escolha senão impor sanções, contra as quais Pequim retaliaria.

Mas há uma preocupação crescente sobre se a China poderia usar o seu controlo sobre as infraestruturas críticas da UE para exercer pressão adicional. 

A vulnerabilidade digital

As infraestruturas físicas, tais como portos e aeroportos, poderiam ser apreendidas pelos países da UE em caso de tensões geopolíticas extremas. Mas a verdadeira preocupação é a vulnerabilidade digital em relação à tenologia chinesa.

"Preocupo-me mais com outros tipos de vulnerabilidades, como no caso do 5G (geração de sistema de telemóvel), a possibilidade de ser utilizado para espionagem ou a possibilidade de ser desligado completamente", disse Ian Bond, diretor de política externa do Centro de Reforma Europeia (CER), à euronews.

"Assistimos, muito recentemente, a uma perturbação no sistema ferroviário alemão que parece ter sido causada por um ciberataque", acrescentou.

"Não ficou claro quem é que a levou a cabo a ação, mas se são as empresas chinesas que estão a instalar alguns destes sistemas, então as oportunidades para instalarem  mecanimos de controlo ocultos são muito maiores", disse Bond.

Dado que as empresas chinesas têm participações em redes elétricas europeias, bem como em projetos de energias renováveis e sistemas de telecomunicações, o potencial de perturbação pode ser enorme.

Mesmo que perdesse o controlo sobre os portos e aeroportos europeus, a China poderia usar os dados provenientes destes centros nevrálgicos para infligir danos.

"Tanto um porto marítimo como um aeroporto fazem parte de uma infraestrutura digital. Assim, quaisquer que sejam os contentores que passem pelo terminal do porto marítimo, deixarão muitos dados, muita informação relevante. Se a China tiver acesso a esses dados, saberá o que está nos contentores, quem os enviou e para onde vão, qual é a cadeia logística", disse Rühlig.

"Os chineses têm uma compreensão muito clara do que são bens críticos, o tipo de estrangulamento das cadeias de abastecimento e podem estar bem equipados para retaliarem sobre meia dúzia de produtores de um bem crítico para a Europa".

É por isso que houve controvérsia sobre o facto da China ter comprado uma participação num terminal portuário de Hamburgo, o terceiro porto mais da Europa.

"Isoladamente, tal investimento pode parecer um risco limitado, porque o que se pode fazer com os dados de um porto marítimo se há tantos outros? Mas chega-se a um ponto em que se tem uma massa crítica e depois penso que se todos estes dados forem combinados, torna-se o verdadeiro risco", concluiu Rühlig.

O inverso não é possível

Então, o que está a Europa a fazer a esse respeito? Já existe um mecanismo de rastreio dos investimentos estrangeiros na UE.

Mas, em última análise, cabe a cada Estado-membro decidir se permite o investimento, alegfando que é domínio da segurança nacional e da sua soberabia.

Foi o caso de Hamburgo, onde o chanceler alemão Olaf Scholz apoiou a venda, apesar das preocupações de outros Estados-membros da UE e dos próprios serviços secretos do país.

Outro argumento a favor de um mecanismo mais duro é também o facto de as infra-estruturas críticas serem cada vez mais transnacionais e interligadas.

A China foi também o tema de uma discussão de três horas entre os 27 chefes de Estado e de Governo, na sua cimeira em Bruxelas (21 de outibro), para determinar se a actual estratégia do bloco de considerar Pequim como parceiro em certas questões como as alterações climáticas, bem como um concorrente e um rival sistémico, ainda é a abordagem correcta.

Parece haver um reconhecimento crescente de que, tal como com a Rússia, a unidade e a solidariedade terão mais peso, daí as críticas sobre a viagem recente de Scholz à China, onde foi acompanhado por uma delegação empresarial.

"Dá a impressão de que o foco é realmente o compromisso económico, a cooperação económica, e penso que não devemos continuar a fazê-lo. Não é esse o sinal de que precisamos", disse Rühlig.

Contudo, mais decisões serão necessárias para formular adequadamente o que é crítico e o que é aceitável em termos de propriedade estrangeira e reciprocidade.

"Estamos a deixar a China investir em infraestruturas críticas europeias, mas a China nunca deixaria uma empresa europeia fazer o mesmo", sublinhou Kratz.

"É um sinal negativo que estamos a enviar quando aceitamos este tipo de investimento, mas o contrário não é possível".