O inverno acabou, mas será que a crise energética é coisa do passado?

O início de ano mais quente do que o normal fez com que os preços do gás na Europa voltassem aos níveis anteriores à guerra.
O início de ano mais quente do que o normal fez com que os preços do gás na Europa voltassem aos níveis anteriores à guerra. Direitos de autor Matthias Schrader/Copyright 2019 The AP. All rights reserved
De  Jorge Liboreiro
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Especialistas alertam que apesar do abrandamento da turbulência ainda há obstáculos a superar

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O inverno na Europa chegou ao fim.

Apesar da duração padrão de três meses, este ano pareceu a estação mais longa alguma vez registada: chegou entre avisos arrepiantes de escassez de gás, paralisia industrial, apagões generalizados, racionamento obrigatório e até instabilidade civil.

Por vezes, as manchetes pareciam prever o dia do juízo final para a energia na Europa. Mas, em vez disso, o inverno apareceu e passou, sem qualquer traço do vaticinado dia do julgamento.

Graças a uma combinação de políticas, dinâmicas de mercado, fenómenos climáticos e iniciativa pessoal, os europeus conseguiram evitar o pior cenário da crise energética, um feito notável em si mesmo, ainda que algumas das cicatrizes do período de tudo ou nada ainda estejam a sarar.

O esforço coletivo desenrolou-se aos olhos do público, com momentos intercalados de ousadia e histeria, e transbordou dos corredores do poder para conversas à mesa sobre contratos de eletricidade, bombas de calor e camisolas de gola alta.

O gás natural liquefeito (GNL), uma commodity desconhecida para os europeus comuns, tornou-se, de repente, um nome familiar e uma prioridade política, enquanto os altos e baixos no Title Transfer Facility (TTF),  a principal bolsa europeia de gás natural, foram acompanhados com palpitações e suores frios.

"Este ano ainda vai ser um desafio"

“Com a chegada da primavera, podemos, agora, dizer que administrámos bem esta temporada de inverno. Como terminámos com um armazenamento meio cheio, a primeira batalha desta guerra de energia com a Rússia ficou para trás com sucesso", disse à Euronews Kadri Simson, a comissária europeia com a pasta da Energia.

"No entanto, não devemos ter ilusões de que as coisas estão a ficar mais fáceis. Este ano ainda será um desafio e o ano seguinte também. Continua a haver muitas incertezas. Apesar da boa situação em geral em matéria de energia, precisamos de continuar alerta e de trabalhar arduamente para nos prepararmos para o próximo inverno."

Mas este sucesso não saiu barato: a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a União Europeia gastou no ano passado quase 400 mil milhões de euros em compras de gás – quase três vezes mais em relação à fatura de 2021.

De acordo com think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, o apoio fiscal lançado pelos países da UE para proteger os cidadãos e as empresas da crise corresponde a pelo menos 657 mil milhões de euros.

Só a Alemanha, um Estado-membro altamente dependente do gás, destinou, individualmente, 265 mil milhões de euros.

Embora a crise de energia seja frequentemente descrita como uma das consequências mais infames da invasão russa da Ucrânia, a crise é, na verdade, anterior à guerra.

O fenómeno remonta ao início da pandemia de COVID-19, quando países de todo o mundo entraram em confinamentos forçados e a economia global foi congelada. A paralisação empurrou a procura por energia para uma espiral descendente: os preços no mercado grossista caíram, os projetos de investimento foram interrompidos e os produtores reduziram a produção com receio de desperdício.

Os mercados atrofiados foram apanhados de surpresa quando, assim que as restrições da pandemia foram levantadas, os consumidores começaram a embarcar numa vaga de compras e de viagens para compensar o tempo perdido durante a quarentena. Os produtores de energia não conseguiram dar resposta a essa recuperação repentina, provocando um profundo desequilíbrio entre a oferta e a procura, que elevou os preços.

Em dezembro de 2021, os preços do gás eram quase três vezes mais elevados do que em relação ao ano anterior.

A roleta de gás da Rússia

Paralelamente, a Rússia, que na altura era o principal fornecedor de energia da União Europeia, começou a reduzir os fluxos de gás para o bloco, deixando o armazenamento em níveis drasticamente baixos. A tendência verificava-se a par de um destacamento cada vez maior de tropas ao longo da fronteira ucraniana.

As condições apertadas do mercado prepararam o terreno para a estratégia do presidente russo Vladimir Putin de usar a energia como uma arma, sublinhou, em entrevista à Euronews, Ben McWilliams, consultor de energia e clima do think tank Bruegel.

"A Rússia não estava a encher os stocks e isso fez soar alguns alarmes em toda a Europa", acrescentou McWilliams.

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“Se foi um ato geopolítico ou baseado no mercado, é impossível dizer com certeza. Mas arriscaria dizer que foi geopolítico e que fez parte de uma estratégia mais alargada para esgotar as reservas de gás europeias antes da invasão e depois jogar progressivamente com o sistema europeu.”

A invasão provocou um caos no mercado de uma magnitude sem precedentes, deixando os políticos europeus em pânico para substituir 140 mil milhões de metros cúbicos (bcm) de gás russo – cerca de 40% das importações totais.

Numa infeliz coincidência, a produção de energia nuclear de França caiu para o nível mais baixo em 30 anos devido a operações de manutenção, enquanto a produção hidroelétrica da Europa foi duramente atingida por uma seca severa.

No espaço de semanas, a capacidade de a Europa manter as luzes acesas esteve em causa.

O espetro do racionamento tornou-se tão palpável que Bruxelas foi obrigada a elaborar um plano a nível europeu para reduzir o consumo de gás em 15% antes da primavera, marcando a primeira vez que o bloco concordou com uma estratégia coordenada para limitar o uso de algo tão comum como o gás. .

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O poder da poupança

O estado febril dos preços do gás atingiu o pico no verão, quando os governos europeus, temendo um inverno de descontentamento, abriram os cordões à bolsa para pagar o que fosse preciso para encher os stocks.

A 26 de agosto, o Title Transfer Facility (TTF), a principal bolsa europeia de gás natural, atingiu um recorde histórico de 320 euros por megawatt-hora, oito vezes o preço registado no dia anterior ao início da invasão.

Para os que estavam sentados à mesa de negociações, surgiu uma constatação: os métodos tradicionais esgotaram-se e o pensamento não convencional era preciso para evitar uma catástrofe.

O ímpeto político trouxe uma série de medidas extraordinárias de energia: poupança obrigatória de energia durante o horário de pico, um imposto sobre lucros inesperados, regras de solidariedade padrão para evitar escassez e compras conjuntas para o fornecimento de gás foram medidas aprovadas em velocidade recorde.

Até mesmo um teto altamente divisor para os preços do gás foi acordado após duras negociações entre embaixadores e apelos apaixonados dos próprios líderes.

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Ironicamente, quando o limite foi estabelecido em 180 euros por megawatt-hora, os preços do gás tinham entrado em declínio gradual, voltando aos níveis pré-guerra no início de janeiro, quando um clima excecionalmente ameno varreu a Europa e domou a procura do consumidor.

À medida que as temperaturas subiam progressivamente, os preços continuavam a cair. No primeiro dia da primavera, os preços no TTF oscilaram abaixo dos 39 euros por megawatt-hora.

Embora os especialistas e analistas de energia celebrem a natureza inovadora dessas políticas da UE e como elas mantiveram o mercado único intacto, a maioria acredita que a chave para a gestão eficaz da crise está nas poupanças.

O medo esmagador de uma conta impossivelmente cara levou famílias e empresas a resolver o problema por conta própria e a reduzir o seu consumo bem antes de os políticos lhes dissessem para fazê-lo.

A procura de gás na UE caiu 13% no ano passado, o equivalente a 55 mil milhões de metros cúbicos e o suficiente para abastecer 40 milhões de casas, disse a Agência Europeia de Energia, falando na "queda mais acentuada da história" do bloco.

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A agência atribuiu os louros da poupança de gás à indústria, que reduziu as horas de produção e impulsionou a importação de produtos acabados, a ajustes nas casas, como a diminuição das temperaturas e dos banhos quentes, bem como à instalação de bombas de calor.

A geração de eletricidade foi o único setor que teve um aumento modesto no uso de gás devido à necessidade de compensar a menor produção de energia hidroelétrica e nuclear.

Elisabetta Cornago, investigadora sénior de energia no Centro para a Reforma Europeia (CER), descreveu as poupanças como uma "resposta impressionante", mas ressalvou que algumas das mudanças, particularmente os cortes industriais, foram temporárias e não "estruturais”.

"A resposta comportamental foi impulsionada pelo nível de preços e pelo receio de como estes afetariam as vidas das pessoas. Esses medos e preocupações levaram os consumidores a permanecerem do lado conservador e a tentarem limitar as horas em que ligavam o aquecimento", lembrou Cornago, em entrevista à Euronews.

"Os receios de escassez e de apagões eram substanciais. Não eram apenas um golpe mediático. No momento em que percebemos que as energias nuclear e hidroelétrica francesas eram fracas, o risco na frente de eletricidade e do gás tornou-se real.”

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"Ainda estamos em crise"

Com a calamidade amplamente evitada, muitos na Europa estão agora ansiosos para virar a página da crise energética.

O tema perdeu destaque nos círculos de Bruxelas, permitindo que assuntos como a migração e o transporte sustentável voltassem ao topo da agenda.

A calma, no entanto, não se deve transformar em complacência, alertam os especialistas, já que o desajuste global entre oferta e procura deve continuar a pressionar os preços.

As poupanças de gás e as importações de Gás Natural Liquefeito devem, em conjunto, ajudar a evitar a repetição do drama de 2022, sublinhou Nikoline Bromander, analista sénior da Rystad Energy, uma empresa de pesquisa independente.

"A Europa entra em 2023 com um mercado mais equilibrado", referiu Bromander à Euronews. “Por enquanto, parece que os fortes fundamentos de oferta e armazenamento estão a contrariar as previsões de clima frio.”

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Até o final deste ano, a Europa conseguirá importar mais 78 mil milhões de metros cúbicos de Gás Natural Liquefeito (GNL), abrindo caminho para fluxos constantes dos EUA, Catar, Nigéria e outros produtores.

Mas Bromader ressalvou que a Europa não será o único cliente a correr atrás dos navios de GNL.

"Estimamos que 60% do GNL que a Europa precisará em 2023 será na forma de volumes não contratados provenientes do mercado spot", disse Bromader. “Isso exigirá que a Europa concorra com o mercado global, incluindo a Ásia, e provavelmente resultará num mercado apertado até 2023.”

Michael Sohn/Copyright 2022 The AP. All rights reserved
Na Europa, o Gás Natural Liquefeito tornou-se numa tábua de salvação face ao gás russoMichael Sohn/Copyright 2022 The AP. All rights reserved

Ben McWilliams fez uma observação igualmente prudente, dizendo que, embora o poder da Rússia para distorcer os mercados à vontade se tenha esgotado, a crise energética está “a evoluir e a mudar, mas certamente não acabou."

“Estamos, agora, a entrar numa nova fase em que os preços do gás ainda estão estruturalmente mais altos do que há dois anos. Diria que é muito improvável que voltem para onde estavam há dois anos, pelo menos nos próximos anos", referiu McWilliams.

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"O sistema ainda continuará sob pressão. Por isso, ainda estamos em crise."

A Comissão Europeia já propôs estender o plano de redução de gás de 15% até março de 2024, refletindo como a poupança se tornou fundamental. As primeiras compras conjuntas de gás estão previstas para o verão, com o objetivo de garantir preços mais baixos para reabastecer os armazenamentos.

"Agora é importante que os Estados-membros mantenham o rumo e continuem com as ações que alcançarão os nossos dois objetivos: segurança energética e preços acessíveis", insistiu a comissário Kadri Simson.

Mas a questão do que constitui "preços acessíveis" em tempo de guerra ainda está em debate.

As famílias estão a descobrir como contemplar contas mais altas nas despesas mensais sem fazer sacrifícios desconfortáveis. Os líderes políticos e associações empresariais alertam para uma perda irreparável de competitividade e um êxodo industrial em massa se as faturas de energia não diminuírem.

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Então, quanto tempo durará a crise energética na Europa?

"Enquanto estivermos dependentes do abastecimento de gás para a economia e até que a transição energética esteja concluída, vai manter-se esta vulnerabilidade ao preço do gás ou ao que os fornecedores de gás decidam fazer. Por isso, o estado de alerta será contínuo”, lembrou Elisabetta Cornago.

"Não estamos fora de perigo”, concluiu.

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